Aniversário do Nascimento de Fernando Pessoa: 120 anos depois...

.

Dia de Portugal

TRÊS ESTROFES DE OS LUSÍADAS

A ARTE DA COMÉDIA EM LUÍS DE CAMÕES

Na passagem do 90º Aniversário de Dalila Pereira da Costa

Teresa Ferrer Passos/Teresa Bernardino:

UMA ESTRANHA HISTÓRIA DE ALMA TRÁGICO-MARÍTIMA?

NUMA «HORA DE PRIMA»

EM BUSCA DE UMA NOVA CIVILIZAÇÃO ATLÂNTICA?

DA EXISTÊNCIA E DA MATÉRIA

Recortes de outros autores:

CONSIDERAÇÕES SOBRE A IDENTIDADE PORTUGUESA, Agostinho da Silva

O CONHECIMENTO, Edgar Morin

OS TRÊS MISTÉRIOS DA MATÉRIA, Roger Penrose

APRENDER É QUERER-SABER, Heidegger

O TEMA DA PAZ NA OBRA DE SANTO ANTÓNIO, F. da Gama Caeiro

PASCAL E OS TEMPOS MODERNOS, Manuel Antunes

ALGUNS SINAIS...

CARTA AO PAPA BENTO XVI

O CAOS CULTURAL DA MUNDIALIZAÇÃO, José Augusto Mourão

HARMONIA DO MUNDO

 

FILOSOFIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

____________________________

 

ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO

 

 de

 

 FERNANDO PESSOA:

 

120 ANOS DEPOIS...

 

(1888 - 2008)

 

 

 

 

 

 

 

Heterónimo: Álvaro de Campos

 

A LIBERDADE, SIM, A LIBERDADE!

 

A liberdade, sim, a liberdade!

A verdadeira liberdade!

Pensar sem desejos nem convicções.

Ser dono de si mesmo sem influência de romances!

Existir sem Freud nem aeroplanos,

Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

 

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais

A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!

Como o luar quando as nuvens abrem

A grande liberdade cristã da minha infância que rezava

Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...

A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,

A noção jurídica da alma dos outros como humana,

A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez

Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma

E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

 

Passos todos passinhos de criança...

Sorriso da velha bondosa...

Apertar da mão do amigo [sério?]...

Que vida que tem sido a minha!

Quanto tempo de espera no apeadeiro!

Quanto viver pintado em impresso da vida!

 

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,

Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote

Da casa do campo da minha velha infância...

Eu bebia e ele chiava,

Eu era fresco e ele era fresco,

E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.

Que é do púcaro e da inocência?

Que é de quem eu deveria ter sido?

E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?

 

17-8-1930

 

FONTE: Álvaro de Campos - Livro de Versos de Fernando Pessoa (Edição crítica dirigida por Teresa Rita Lopes, Lisboa, Estampa, 1993, p.137; Internet, http://arquivopessoa.net          
 

 

 

 

 

 

 

Luís Miguel Rosa Dias, sobrinho de Fernando Pessoa, durante a inauguração da Exposição 120º Aniversário do Nascimento de Fernando Pessoa, na Biblioteca Municipal de Amadora (arredores de Lisboa) em 11/10/2008.

 

 

 

 

 

 

 

NOVO ESPÓLIO DOCUMENTAL DE PESSOA

 

 

 

   Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa, vai leiloar documentos que encontrou, após a morte da irmã do Poeta. A propósito, declarou ao Diário de Notícias (20/10/2008) que os manuscritos de Pessoa a leiloar «não são como os documentos da primeira arca nem sequer são de uma segunda arca. Encontrei-os depois da morte de minha mãe, mas sabia da sua existência, porque ela me dissera que eram do tio Fernando, a que ele não dera muito valor».

 

  A descendente do Poeta dos heterónimos, alerta para que este património não seja vendido para França, como aconteceu com as suas cartas de amor.

 

  Esperamos que o Estado Português, designadamente  o Ministério da Cultura ou a Biblioteca Nacional, entre outros, não deixem este espólio da identidade pessoana por mãos alheias, pois a casa onde nasceu, o nº 4 do Largo de S. Carlos ao Chiado, em Lisboa, espera, há muito, poder vir a ser uma Casa-Museu Fernando Pessoa.

 

    Agora, há mais uma razão para lhe dar corpo, o que seria uma valorização do património da nossa cultura. E tal seria a opção natural, se um nome como o de Fernando Pessoa, fosse pertença de uma qualquer nacionalidade da Europa, a que pertencemos.

 

20/10/2008

                                                                                 

                                                                       Teresa Bernardino

 

 

 

 

 

 

 

 

LOAS E LAIS A FERNANDO PESSOA

 

 

I

 

Eu leio, até ao lai, tua Poesia

Que legaste a nós outros, e ao Graal,

Modernista do Verbo e da estesia,

Maravilha da «Ode Triunfal».

 

Guardador de rebanhos e palavras

Que foram qual abraço e qual o Hermes,

Da Rosa, verde lenho e verdes águas,

De ingénitas, irónicas e lemes,

 

Tu lias, ao crepúsculo, o experto

Cesário sentimento nosso Mestre,

E eu leio, ao lusco-fusco, o «A» de Alberto,

Que é símil ao Pastor e ao silvestre.

