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OS QUATRO AMIGOS DESAVINDOS
(Peça Infantil)
por Teresa Ferrer Passos
Quatro amigos resolveram juntar-se para tirar uma fotografia para a Internet.
Chamavam-se Asinha Amarela, Chapelinho Azul Turquesa, Chinela Vermelha e Folhinha Verde.
Começam a discutir antes de posar para o retrato.
Asinha Amarela
Quero ser o melhor da fotografia! Vejam as minha asas em leque!
Chapelinho Azul Turquesa
Eu também tenho um lindo chapéu com borlas verdes...
Chinela Vermelha
Acho que sou eu aquele que vai ficar melhor! Vejam as minhas chinelas!
Folhinha Verde
Isso é o que tu julgas... A minha folhinha verde é bem mais vistosa...
Asinha Amarela
Vocês são uns vaidosos! Quem fica mesmo bonito sou eu! Com estas asas!
Chapelinho Azul Turquesa
Olha quem fala...Ah! Ah! Ah! Só o meu chapéu vale mais que tudo...
Folhinha Verde
Ainda não reparaste foi em mim! Vê como é bela a minha folha...
ela vai fazer de mim o melhor da fotografia...
Chinela Vermelha (cabisbaixo)
Como é possível que não vejam que as minhas chinelas vermelhas valem mais do que tudo!
O que vocês tanto elogiam como o melhor...
Chapelinho Azul Turquesa
Não sabem o que é o belo, é o que é... Só a cor do meu chapéu...
Folhinha Verde
O belo, o belo, o que é o belo? Se olhasses para a minha folha...
Como é bem recortada, como é elegante...
Asinha Amarela
As minhas asas em leque ninguém as vence... Todos os que me virem na fotografia
vão estar de acordo. Eu sou o mais bonito!
Chapelinho Azul Turquesa
Ah! As tuas asas são uns abanos sem graça! Pelo menos, sei que
a cor do meu chapéu é mais bonita!
Chinela Vermelha
Porque dizem todos o mesmo? Todos vocês são os melhores para vocês!
A fotografia vai ser vista por outros...
Folhinha Verde
Tens razão! Assim nunca mais nos tiram a fotografia e ninguém nos vê...
Chapelinho Azul Turquesa
Se continuamos a discutir, para quando ficar quietos para a fotografia?
Chinela Vermelha
É verdade o que dizem... Para quê querermos ser melhores uns do que os outros?
Só devemos querer ser o que somos capazes de ser...
Folhinha Verde
E o juízo do que nos virem na fotografia, não nos deve ralar muito...
Chapelinho Azul Turquesa
Acho que tiveste uma óptima ideia!
Asinha Amarela
Que importa o que é mais belo, as chinelas, a folha verde ou as minhas asas amarelas...
Chinela Vermelha
É isso mesmo! Não terão todas elas uma beleza diferente,
mas beleza, para ficarmos bem na fotografia?
Foi nesse momento em que a discussão terminou que o fotógrafo
fez o flash e ficaram assim, todos muito belos na fotografia!
O BERRO
Conto inédito de Teresa Ferrer Passos*
O menino crescia devagar.
A mãe levava-o às compras quando não estava a saborear a doce treva do seu quarto habitado por gritos, urros, gargalhadas estrondosas.
Mas temendo que o filho quisesse dar uma curta corrida, metia-o no carrinho amolgado.
Amolgara-o num dia em que a sua fúria decidira destruí-lo a ele, não ao carrinho.
Mas era o carrinho, e não o filho, que estava junto aos seus joelhos pesados de banhas.
Fora o carrinho a tombar sob o peso das suas mãos envolvidas em gritos.
O pequenino chamava-se Mani. E logo que ele começava a chorar de saudade, ela berrava o seu nome.
«Pára, Maniii!, pára, pára!!!». Berrava, não gritava.
Ela já nem sabia gritar. Tudo nela entrava e saia da sua boca como um berro a ecoar na distância.
Então, Mani tinha saudade de um tempo pré-natal, desse tempo em que nunca se encontrava acordado, em que sua mãe parecia não lhe dizer uma única palavra e em que o pai raras vezes se sentava à mesa.
