«Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal, nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?).
Tudo é incerto e derradeiro,
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a Hora!»
Fernando Pessoa
A publicação de
numerosos escritos de Fernando Pessoa sobre temas
políticos
constitui um importante contributo para o
enriquecimento da cultura nacional, para a sua
reformulação em termos mais seguros e para a
revitalização de uma nacionalidade que, perdurando
há mais de oito séculos, continua à procura de um
rumo, uma razão de ser, uma justificação para
prosseguir, apesar dos circunstancialismos dos
tempos. Se a nossa época revela que uma crise
prolongada pôs em dúvida a nossa prossecução como
nação livre e independente, se a política que temos
vivido não conseguiu ainda encontrar uma ideologia
uniforme, firme e audaz no sentido da eficácia e da
durabilidade, se os portugueses continuam na
divisão, à procura de uma unidade, que dê coesão e
fundamento estável às formulações sociopolíticas e
económicas, isso deve-se, sobretudo, à ausência de
linhas de rumo verdadeiramente nacionais e,
simultaneamente, fiéis à civilização europeia e à
dimensão atlântica que nos identifica. Como afirma
Fernando Pessoa «foi pelo Atlântico que fomos à
procura da glória criando a Civilização Maior. É
pelo Atlântico que devemos ir em demanda da
civilização Máxima» (p.224).
De facto, se estes
escritos fragmentários de Pessoa revelam, não raro,
a ausência de monografias de base sobre o problema
nacional e a ausência de uma linha ideológica
suficientemente explícita, constituem, no entanto,
um notável apoio documental para qualquer meditação
sobre Portugal. Ao entrever as grandes linhas de
construção mental de Portugal, propõe que a sua
existência e continuidade secular se alicerce nas
raízes ancestrais de natureza espiritual ou cultural
que se começaram a evidenciar com a poesia dos
Cancioneiros e com os romances de cavalaria. Depois
de tecer diversas considerações sobre o carácter do
povo português, salientando os seus aspectos
negativos, vai abordar o fenómeno da decadência em
que Portugal continuava mergulhado na segunda década
do século XX. Ao tentar analisá-lo, equaciona nele o
próprio problema nacional – desde Alcácer-Quibir,
Portugal jamais se levantara da prostração em que
imergiram os seus mais altos valores. Isolado dos
outros povos, sobrevivia ainda, mas já não vivia – a
servil imitação das ideologias ou das revoluções
estrangeiras tinha-se tornado vulgar. Como remédio
para essa frustrante decadência propôs a
industrialização sistemática. Ontem como hoje, uma
revolução industrial urge em Portugal, sob pena de,
tardando demais, já não ser viável a recuperação que
o coloque ao nível de qualquer país europeu médio.
Outro factor de peso
na decadência fora, segundo o poeta, a lenta
desnacionalização do país, que faz recuar à
revolução de 1820. Nesta perspectiva, nota
igualmente que a incultura, a deficiente propaganda
de Portugal no estrangeiro e a ausência de
consciência superior de nacionalidade foram as
principais causas da desvalorização internacional de
Portugal (p.121).
Mas, neste contexto,
vê uma saída para a realidade portuguesa – o mito do
Quinto Império. Seria, para Fernando Pessoa, apenas
necessário reavivá-lo e renová-lo. A crença popular
no regresso do tão desejado D. Sebastião seria uma
realidade, apesar de todas as desventuras e da
desesperança que, tantas vezes, recaíram sobre o
povo. A hora da grandeza prometida, mas ainda não
cumprida, soaria finalmente. É então que considera,
entre os imperialismos possíveis, aquele em que o
país melhor se realizaria – o imperialismo cultural
que os descobrimentos tinham assumido pela sua
feição científica. Retomando o seu carácter criador,
a nação portuguesa daria forma á civilização
espiritual que as profecias do Bandarra previam.