 

Se a sêmea foi «Orpheu» numa Lisboa,

O sémen é Infante que apaixona;

Se lúdica é a barca, ó tu, Pessoa,

Ajuda-me a trovar uma «Persona».

 

 

II

 

Marítimo é o viático ou viagem

Nas Índias duma nave mais etérea,

Que a Musa tem a gema, e, na «Mensagem»,

A mente vai agir sobre a matéria.

 

Em Gólgota glosavas a semente,

Em Crânio cavalgavas esse potro;

A mântica era a meta, e tua mente,

O discurso d’amável e do Outro.

 

Que eu sinto, meu Amigo, o teu exemplo,

Coas tábulas falando o magistério:

Se a forma de Ulisseia é tal e templo,

Descubro, na Palavra, o Quinto Império.

 

 

III

 

E, se a gema do Mestre é sal e pão,

Se «Opiário», foi alucinogénio,

Não façam, só da «pólis», a prisão,

Não matem, outra vez, o verde Génio.

 

 

Lisboa, Janeiro de 2004

 

PAULO JORGE BRITO E ABREU

 

 

 

 

«(...)

"(Na nora do quintal da minha casa

O burro anda à roda, anda à roda,

E o mistério do mundo é do tamanho disto.

Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.

A luz do sol abafa o silêncio das esferas

E havemos todos de morrer,

Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,

Pinheirais onde a minha infância era outra coisa

Do que eu sou hoje...)"

[excerto de Ode Triunfal de Álvaro de Campos]

 

Este movimento capital e desgarrado de regresso à Infância e à inocência real ou de sonho que ela configura, serviu para organizar à sua volta a primeira e, em certo sentido, definitiva imagem de Fernando Pessoa. Foi obra, como se sabe, mas é bom que se repita, do então jovem, audacioso e penetrante crítico Gaspar Simões. A sua intuição permanece intacta e merece-o, não só porque, como Freud lho havia ensinado, a Infância é o lar do Enigma que uma vida inteira não chega para resolver, como pelo facto de ser pessoa superlativa e genial confirmação disso mesmo. Pouco importa que Gaspar Simões se tenha porventura enganado – ou induzido sem provas cabais – na leitura objectiva desse enigma e, mais ainda, nas singulares consequências estéticas que dela inferiu, sobretudo mais tarde, na monumental biografia. A nostalgia da infância é efectivamente o centro da pulsão poética de Fernando Pessoa ou, melhor ainda, a forma mesma como concretamente preenche a intransponível distância que de si o separa (...)»

 

 

 

Fonte: Eduardo Lourenço, Fernando Pessoa Revisitado, 2ª edição, Moraes Editores, Lisboa, 1981, pp. 92-93.

 

 

 

 

 

 

a Fernando Pessoa

 

 

 

no meu primeiro quintal

passava o tempo sem espera

na espera de crescer e descobrir

um sentir novo, a brotar

do sol e do céu e da terra pura

e de todas as coisas que via sentindo,

ou apenas sentia

e descobria, no meu primeiro quintal.

Ou amanhã?

 

 

Lisboa, 13/Junho/2008

 

 

                           Teresa Bernardino *

 

 

* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos

 

 

 

 

 

 

 

FERNANDO PESSOA E A REPÚBLICA

(NO 1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA)

 

 

  

 

 

 

 

 

«Dispersando o seu pensamento por folhas de papel por imprimir, Fernando Pessoa deu forma à sua tão excelente construção poética, mas, igualmente, a acutilantes e inesperadas páginas de prosa densa e de forte fervor político. Fazendo uma pausa no que toca à primeira expressão, exaltada ou ignorada conforme o tempo e as razões, tracemos alguns dos pontos de vista presentes no seus escritos prosaicos sobre a problemática do regime republicano.

 

As suas ideias acerca do conturbado período que sucedeu à implantação da República diversificam-se ao longo dos anos. Isto significa que o pensamento de Pessoa sobre o novo regime foi um pensamento em mutação ou cíclico: inicialmente, alimentou-o a esperança, mas esta não durou muito; passou, em seguida, à situação de decepcionado, para mais uma vez nele ressurgir a esperança que viria, depois, a morrer.

 

Cada momento determina a Fernando Pessoa uma reacção ardente, um juízo mais agressivo ou mais benevolente, uma asserção que está na continuidade ou que contesta a crença anteriormente expressa. É uma amálgama onde o contraste e a concordância interpenetram o poeta dos heterónimos, que é vários e um só. Na dispersão dos seus escritos, acentuada pelo carácter fragmentário que possuem, existe a unidade do pensamento insubmisso e não comprometido com a labiríntica teia da política nacional.

 

Envolvendo-se nas malhas tecidas pelos acontecimentos, procura freneticamente as motivações que os impuseram; analisa comparativamente os tempos da Monarquia com a época pós-revolucionária; busca os erros em que ambos os regimes caíram; tenta descobrir para a nação a salvação libertadora dos vícios que a República não remediou, ao substituir o rei pelo presidente, mas mantendo a mentalidade dos tempos anteriores.

