CONTO

Excertos

 

 

 

 

 

 

 

«TORMENTA»

 

Conto-poema de Juan Ramón Jiménez*

 

 

Medo. Respiração contida. Suor frio. O terrível céu baixo afoga o amanhecer. (Não há por onde fugir.) Silêncio... O amor pára. Treme a culpa. O remorso fecha os olhos. Mais silêncio...

O trovão, surdo retumbante, interminável, como uma enorme carga de pedra que do zénite caísse sobre a aldeia, percorre, longamente, a manhã deserta. (Não há por onde fugir.) Quanto é débil − flores, pássaros − desaparece da vida.

Tímido, o espanto olha pela janela entreaberta de Deus, que tragicamente se ilumina. No oriente, entre rasgões de nuvens, vêem-se uns tons malvas e róseos, tristes, sujos, frios, que não podem vencer a negrura.

Ave-marias! Umas ave-marias fortes e abandonadas soluçam sob o trovão. As últimas ave-marias do mundo? E deseja-se que o sino acabe depressa, ou que toque mais, muito mais, que afogue a tormenta. E vai-se de um lado ara o outro, e reza-se, e não se sabe o que se quer...

(Não há por onde fugir.) Os corações estão hirtos. As crianças choram...

− Que será de Platero, tão só no curral indefeso da cerca?

 

* Juan Ramón Jiménez (1881-1958), autor do livro Platero e Eu, Editora Livros do Brasil, 2003 (publicado em primeira edição em 1914), em prosa poética e com alguns dados autobiográficos. Foi Prémio Nobel da Literatura em 1956. Inaugurou um novo estilo poético a que  chamou "poesia crua".

 

 

 

 

 

 

 

 

«UM HOMEM ZELOSO»

 

Conto de Tchekov*

 

Durante vinte anos, o director da companhia dos caminhos de ferro ZBK pensara sentar-se à mesa de trabalho; decidiu-se a isso, finalmente, há dois dias. Uma ideia que lhe enchera metade da existência, uma ideia ardente, inquieta, disparatada, se lhe agitara na cabeça, principiara a exteriorizar-se, tomara forma e contornos, desenhara-se nas suas linhas gerais, precisando-se em todos os pormenores; enfim, crescera para atingir as dimensões de um projecto grandioso. Instalou-se ele, portanto, à secretária, pegou na pena, e embrenhou-se na via espinhosa da criação literária.

 

Era uma manhã calma, luminosa, fria. Como estava agradável no escritório tépido! Uma xícara de chá fumegava em cima da mesa, não havia barulho de marteladas, nem gritos, nem conversas fastidiosas. Que ambiente extraordinário para escrever! Era só pegar na pena e deixá-la ir...

 

O director não teve necessidade de raciocinar muito antes de dar início à obra. Desde há muito que tudo estava começado e acabado no cérebro: bastava reproduzir. Carregou o cenho, apertou os braços, aspirou um hausto [sorvo] de ar e escreveu o título: Algumas palavras em defesa do Livro e da Imprensa. Amava apaixonadamente a letra impressa, dedicava-lhe todo o seu coração, toda a sua alma, todos os seus pensamentos. Tomar a palavra para «a» defender, gritá-la bem alto para que soasse em todos os ouvidos, eis o sonho que mais acalentara durante vinte anos. Devia-lhe muitas coisas, o desenvolvimento da sua personalidade, a revelação dos abusos, as suas funções... Sim, muitas coisas. Era, pois, imprescindível agradecer-lhe. E sentir-se escritor, nem que fosse um só dia... Dizem mal dos que escrevem, mas consideram-nos bastante. As mulheres sobretudo.

 

Terminado o título, o director soprou uma baforada de ar, e em seguida escreveu catorze linhas sem parar. Aquilo ia bem... Começou por tratar da imprensa em geral e depois redigiu meia página relativamente à liberdade de expressão. Exigiu-a! Protestos, factos históricos, citações, máximas, censuras, sarcasmos, tudo isto se espalhava em profusão sob aquela pena acerada.

 

Somos liberais, escrevia ele. Trocem do termo, zombem, mostrem os dentes! Quanto a nós, estamos e estaremos sempre orgulhosos deste nome, por tanto tempo quanto...

 

Os jornais acabam de chegar − anunciou o criado.

 

Todos os dias, às dez horas, o  director entregava-se à leitura das gazetas. Nesse dia não alterou os seus hábitos. Interrompendo o trabalho, pôs-se de pé, espreguiçou-se, estendeu-se no sofá e começou a ler. Pegou em primeiro lugar nos Tempos Novos [jornal conservador de S. Petersburgo em que Tchekov publicou novelas], esboçou um sorriso de desprezo, percorreu com a vista o artigo de fundo e, sem acabar a leitura, atirou fora o jornal.

 

− Patife... − resmungou − Vais ver o que te faço.

 

Depois de arremessar  Os Tempos Novos para cima da cadeira, o director pegou na Voz [jornal liberal de S. Petersburgo]. Um sentimento de ternura lhe adoçou o olhar, um leve rubor lhe coloriu as faces. Gostava da Voz. Fora outrora seu colaborador. Leu até ao fim o artigo de fundo e as diversas notícias, percorreu com a vista a crónica. Conforme avançava na leitura, o olhar luzia-lhe mais. Foi até ao final da «Revista da Imprensa», e passou à terceira página.

 

− Sim, sim. É assim mesmo... também eu insisti no assunto... Absolutamente certo! Hum... E que é isto?

 

O director piscou os olhos.

Acerca da linha do caminho de ferro ZBK, leu ele, mandaram estudar, há poucos dias, um projecto bastante estranho... O autor do projecto é o director da companhia, nem mais nem menos, antigo...

 

Meia hora depois de terminar a leitura da Voz, o director, instalado na sua mesa de trabalho, estava ocupado a escrever. Vermelho, trémulo, a transpirar, redigia «uma circular para todos os empregados». Nela se recomendava que não assinassem determinados jornais e revistas. Perto do director enfurecido viam-se pedaços de papel rasgado. Constituíam meia hora antes Algumas Palavras em defesa do Livro e da Imprensa.

 

Sic transit gloria mundi.»

 

(in Contos e Narrativas de Tchekov − 1883-1884, Tradução de Maria Franco, Estúdios Cor, Lisboa, 1971, pp. 37-39)

 

* Tchekov (1860-1904) nasceu na Rússia, em Taganrog. De uma família de camponeses, foi professor de Medicina da Universidade de Moscovo. Tendo iniciado a carreira literária com pouco sucesso, acabou por se tornar um contista e um dramaturgo de grande notoriedade, tanto nacional como internacional. Entre as suas peças de teatro mais conhecidas estão A Gaivota, As três Irmãs, e O Jardim das Cerejeiras. Na arte do conto é considerado um génio inovador pela técnica da narrativa muito curta, ao mesmo tempo, que "um enamorado da humanidade", como diria Virgínia Woolf.

 

 

 

 

 

 

[ Página Principal ]

Blogue em 4x4 ] Ciências ] Ensina-me a Viver ] Filosofia e Teologia ] Literatura ] Mundo da Criança ] Notícias e Opinião ] Poesia ]