Acentuando a
importância do inequívoco portuguesismo do mito
sebastianista, entrevê-o como o sustentáculo ideal
da realização suprema por Portugal do imprevisível,
mas certo, Quinto Império. O seu instrumento máximo
seria a própria língua portuguesa, ao encerrar em si
todos os valores culturais que nos definiam. Na
verdade, podemos hoje comparar esta asserção com o
Portugal sem colónias, mas ainda senhor do mundo
pelos milhões de portugueses que espalhados por
todas as partes do globo difundem os seus costumes e
os seus valores culturais. Igualmente os países de
expressão portuguesa recentemente descolonizados
poderão garantir a permanência da língua no
continente africano, do mesmo modo que o Brasil,
independente desde 1822, não só a conservou como a
enriqueceu.
Revertendo ao sonhado
D. Sebastião – salvador do destino de Portugal –
destacamos o facto de o autor da «Introdução»
associar a data de 1888, que Pessoa indica como o
ano da «vinda» de D. Sebastião, com a data do
nascimento do próprio poeta. Assim, ele seria esse
D. Sebastião – super-Camões, como o define o autor
de O Guardador de Rebanhos – que abriria
esses tão ansiosamente esperados Tempos Novos de
Portugal. Se essa hipótese aventada por Joel Serrão,
é plausível pelo carácter tantas vezes enigmático
dos escritos daquele, parece-nos pouco provável que
F. Pessoa se classificasse como um super-Camões
(real). Apesar de afirmar em certo passo que o génio
nunca é compreendido pelos seus contemporâneos, isso
não justifica que se quisesse identificar com o
desejado D. Sebastião. Além disso, sentimos que
falta aos seus escritos a largueza da sistematização
teórica clarificadora e aprofundada para que ele
pudesse representar esse doutrinador e homem de
acção que orientaria o futuro Portugal do Quinto
Império. Embora aborde as questões, fica pela sua
enunciação, não chegando a atingir o cerne do
problema nacional – falta-lhe o fundamento em
estudos anteriores para construir uma consistente
teoria da nação portuguesa.
Na sua desesperada
procura de um sentido para Portugal, como é afirmado
na «Introdução», Fernando Pessoa reflecte não só o
seu próprio tempo como também o controverso passado
e o desconhecido futuro que, mesmo assim, projectava
para os portugueses. Também actualmente se afigura
urgente a redefinição de Portugal por Portugal, para
que o seu autêntico sentido e significado sejam
delineados com base em factores que, na essência,
lhe dêem a dimensão que merece. Acusando os
governantes da República de não se apoiarem «nas
realidades psíquicas que são o fundamento da vida da
nação», mas de «viverem mentalmente do estrangeiro»
(p.123), pensa que «às influências estrangeiras» se
deve responder pela «capacidade de criação de novos
elementos civilizacionais» (p.117). Contudo, esta
tendência nacionalista de F. Pessoa só pode ser
considerada num sentido restrito, pois as realidades
peninsular, europeia e além-atlântica não podem ser
secundarizadas, na medida em que o alheamento das
ideias e das acções dos outros povos conduz
fatalmente à estagnação das nações, cujos problemas
são, cada vez com mais acutilância, problemas de
carácter universal.
Teresa Bernardino
*
*
Ortónimo de Teresa Ferrer
Passos.
Fonte: Diário de
Notícias, 8 /1/1980; Teresa Bernardino, O
Sentimento Patriótico em Portugal, Lisboa, ed.
Autor, 1983, pp. 49-51; Teresa Bernardino, Ensaios Literários e Críticos, Universitária
Editora, Lisboa, 2001, pp.89-93; Internet,
www.harmoniadomundo.net

A POLÍTICA E O MITO EM FERNANDO PESSOA

A
ausência de grandes teóricos do pensamento político
é uma das maiores falhas da história do povo
português. Este facto foi lesivo da construção de
uma política bem alicerçada e não em deriva,
conforme os ventos e as marés de interesses e
oportunismos imediatos. Portugal só brilhou quando
surgiu um D. Jerónimo Osório no século XVI, um D.
Rodrigo da Cunha no século XVIII ou um Almeida
Garrett no século XIX.