 

Numa primeira fase, F. Pessoa coloca a República como o regime da esperança, destacando, com veemência, os condicionalismos que a tornaram possível: a identificação da Monarquia com o catolicismo; a sua forma não portuguesa; a ausência de partidos separados por ideologias diferentes, mas de grupos formados por politiqueiros sem inteligência. Estes aspectos da Monarquia não abrangiam o novo regime, o que lhe ia garantir a construção de um Portugal outro, com uma identidade renascida, pronto para constituir uma vanguarda no mundo, como acontecera na época dos Descobrimentos quatrocentistas.

 

Os factos, contudo, tornaram breve o optimismo de Pessoa. O primeiro governo provisório da República revelou uma prática pouco consentânea com o clima de renovação e regeneração nacional que Fernando Pessoa tanto ambicionava para a Pátria incaracterística, de que a Monarquia constitucional era o paradigma. Ao observar as deficiências da nova ordem política, o poeta de Mensagem interroga-se sobre a solução-República. Estaria a República adaptada aos interesses nacionais? Responderia às inadiáveis questões que atormentavam o país? Quanto ao primeiro problema, Fernando Pessoa conclui que o partido republicano não era suficientemente português. Quanto ao segundo, era impossível responder, com eficácia, pois a República enfermava de três males congénitos: «demasiado socializante, demasiado não nacional e demasiado política»[1]. O primeiro governo provisório era o exemplo vivo da incapacidade «para disciplinar o país, para tornar firme a situação internacional e para seguir uma política patriótica, suprapessoal»[2].

 

A oportunidade para levar a cabo essa obra surgira, mas a República não a realizou devido, como justifica o poeta, «à desorientação radicalista, à incompetência intelectual e à desunião interna»[3]. Males que vinham do passado recente e que eram a razão de ser maior para o seu desejo de mudar o regime. A esperança da redenção da Pátria começou a esmorecer logo com a constituição do primeiro governo. Foi este que definiu as grandes linhas em que se atolou a República, ao longo de dezasseis anos de história e das quais não logrou sair senão temporariamente, quando emergiu no nebuloso horizonte português a figura carismática de Sidónio Pais, a dar expressão a uma Nova República.

 

Com o seu prestígio, com a sua autoridade, com o seu carácter generoso, Sidónio Pais aparecia como a decisiva panaceia para assegurar a vitória sobre as «forças dissolventes da nossa sociedade», que apenas substituíram o rei pelo presidente e os partidos por outros partidos semelhantes. Ora, considera F. Pessoa, não era essa a grande missão da República, não era esse o objectivo do derrube da Monarquia. Segundo pensa, ou a mudança se verificava nas estruturas mentais da nação ou então a mudança não valia a pena.

 

O movimento sidonista, apoiado pelas forças contrárias à demagogia crescente, criou uma nova esperança para a Pátria avassalada pelas ambiciosas facções políticas. Se a Monarquia «havia abusado das ditaduras, os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes»; se a Monarquia «havia desperdiçado os dinheiros públicos, a república que veio multiplicou por qualquer coisa os escândalos financeiros da monarquia»; se a Monarquia «havia desperdiçado os dinheiros públicos a república que veio multiplicou por qualquer coisa os escândalos financeiros da monarquia»; se a Monarquia «criara um estado revolucionário, a república veio e criou dois ou três estados revolucionários»; se a Monarquia «não conseguira resolver o problema da ordem, a república instituiu a desordem múltipla»[4]. E o poeta, adepto da República, termina o seu raciocínio evidenciando o seu mal-estar com o regime, onde pusera a esperança de regenerar Portugal: «Não melhoramos em administração financeira, não melhoramos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o sr. Afonso Costa»[5].

 

Neste depoimento pessimista podemos encontrar as razões que terão conduzido Fernando Pessoa a apoiar tenazmente o Presidente-Rei, como ele o designa com profunda veneração. É que, para o poeta e pensador inconformado com a realidade nacional que a República não transformara, o sidonismo, contrariamente a ela, inseria-se na tradição política portuguesa, ou seja, na monarquia absolutista ou representativa, onde «se equilibravam o despotismo central com a descentralização municipalista».

 

A Nova República instaurada pela acção do partido Unionista e a disponibilidade de Sidónio Pais, não prosseguia o constitucionalismo monárquico, como acontecera com a República estabelecida em 5 de Outubro de 1910. Nos escritos que elaborou a propósito da República de Sidónio, Fernando Pessoa aproveita para tecer várias críticas ao Constitucionalismo: o seu carácter não popular, o seu anti-catolicismo, a sua essência internacionalista. Como não servia, por estar fora do tempo, uma monarquia absoluta que extinguira a sua feição municipalista, também fora largamente prejudicial ao país a Monarquia Constitucional, onde as classes médias, como classes, não governavam, mas as classes médias políticas, isto é, as que defendiam interesses individuais.

 

A revolução Constitucional, escreve Pessoa, efectuou-se «em favor da burguesia europeia e não da portuguesa, (...) o liberalismo foi um anticatolicismo e foi também um antinacionalismo». Por isso, a República, por enfermar de defeitos idênticos, não foi mais do que o epílogo da Monarquia Constitucional.

 

O assassinato de Sidónio Pais representou para Fernando Pessoa, de novo, o ruir da esperança: o redentor que salvaria Portugal da incompetência, das ambições desenfreadas, da falta de sentido nacional, da desordem partidária, dos excessos incontrolados dos governantes vendidos a interesses alheios, da ausência de desenvolvimento económico e social, morrera às mãos dos que pretendiam continuar a viver na instabilidade e na caducidade cultural, por lhes convir não uma mudança da mentalidade provinciana numa mentalidade universalista, enraizada na nação, mas a simples mudança das pessoas que exerciam o mando. Era uma mudança puramente artificial, desprestigiante das recém-criadas instituições republicanas e reduzida à sobreposição dos benefícios individuais aos do Bem Geral.

 

Identificado inicialmente com o espírito da República, Fernando Pessoa, bem cedo, se apercebeu dos equívocos que lhe davam forma. Depois de lhe atribuir erros mais graves do que à Monarquia, não vacila em apoiar um homem secundado por muitos monárquicos patriotas. A aventura, no entanto, não foi longe. A esperança fugia novamente para um Pessoa cada vez mais desalentado com o triste panorama político português e que, em 1920, ainda recordava no poema À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, o «Herói que a morte sagrou Rei». A morte é, para o poeta, inaceitável ao não vislumbrar quem o siga com a mesma audácia. Afinal, é insubstituível. Logo não morreu, não pode morrer. Esta a ideia difusa no belo poema que referimos: «No oculto para o nosso olhar, / No visível à nossa alma, / Inda sorri com o antigo ar / De força calma (...) // Não sai da nossa alma a fé / De que, alhures que o mundo e o fado, / Ele inda pensa em nós e é / O bem-amado // (...) Flor alta do paul da grei, / Antemanhã da Redenção, / Nele uma hora encarnou el-rei / Dom Sebastião // (...) E no ar de bruma que estremece / (Clarim longínquo matinal!) / O DESEJADO enfim regresse / A Portugal!»[6].» 

 

 

Teresa Bernardino *

 

* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos

 

 

 

 

 

Fonte: Diário de Notícias, 26/6/1988; Teresa Bernardino, Ensaios Literários e Críticos, Universitária Editora, Lisboa, 2001, pp. 201-206; Internet, www.harmoniadomundo.net

 

 


 

[1] Fernando Pessoa, Da República (1910-1935), Ed. Ática, 1979, p.130.

[2] Ibidem, p.139.

[3] Ib., p.140.

[4] Ib., pp.149-150.

[5] Ib., p.150.

[6] Ib., p.231 e seg.

 

 

 

 

 

 

 

 

«SOBRE PORTUGAL – INTRODUÇÃO AO PROBLEMA NACIONAL»

 

 

 

                                                                                                                         «Ninguém sabe que coisa quer,

                                                                                                                          Ninguém conhece que alma tem,

                                                                                                                          Nem o que é mal, nem o que é bem.

                                                                                                                          (Que ânsia distante perto chora?).

                                                                                                                          Tudo é incerto e derradeiro,

                                                                                                                          Tudo é disperso, nada é inteiro.

                                                                                                                          Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

                                                                                                                          É a Hora!»

                                                                                                                                                       Fernando Pessoa

                                                                                                                                                        

 

 

A publicação de numerosos escritos de Fernando Pessoa sobre temas políticos* constitui um importante contributo para o enriquecimento da cultura nacional, para a sua reformulação em termos mais seguros e para a revitalização de uma nacionalidade que, perdurando há mais de oito séculos, continua à procura de um rumo, uma razão de ser, uma justificação para prosseguir, apesar dos circunstancialismos dos tempos. Se a nossa época revela que uma crise prolongada pôs em dúvida a nossa prossecução como nação livre e independente, se a política que temos vivido não conseguiu ainda encontrar uma ideologia uniforme, firme e audaz no sentido da eficácia e da durabilidade, se os portugueses continuam na divisão, à procura de uma unidade, que dê coesão e fundamento estável às formulações sociopolíticas e económicas, isso deve-se, sobretudo, à ausência de linhas de rumo verdadeiramente nacionais e, simultaneamente, fiéis à civilização europeia e à dimensão atlântica que nos identifica. Como afirma Fernando Pessoa «foi pelo Atlântico que fomos à procura da glória criando a Civilização Maior. É pelo Atlântico que devemos ir em demanda da civilização Máxima» (p.224).

 

De facto, se estes escritos fragmentários de Pessoa revelam, não raro, a ausência de monografias de base sobre o problema nacional e a ausência de uma linha ideológica suficientemente explícita, constituem, no entanto, um notável apoio documental para qualquer meditação sobre Portugal. Ao entrever as grandes linhas de construção mental de Portugal, propõe que a sua existência e continuidade secular se alicerce nas raízes ancestrais de natureza espiritual ou cultural que se começaram a evidenciar com a poesia dos Cancioneiros e com os romances de cavalaria. Depois de tecer diversas considerações sobre o carácter do povo português, salientando os seus aspectos negativos, vai abordar o fenómeno da decadência em que Portugal continuava mergulhado na segunda década do século XX. Ao tentar analisá-lo, equaciona nele o próprio problema nacional – desde Alcácer-Quibir, Portugal jamais se levantara da prostração em que imergiram os seus mais altos valores. Isolado dos outros povos, sobrevivia ainda, mas já não vivia – a servil imitação das ideologias ou das revoluções estrangeiras tinha-se tornado vulgar. Como remédio para essa frustrante decadência propôs a industrialização sistemática. Ontem como hoje, uma revolução industrial urge em Portugal, sob pena de, tardando demais, já não ser viável a recuperação que o coloque ao nível de qualquer país europeu médio.