Nos princípios do século XX, será Teixeira de
Pascoaes a escrever a Arte de Ser Português (1915) e Fernando Pessoa a tentar fazer uma teoria
sobre Portugal, conforme os seus papéis
dactilografados ou os opúsculos dados a lume nos
constantes momentos críticos da política portuguesa.
Fernando Pessoa sentiu esses problemas talvez mais
especialmente, porque tendo vivido e estudado numa
África do Sul de cultura inglesa até aos dezassete
anos de idade, olhou Portugal como um estrangeiro
que, ao desembarcar em Lisboa, observa os costumes e
os comportamentos sociais com uma visão mais larga e
mais funda.
Estas considerações vêm a propósito da leitura de um
ensaio bastante curioso da autoria de Brunello de
Cusatis recentemente publicado por Caixotim Edições,
intitulado Esoterismo,
Mitoginia e Realismo Político em Fernando Pessoa.
Este estudioso da literatura e da língua portuguesa,
é professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na
Universidade dos Estudos de Perugia, em Itália.
Tendo publicado ensaios sobre as obras de Antero de
Quental e Fernando Pessoa nas suas vertentes
literária e política editados no seu país, acaba
agora de ver uma das suas deambulações sobre
Fernando Pessoa publicada pela Caixotim, conceituada
editora portuguesa, com sede na cidade do Porto.
Brunello de Cusatis faz uma análise objectiva de
problemas levantados pelo pensamento político do
autor da Mensagem. Para ser mais concreto,
divide o seu ensaio em duas partes: «Contemplação»,
em que aborda os aspectos míticos assim como os de
natureza esotérica de muitos dos escritos do Poeta,
e «Actuação», em que mostra a sua intervenção
através de opúsculos ou artigos de revista.
Releva, desde logo, a importância dada por Fernando
Pessoa ao mito na história do Povo português, o
contínuo recurso ao sebastianismo, a intuição de um
Quinto Império para realizar Portugal (e a própria
Europa), a ausência de fidelidade aos valores
nacionais, designadamente com o internacionalismo da
Maçonaria.
Neste contexto, Brunello de Cusatis acentua o papel
das ciências ocultas no desenvolvimento do
pensamento político do Poeta, referindo-se,
especificamente, à sua nota biográfica escrita em 30
de Março de 1935: «Fiel à tradição secreta do
cristianismo» e «iniciado nos três graus menores da
(aparentemente extinta) Ordem Templária em Portugal(...)».
E conclui: «Aqui, a atitude “Contemplativa” de
Pessoa (...) que se definirá em carta a Adolfo
Casais Monteiro, como um “nacionalista místico, um
sebastianista racional”» (p.30)
Captar, pelos pontos abordados, o(s) sentido(s) do
pensamento político de Fernando Pessoa, eis a meta a
atingir neste trabalho levado a cabo por Brunello de
Cusatis: o Poeta dos heterónimos era essencialmente
um espírito atormentado com a decadência da Pátria.
Decadência endémica que ia vendo nos dois regimes
que a sua vida de juventude viveu e a de adulto
atravessou.
Os
erros do Constitucionalismo monárquico repetiam-se
com o regime republicano. Outros erros foram
cometidos pelos autores da revolução de 28 de Maio
de 1926. Esta evolução política teria marcado,
segundo Brunello de Cusatis, todas as mudanças de
pensamento político de Pessoa. Nos escritos
dispersos, publicados ou inéditos, dos quarenta e
sete anos da sua vida, há um denominador comum: o
sentimento patriótico.
Portanto, não se trata de uma personalidade
fragmentada e incoerente, mas antes de uma
personalidade que punha os interesses da nação acima
da partidocracia do Constitucionalismo Monárquico e
do parlamentarismo republicano. O sentido de Pátria
era, na verdade, muito vincado no Poeta que
colaborou, com tanto entusiasmo, no movimento (e
revista) da «Renascença Portuguesa» (1912).
É
precisamente a Ordem dos Templários que se lhe
afigura ainda um bastião da força da tradição e dos
valores portugueses. E, como efectiva «fundadora de
Portugal», devia ser também a «condutora de
Portugal, não somente do passado mas também, e
sobretudo, do futuro» (p.30).
Segundo Brunello de Cusatis, há que realçar um
Fernando Pessoa em busca de uma mística e de um
mito, um grande mito que daria consistência à nação,
sem a desnacionalizar, como acontecera com as
revoluções liberal ou republicana.
Na
segunda parte, que intitulou «Actuação», Brunello de
Cusatis nota, acertadamente, que «a vida social e
política de Portugal entre 1910, ano da implantação
da República e 1935, ano da morte do Poeta, foi
caracterizada por contínuas e intrincadas mudanças
de regime e de governo, golpes de estado, agitações
e revoluções» (p.68).
Esta fragmentação da coesão nacional, a
desnacionalização provocada pela cedência a valores
de outras nações, que não seriam prejudiciais se
fossem universais, esvaziava o Povo português dos
seus fundamentos mentais edificados com a cruzada
cristã (papel relevante dos Templários) e a
consequente criação da nacionalidade no século XII e
a atingirem o ponto mais alto no século XV, com os
Descobrimentos, que lançariam a Europa numa
verdadeira Idade de Ouro.
As
«desaprovações» de Pessoa, como escreve Brunello de
Cusatis, reflectem, sobretudo, o seu ardor
patriótico e, ao mesmo tempo, os seus intuitos
universalistas: «Era o seu amor patriótico, o julgar
o seu país desnacionalizado e retrógrado que o
levariam, nos planos político e económico, a
encontrar e propor soluções, apenas na aparência
entre si contraditórias» (p.56). Assim, o autor
deste incisivo ensaio considera as polémicas
nascidas do pensamento político de Fernando Pessoa,
entre as quais destaca a travada entre Jacinto do
Prado Coelho e Alfredo Margarido, como
desnecessárias.
«O
acesso ao poder dos homens mais competentes para
exercê-lo» (p.38) devia pautar a vida política de um
país. Por isso, «o liberalismo de Fernando Pessoa
reflectia fundamentalmente (...) o seu aristocratismo
(no seu sentido etimológico de governo dos melhores) antidemocrático, o seu
extremismo individualista, a sua recusa do
socialismo e, portanto, de todos os centralismos
estatistas» (p.57).
Como muito claramente afirma Brunello de Cusatis,
Fernando Pessoa, «da Raça dos Descobridores»,
«despreza o que seja menos que descobrir um Novo
Mundo!»
Para o fazer de novo, seria preciso «um grande mito
nacional» e, a Portugal, não faltavam antecedentes
históricos. «A mitogenia portuguesa era demasiado
rica» (p.14) para não ser possível fazer um
«renascimento» de Portugal. Como diria Pessoa, «é a
hora», ou estaremos ainda longe desse tempo de
recriação da Pátria?
Teresa Ferrer Passos
.
Fonte: «A Política e o Mito em Fernando
Pessoa», Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de
Janeiro, 13/6/2005; Internet,
www.harmoniadomundo.net .

O PULSAR DA FILOSOFIA EM
FERNANDO PESSOA

«Eu não tenho
filosofia: tenho sentidos». Deste asserção, pode-se
dizer, parte todas as formulações filosóficas de
Fernando Pessoa. A sensação, a sensibilidade, a
emoção serão, sem dúvida, o princípio dos princípios
de qualquer das suas reflexões, dos seus poemas, da
sua dramaturgia. Quer o Poeta expressar a ideia de
que a filosofia deriva precisamente da percepção
alcançada pelos sentidos. Tudo tem neles a sua
origem. O próprio mistério, a sua simples captação
ou cogitação, não é mais do que uma manifestação dos
sentidos perante a racionalidade.
São os sentidos que
provocam a razão pensante. Por isso, Pessoa escreve:
«O único mistério é haver quem pense no mistério».
Se os sentidos pertencem ao visível, ao racional
como podem conceber o invisível ou o irracional?
Este questionamento pode relacionar-se,
explicitando-o, com outra frase do Poeta: «Há
metafísica bastante em não pensar em nada».
Precisamente no «não
pensar em nada» está o ponto culminante do mistério.