 

Outro factor de peso na decadência fora, segundo o poeta, a lenta desnacionalização do país, que faz recuar à revolução de 1820. Nesta perspectiva, nota igualmente que a incultura, a deficiente propaganda de Portugal no estrangeiro e a ausência de consciência superior de nacionalidade foram as principais causas da desvalorização internacional de Portugal (p.121).

 

Mas, neste contexto, vê uma saída para a realidade portuguesa – o mito do Quinto Império. Seria, para Fernando Pessoa, apenas necessário reavivá-lo e renová-lo. A crença popular no regresso do tão desejado D. Sebastião seria uma realidade, apesar de todas as desventuras e da desesperança que, tantas vezes, recaíram sobre o povo. A hora da grandeza prometida, mas ainda não cumprida, soaria finalmente. É então que considera, entre os imperialismos possíveis, aquele em que o país melhor se realizaria – o imperialismo cultural que os descobrimentos tinham assumido pela sua feição científica. Retomando o seu carácter criador, a nação portuguesa daria forma á civilização espiritual que as profecias do Bandarra previam.

 

Acentuando a importância do inequívoco portuguesismo do mito sebastianista, entrevê-o como o sustentáculo ideal da realização suprema por Portugal do imprevisível, mas certo, Quinto Império. O seu instrumento máximo seria a própria língua portuguesa, ao encerrar em si todos os valores culturais que nos definiam. Na verdade, podemos hoje comparar esta asserção com o Portugal sem colónias, mas ainda senhor do mundo pelos milhões de portugueses que espalhados por todas as partes do globo difundem os seus costumes e os seus valores culturais. Igualmente os países de expressão portuguesa recentemente descolonizados poderão garantir a permanência da língua no continente africano, do mesmo modo que o Brasil, independente desde 1822, não só a conservou como a enriqueceu.

 

Revertendo ao sonhado D. Sebastião – salvador do destino de Portugal – destacamos o facto de o autor da «Introdução» associar a data de 1888, que Pessoa indica como o ano da «vinda» de D. Sebastião, com a data do nascimento do próprio poeta. Assim, ele seria esse D. Sebastião – super-Camões, como o define o autor de O Guardador de Rebanhos – que abriria esses tão ansiosamente esperados Tempos Novos de Portugal. Se essa hipótese aventada por Joel Serrão, é plausível pelo carácter tantas vezes enigmático dos escritos daquele, parece-nos pouco provável que F. Pessoa se classificasse como um super-Camões (real). Apesar de afirmar em certo passo que o génio nunca é compreendido pelos seus contemporâneos, isso não justifica que se quisesse identificar com o desejado D. Sebastião. Além disso, sentimos que falta aos seus escritos a largueza da sistematização teórica clarificadora e aprofundada para que ele pudesse representar esse doutrinador e homem de acção que orientaria o futuro Portugal do Quinto Império. Embora aborde as questões, fica pela sua enunciação, não chegando a atingir o cerne do problema nacional – falta-lhe o fundamento em estudos anteriores para construir uma consistente teoria da nação portuguesa.

 

Na sua desesperada procura de um sentido para Portugal, como é afirmado na «Introdução», Fernando Pessoa reflecte não só o seu próprio tempo como também o controverso passado e o desconhecido futuro que, mesmo assim, projectava para os portugueses. Também actualmente se afigura urgente a redefinição de Portugal por Portugal, para que o seu autêntico sentido e significado sejam delineados com base em factores que, na essência, lhe dêem a dimensão que merece. Acusando os governantes da República de não se apoiarem «nas realidades psíquicas que são o fundamento da vida da nação», mas de «viverem mentalmente do estrangeiro» (p.123), pensa que «às influências estrangeiras» se deve responder pela «capacidade de criação de novos elementos civilizacionais» (p.117). Contudo, esta tendência nacionalista de F. Pessoa só pode ser considerada num sentido restrito, pois as realidades peninsular, europeia e além-atlântica não podem ser secundarizadas, na medida em que o alheamento das ideias e das acções dos outros povos conduz fatalmente à estagnação das nações, cujos problemas são, cada vez com mais acutilância, problemas de carácter universal.

 

 

 Teresa Bernardino *

 

* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.

 

 

 

Fonte: Diário de Notícias, 8 /1/1980; Teresa Bernardino, O Sentimento Patriótico em Portugal, Lisboa, ed. Autor, 1983, pp. 49-51;  Teresa Bernardino, Ensaios Literários e Críticos, Universitária Editora, Lisboa, 2001, pp.89-93; Internet, www.harmoniadomundo.net


 

* Sobre Portugal. Introdução ao Problema Nacional, Ática, Lisboa, 1979.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A POLÍTICA E O MITO EM FERNANDO PESSOA

 

 

  

A ausência de grandes teóricos do pensamento político é uma das maiores falhas da história do povo português. Este facto foi lesivo da construção de uma política bem alicerçada e não em deriva, conforme os ventos e as marés de interesses e oportunismos imediatos.  Portugal só brilhou quando surgiu um D. Jerónimo Osório no século XVI, um D. Rodrigo da Cunha no século XVIII ou um Almeida Garrett no século XIX.

 

Nos princípios do século XX, será Teixeira de Pascoaes a escrever a Arte de Ser Português (1915) e Fernando Pessoa a tentar fazer uma teoria sobre Portugal, conforme os seus papéis dactilografados ou os opúsculos dados a lume nos constantes momentos críticos da política portuguesa.

 

Fernando Pessoa sentiu esses problemas talvez mais especialmente, porque tendo vivido e estudado numa África do Sul de cultura inglesa até aos dezassete anos de idade, olhou Portugal como um estrangeiro que, ao desembarcar em Lisboa, observa os costumes e os comportamentos sociais com uma visão mais larga e mais funda.

 

Estas considerações vêm a propósito da leitura de um ensaio bastante curioso da autoria de Brunello de Cusatis recentemente publicado por Caixotim Edições, intitulado Esoterismo, Mitoginia e Realismo Político em Fernando Pessoa.

 

Este estudioso da literatura e da língua portuguesa, é professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade dos Estudos de Perugia, em Itália. Tendo publicado ensaios sobre as obras de Antero de Quental e Fernando Pessoa nas suas vertentes literária e política editados no seu país, acaba agora de ver uma das suas deambulações sobre Fernando Pessoa publicada pela Caixotim, conceituada editora portuguesa, com sede na cidade do Porto.

 

Brunello de Cusatis faz uma análise objectiva de problemas levantados pelo pensamento político do autor da Mensagem. Para ser mais concreto, divide o seu ensaio em duas partes: «Contemplação», em que aborda os aspectos míticos assim como os de natureza esotérica de muitos dos escritos do Poeta, e «Actuação», em que mostra a sua intervenção através de opúsculos ou artigos de revista.

 

Releva, desde logo, a importância dada por Fernando Pessoa ao mito na história do Povo português, o contínuo recurso ao sebastianismo, a intuição de um Quinto Império para realizar Portugal (e a própria Europa), a ausência de fidelidade aos valores nacionais, designadamente com o internacionalismo da Maçonaria.

 

Neste contexto, Brunello de Cusatis acentua o papel das ciências ocultas no desenvolvimento do pensamento político do Poeta, referindo-se, especificamente, à sua nota biográfica escrita em 30 de Março de 1935: «Fiel à tradição secreta do cristianismo» e «iniciado nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária em Portugal(...)». E conclui: «Aqui, a atitude “Contemplativa” de Pessoa (...) que se definirá em carta a Adolfo Casais Monteiro, como um “nacionalista místico, um sebastianista racional”» (p.30)

 

Captar, pelos pontos abordados, o(s) sentido(s)  do pensamento político de Fernando Pessoa, eis a meta a atingir neste trabalho levado a cabo por Brunello de Cusatis: o Poeta dos heterónimos era essencialmente um espírito atormentado com a decadência da Pátria. Decadência endémica que ia vendo nos dois regimes que a sua vida de juventude viveu e a de adulto atravessou.

 

Os erros do Constitucionalismo monárquico  repetiam-se com o regime republicano. Outros erros foram cometidos pelos autores da revolução de 28 de Maio de 1926. Esta evolução política teria marcado, segundo Brunello de Cusatis, todas as mudanças de pensamento político de Pessoa. Nos escritos dispersos, publicados ou inéditos, dos quarenta e sete anos da sua vida, há um denominador comum: o sentimento patriótico.

 

Portanto, não se trata de uma personalidade fragmentada e incoerente, mas antes de uma personalidade que punha os interesses da nação acima da partidocracia do Constitucionalismo Monárquico e do parlamentarismo republicano. O sentido de Pátria era, na verdade, muito vincado no Poeta que colaborou, com tanto entusiasmo, no movimento (e revista) da «Renascença Portuguesa» (1912).

 

É precisamente a Ordem dos Templários que se lhe afigura ainda um bastião da força da tradição e dos valores portugueses. E, como efectiva «fundadora de Portugal», devia ser também a «condutora de Portugal, não somente do passado mas também, e sobretudo, do futuro» (p.30).

 

Segundo Brunello de Cusatis, há que realçar um Fernando Pessoa em busca de uma mística e de um mito, um grande mito que daria consistência à nação, sem a desnacionalizar, como acontecera com as revoluções liberal ou republicana.

 

Na segunda parte, que intitulou «Actuação», Brunello de Cusatis nota, acertadamente, que «a vida social e política de Portugal entre 1910, ano da implantação da República  e 1935, ano da morte do Poeta, foi caracterizada por contínuas e intrincadas mudanças de regime e de governo, golpes de estado, agitações e revoluções» (p.68).

 

Esta fragmentação da coesão nacional, a desnacionalização provocada pela cedência a valores de outras nações, que não seriam prejudiciais se fossem universais, esvaziava o Povo português dos seus fundamentos mentais edificados com a cruzada cristã (papel relevante dos Templários) e a consequente criação da nacionalidade no século XII e a atingirem o ponto mais alto no século XV, com os Descobrimentos, que lançariam a Europa numa verdadeira Idade de Ouro.