Ao «não pensar em nada» pensa-se, obviamente, em
alguma coisa, e, essa coisa, é o «nada». Esta
expressão, correspondendo à negação do ser, seria
naturalmente a afirmação do absurdo para quem só crê
no conhecimento atingido pela sensação. Sintomática
desta filosofia da sensibilidade, tão claramente
presente nos poemas de O Guardador de Rebanhos,
não pode deixar de ser a expressão: «Não acredito em
Deus porque nunca o vi». E logo a seguir, contrapõe:
« Pensar em Deus é
desobedecer a Deus
Porque Deus quis que
não o conhecêssemos
Por isso se nos não
mostrou»
Faz, assim, depender o
conhecimento humano dos sentidos. Mas quando diz que
Deus não se quis mostrar, aceita a existência de
Deus. Esse Deus está, pois, para Pessoa, além dos
sentidos. É o transcendente, ou seja, aquele que não
passa, não pode passar pela razão humana. Ao fazer
depender todos os pensamentos da sensibilidade,
sublinha:
«Penso com os olhos e
os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca
Pensar uma flor é
vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é
saber-lhe o sentido(…)
Sinto todo o meu corpo
deitado na realidade»
Mais adiante, ajuíza:
«A Natureza não tem
dentro(…)
Senão não era
natureza»
Para concluir:
«As coisas não têm
significação: têm existência.
As coisas são o único
sentido oculto das coisas»
De tal maneira a
sensibilidade é, no poeta dos heterónimos, condutora
de toda a existência humana que não põe em dúvida
que o próprio mundo «foi criado pela Emoção».
A emoção que é sobretudo rejeição ou comunhão,
criaria o existencial, pela recusa ou revolta dos
anjos «em busca da verdade para verem acima de Deus
que os criara(…) por isso, ao primeiro anjo rebelde
se chamou Lúcifer – o Portador da Luz».
E a «Luz» fez-se através da sensibilidade, da
emoção. Assim, todo o universo se moveu e se move
pela «emoção» que busca, provoca, desafia, dinamiza,
move. E tudo é movimento porque tudo é «emoção» –
esperança ou desespero, amor ou ódio, miséria ou
abundância. Emoção, sentidos, sensação – expressões
de verdade, e, em simultâneo, motivos de erro, de
ignorância, do próprio mistério…
Assim confrontado
entre as correntes espiritualista e materialista,
Fernando Pessoa irá inclinar-se para uma filosofia
em que a sensibilidade é a premissa de um
transcendentalismo inerente à própria imanência
existencial. O esoterismo constituiu a saída para
uma filosofia fundada na crença numa verdade
imanente e imbuída de transcendência.
Em carta escrita, em
1915, a Mário de Sá-Carneiro confessa que a tradução
de livros teosóficos o abalou profundamente,
acreditando estar nessas obras a «verdade real».
«Verdade real» que procurou atingir, primeiro pelos
sentidos, pela emoção, depois através de uma
iniciação oculta, mística, que, na essência, acaba
por não se desligar nunca da sua filosofia primeira:
a filosofia da sensibilidade. Já, em 1912, escrevia
em «Prece»: «Senhor, que és o céu e a terra, que és
a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o
vento és tu! Tu és nossos corpos e as nossas almas e
o nosso amor és tu também. onde nada está tu habitas
e onde tudo está – o teu templo) – eis o teu corpo»
A iniciação nas
ciências ocultas – desde a astrologia à magia negra
e à cabala – significou em Pessoa o epílogo das suas
deambulações filosóficas. De facto, não formulou (ou
não pretendeu sequer formular) uma filosofia de
sentido universalista; limitou-se a questionar o
ser, a natureza, o transcendente. A sua busca
filosófica assumia um sentido essencialmente
individual, isto é, tinha em vista uma satisfação de
natureza pessoal. Entre o misticismo e a magia,
desejava ansiosamente pela gnose.
Entre, então, no mundo
do ocultismo caótico, que o levará do estádio
filosófico ao estádio neo-pagão. No trilho da
verdade escondida, interroga-se fundamentalmente
sobre a primeira causa. A causa das causas ou o
absoluto manifesto. O transcendente tornava-se cada
vez mais a razão dos seus questionamentos profundos.
A imanência que lhe sugeriam os sentidos, acaba por
não lhe dar a resposta à angústia existencial que o
domina e flagela.
É a imanência que lhe
propõe o caminho para o infinito, o eterno, o espaço
do divino. Daí a sua ilação: «A Causa Infinita é
criadora da Realidade, que é infinita, e a Causa
Finita é criadora do Universo». E logo a seguir,
sublinha que «o universo não pode ser infinito,
porque infinito é só a infinidade. O universo não
pode ser eterno, porque eterna é só a eternidade»
Na linha de Sampaio
Bruno, identifica Deus com o «infinito puro». E, não
esquecendo as suas afirmações em A Ideia de Deus,
considera que a criação é «uma limitação, uma
negação de Deus por si mesmo».
Esta limitação de Deus não será a matéria, o espaço
heterogénio, ou melhor, a expressão da «queda de
Deus, defendida pelo filósofo portuense? O Deus
falho de omnipotência, segundo Sampaio Bruno, está
presente nas paginas fragmentárias, nas notas que
nos deixou Fernando Pessoa.
Mas igualmente o Deus
da Nova Jerusalém, o Deus do retorno ao «tempo puro
e homogénio» não está ausente. O Cristo seria, para
o autor de Mensagem, a mediação pela
Liberdade e pelo Amor para a sociedade nova, bem
simbolizada pela «Rosa Cruz». E como consegui-la?
Sampaio Bruno respondera: «Pela Liberdade. Pela
Igualdade. Pela Fraternidade». Não responderia
Pessoa de modo semelhante ao ter colocado na
República a esperança do Movimento «Renascença
Portuguesa»?
Este seria o veículo
para a realização de um verdadeiro Império da
Cultura, do Espírito, da Reconciliação, onde o
universalismo português traçaria o rumo que a
Humanidade acabaria por percorrer. Aqui se insere o
espírito de «um só pastor, um só rebanho» expresso
em A Ideia de Deus de Sampaio Bruno. Tendo
esta última obra sido publicada no ano de 1902, ela
exerceu, sem dúvida, o seu fascínio em Fernando
Pessoa. Estes foram bem reveladores da sua
inquietação existencial, das suas dúvidas perante um
espaço circundante pleno de contradições, de
indecifrável, de obscuras incógnitas.
Se os fragmentos, as
notas, os esquemas de obras que não chegou a
realizar, revelam um Poeta de largo pendor
filosofante, elas revelam também que se confrontou
com circunstancialismos presentes e do passado,
limitadores de teorizações exclusivamente
filosóficas. Na verdade, também a atmosfera
religiosa que envolveu sempre os nossos pensadores –
vocacionados, mas sem concretização plena – impediu
a formulação de consistentes especulações
filosóficas. Foram sintomáticos os casos de um
Amorim Viana, na 2ª metade do século XIX, de um
Sampaio Bruno, na 1ª década do século XX. de um
Teixeira de Pascoaes ou de um Leonardo Coimbra, os
três últimos, integrados na esfera intelectual
contemporânea de Fernando Pessoa.
Ao mesmo tempo, o
espaço poético do autor do Livro do Desassossego,
por ser demasiado intenso e profundo, impediu-o de
escapar ao seu predomínio na produção intelectual.
Esse espaço é de tal modo envolvente que, mesmo
quando procura no esoterismo a resposta para a sua
alma de interrogações meta-naturais, compara as
fases da iniciação oculta às fases do próprio poeta:
«O grau de Adepto será por analogia: 1º – escrever
poesia lírica simples, como na lírica vulgar; 2º –
escrever poesia lírica complexa; 3º – escrever
poesia lírica ordenada ou filosófica como na ode».
À filosofia portuguesa
põe-se (e continua a pôr-se) a grande questão: escapar
ou não escapar à dominante
tradição intelectual em que o teólogo e o comentador
têm estado sempre actuan