 

As «desaprovações» de Pessoa, como escreve Brunello de Cusatis, reflectem, sobretudo, o seu ardor patriótico e, ao mesmo tempo, os seus intuitos universalistas: «Era o seu amor patriótico, o julgar o seu país desnacionalizado e retrógrado que o levariam, nos planos político e económico, a encontrar e propor soluções, apenas na aparência entre si contraditórias» (p.56). Assim, o autor deste incisivo ensaio considera as polémicas nascidas do pensamento político de Fernando Pessoa, entre as quais destaca a travada entre Jacinto do Prado Coelho e Alfredo Margarido, como desnecessárias.

 

«O acesso ao poder dos homens mais competentes para exercê-lo» (p.38) devia pautar a vida política de um país. Por isso, «o liberalismo de Fernando Pessoa reflectia fundamentalmente (...) o seu aristocratismo (no seu sentido etimológico de governo dos melhores) antidemocrático, o seu extremismo individualista, a sua recusa do socialismo e, portanto, de todos os centralismos estatistas» (p.57).

 

Como muito claramente afirma Brunello de Cusatis, Fernando Pessoa, «da Raça dos Descobridores», «despreza o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!»

 

Para o fazer de novo, seria preciso «um grande mito nacional» e, a Portugal, não faltavam antecedentes históricos. «A mitogenia portuguesa era demasiado rica» (p.14) para não ser possível fazer um «renascimento» de Portugal. Como diria Pessoa, «é a hora», ou estaremos ainda longe desse tempo de recriação da Pátria?

 

 

Teresa Ferrer Passos

 

.

 

 

Fonte: «A Política e o Mito em Fernando Pessoa», Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro, 13/6/2005; Internet, www.harmoniadomundo.net .

 

 

 

 

 

 

 

 

O PULSAR DA FILOSOFIA EM FERNANDO PESSOA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

«Eu não tenho filosofia: tenho sentidos». Deste asserção, pode-se dizer, parte todas as formulações filosóficas de Fernando Pessoa. A sensação, a sensibilidade, a emoção serão, sem dúvida, o princípio dos princípios de qualquer das suas reflexões, dos seus poemas, da sua dramaturgia. Quer o Poeta expressar a ideia de que a filosofia deriva precisamente da percepção alcançada pelos sentidos. Tudo tem neles a sua origem. O próprio mistério, a sua simples captação ou cogitação, não é mais do que uma manifestação dos sentidos perante a racionalidade.

 

São os sentidos que provocam a razão pensante. Por isso, Pessoa escreve: «O único mistério é haver quem pense no mistério». Se os sentidos pertencem ao visível, ao racional como podem conceber o invisível ou o irracional? Este questionamento pode relacionar-se, explicitando-o, com outra frase do Poeta: «Há metafísica bastante em não pensar em nada».

 

Precisamente no «não pensar em nada» está o ponto culminante do mistério. Ao «não pensar em nada» pensa-se, obviamente, em alguma coisa, e, essa coisa, é o «nada». Esta expressão, correspondendo à negação do ser, seria naturalmente a afirmação do absurdo para quem só crê no conhecimento atingido pela sensação. Sintomática desta filosofia da sensibilidade, tão claramente presente nos poemas de O Guardador de Rebanhos, não pode deixar de ser a expressão: «Não acredito em Deus porque nunca o vi». E logo a seguir, contrapõe:

 

« Pensar em Deus é desobedecer a Deus

Porque Deus quis que não o conhecêssemos

Por isso se nos não mostrou»1

 

Faz, assim, depender o conhecimento humano dos sentidos. Mas quando diz que Deus não se quis mostrar, aceita a existência de Deus. Esse Deus está, pois, para Pessoa, além dos sentidos. É o transcendente, ou seja, aquele que não passa, não pode passar pela razão humana. Ao fazer depender todos os pensamentos da sensibilidade, sublinha:

 

«Penso com os olhos e os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido(…)

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade»2

 

Mais adiante, ajuíza:

 

«A Natureza não tem dentro(…)

Senão não era natureza»

 

Para concluir:

 

«As coisas não têm significação: têm existência.

As coisas são o único sentido oculto das coisas»3

 

De tal maneira a sensibilidade é, no poeta dos heterónimos, condutora de toda a existência humana que não põe em dúvida que o próprio mundo «foi criado pela Emoção»4. A emoção que é sobretudo rejeição ou comunhão, criaria o existencial, pela recusa ou revolta dos anjos «em busca da verdade para verem acima de Deus que os criara(…) por isso, ao primeiro anjo rebelde  se chamou Lúcifer – o Portador da Luz»5. E a «Luz» fez-se através da sensibilidade, da emoção. Assim, todo o universo se moveu e se move pela «emoção» que busca, provoca, desafia, dinamiza, move. E tudo é movimento porque tudo é «emoção» – esperança ou desespero, amor ou ódio, miséria ou abundância. Emoção, sentidos, sensação – expressões de verdade, e, em simultâneo, motivos de erro, de ignorância, do próprio mistério…

Assim confrontado entre as correntes espiritualista e materialista, Fernando Pessoa irá inclinar-se para uma filosofia em que a sensibilidade é a premissa de um transcendentalismo inerente à própria imanência existencial. O esoterismo constituiu a saída para uma filosofia fundada na crença numa verdade imanente e imbuída de transcendência.

Em carta escrita, em 1915, a Mário de Sá-Carneiro confessa que a tradução de livros teosóficos o abalou profundamente, acreditando estar nessas obras a «verdade real»6. «Verdade real» que procurou atingir, primeiro pelos sentidos, pela emoção, depois através de uma iniciação oculta, mística, que, na essência, acaba por não se desligar nunca da sua filosofia primeira: a filosofia da sensibilidade. Já, em 1912, escrevia em «Prece»: «Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. onde nada está tu habitas e onde tudo está – o teu templo) – eis o teu corpo»7

A iniciação nas ciências ocultas – desde a astrologia à magia negra e à cabala – significou em Pessoa o epílogo das suas deambulações filosóficas. De facto, não formulou (ou não pretendeu sequer formular) uma filosofia de sentido universalista; limitou-se a questionar o ser, a natureza, o transcendente. A sua busca filosófica assumia um sentido essencialmente individual, isto é, tinha em vista uma satisfação de natureza pessoal. Entre o misticismo e a magia, desejava ansiosamente pela gnose.

Entre, então, no mundo do ocultismo caótico, que o levará do estádio filosófico ao estádio neo-pagão. No trilho da verdade escondida, interroga-se fundamentalmente sobre a primeira causa. A causa das causas ou o absoluto manifesto. O transcendente tornava-se cada vez mais a razão dos seus questionamentos profundos. A imanência que lhe sugeriam os sentidos, acaba por não lhe dar a resposta à angústia existencial que o domina e flagela.

 

É a imanência que lhe propõe o caminho para o infinito, o eterno, o espaço do divino. Daí a sua ilação: «A Causa Infinita é criadora da Realidade, que é infinita, e a Causa Finita é criadora do Universo». E logo a seguir, sublinha que «o universo não pode ser infinito, porque infinito é só a infinidade. O universo não pode ser eterno, porque eterna é só a eternidade»8

 

Na linha de Sampaio Bruno, identifica Deus com o «infinito puro». E, não esquecendo as suas afirmações em A Ideia de Deus, considera que a criação é «uma limitação, uma negação de Deus por si mesmo»9. Esta limitação de Deus não será a matéria, o espaço heterogénio, ou melhor, a expressão da «queda de Deus, defendida pelo filósofo portuense? O Deus falho de omnipotência, segundo Sampaio Bruno, está presente nas paginas fragmentárias, nas notas que nos deixou Fernando Pessoa.

 

Mas igualmente o Deus da Nova Jerusalém, o Deus do retorno ao «tempo puro e homogénio» não está ausente. O Cristo seria, para o autor de Mensagem, a mediação pela Liberdade e pelo Amor para a sociedade nova, bem simbolizada pela «Rosa Cruz». E como consegui-la? Sampaio Bruno respondera: «Pela Liberdade. Pela Igualdade. Pela Fraternidade». Não responderia Pessoa de modo semelhante ao ter colocado na República a esperança do Movimento «Renascença Portuguesa»?

 

Este seria o veículo para a realização de um verdadeiro Império da Cultura, do Espírito, da Reconciliação, onde o universalismo português traçaria o rumo que a Humanidade acabaria por percorrer. Aqui se insere o espírito de «um só pastor, um só rebanho» expresso em A Ideia de Deus de Sampaio Bruno. Tendo esta última obra sido publicada no ano de 1902, ela exerceu, sem dúvida, o seu fascínio em Fernando Pessoa. Estes foram bem reveladores da sua inquietação existencial, das suas dúvidas perante um espaço circundante pleno de contradições, de indecifrável, de obscuras incógnitas.

 

Se os fragmentos, as notas, os esquemas de obras que não chegou a realizar, revelam um Poeta de largo pendor filosofante, elas revelam também que se confrontou com circunstancialismos presentes e do passado, limitadores de teorizações exclusivamente filosóficas. Na verdade, também a atmosfera religiosa que envolveu sempre os nossos pensadores – vocacionados, mas sem concretização plena – impediu a formulação de consistentes especulações filosóficas. Foram sintomáticos os casos de um Amorim Viana, na 2ª metade do século XIX, de um Sampaio Bruno, na 1ª década do século XX. de um Teixeira de Pascoaes ou de um Leonardo Coimbra, os três últimos, integrados na esfera intelectual contemporânea de Fernando Pessoa.

 

Ao mesmo tempo, o espaço poético do autor do Livro do Desassossego, por ser demasiado intenso e profundo, impediu-o de escapar ao seu predomínio na produção intelectual. Esse espaço é de tal modo envolvente que, mesmo quando procura no esoterismo a resposta para a sua alma de interrogações  meta-naturais, compara as fases da iniciação oculta às fases do próprio poeta: «O grau de Adepto será por analogia: 1º – escrever poesia lírica simples, como na lírica vulgar; 2º – escrever poesia lírica complexa; 3º – escrever poesia lírica ordenada ou filosófica como na ode»10.

 

À filosofia portuguesa põe-se (e continua a pôr-se) a grande questão: escapar ou não escapar à dominante tradição intelectual em que o teólogo e o comentador têm estado sempre actuan