Tinha saudade da noite sempre acesa em que sua mãe mais parecia estar sempre a dormir com ele.
Agora, como gostava de gatinhar no lajedo e de se estender todo como se a própria pedra fosse relva enfeitada com o orvalho da noite silenciosa.
Sua mãe, sempre com uma irritação na voz finíssima, berrava dezenas de vezes o seu nome.
«Não mexas nisso! Maniiii! Não ouves?!».
Os seus ouvidos gostavam de ouvir ela dizer «Maniiiiii!».
Ele gostava tanto de a ouvir dizer o seu nome! O berro sonoroso enchia-o de um contentamento!
«Maniiiii», berrou.
«Não te reboles nos troncos da videira que teu pai acabou de podar!», berrou de novo.
Os ouvidos de Mani ouviram o berro como um leve murmúrio.
A voz escaldante de som da mãe perdia-se agora nas ruas estreitas da vila.
A voz da mãe de Mani transformara-se, de súbito. E Mani ouvia a voz estridente de berros, como se fosse um sussurro.
No dia seguinte, a mãe movia os lábios com as faces rubras como era costume quando berrava.
Mas Mani não voltou a ouvir ela pronunciar, sequer, o seu nome…
E Mani começou a chorar de saudade.
8 de Novembro de 2007
* Ortónimo de Teresa Bernardino.
APONTAMENTO
Ó rapaz calado e pobre
Varrendo as folhas do chão:
A tua face descobre
O espelho da solidão.
Com teu carrinho de folhas,
Descendo pela avenida,
Se por acaso me olhas
Tenho vergonha da vida.
Diz que perdoas meu fato
Junto do teu abandono,
Moço de fato-macaco,
Que varres folhas de Outono...
Matilde Rosa Araújo*
*Este poema foi retirado do livro da autora O Cantar da Tila e transcrito por José António Gomes, A Poesia na Literatura para a Infância, pág.51. A obra para a infância de Matilde Rosa Araújo foi objecto da 2ª parte deste livro (pp.83 -114).
AQUÁRIO
Vivia no mar largo
e era feliz
feliz.
Sabia os sítios seguros
onde os maiores e mais duros
não podiam atacar
não o podiam caçar
não o podiam comer.
E continuava a viver.
Quando nadar o cansava
uma alga procurava
e dormia um bocadinho
e a onda que o embalava
era amiga do peixinho.
A onda amiga ondulava
enquanto o acalentava
aquecia
arrefecia
e para longe o levava.
Tão longe
tão vasto o mundo...
o seu mundo!
Tão largo, alto, profundo!...
Que alegria de nadar!
Mas um dia aconteceu
que um fenómeno se deu:
Foi pescado
foi levado
para fora do seu mar
para longe do seu lar
transportado
bem fechado
numa prisão de cristal.
E
se não lhe fizeram mal
se o não comeram com sal
está muito descontente
nessa prisão transparente
à vista de toda a gente.
Alice Gomes*
*Poema extraído do livro da autora Bichinho Poeta, pp. 24-27. Foi transcrito por José António Gomes, A Poesia na Literatura para a Infância, Edições Asa, Lisboa,1993, pág. 49-50.
RELÓGIO DE CUCO
É a menina que não quer comer
que diz que é cedo e que não gosta
mesmo sem saber
se gosta ou não gosta...
É a menina que bate o pé
e diz que não usa
nem chapéu nem boné
nem vestido nem blusa.
É a menina que quer dormir
quando são horas de levantar.
É a menina que quer ficar
quando são horas de deitar.
É a menina que gira ao contrário
como um relógio maluco
arrumado no armário.
Ou como um relógio de cuco
que diz sempre a mesma coisa
a horas certas e sem pensar
e só para contrariar...
Maria Cândida Mendonça*
*No ínício do livro de sua autoria O Livro do Faz-de-Conta, a autora diz: "Gente crescida / parece tonta não entende nada / do “faz-de-conta”. Este poema pertence a esse livrinho publicado pela editora Plátano, pág.10 (citado por José António Gomes, A Poesia na Literatura para a Infância, pp.55-56)
RETRATO DE ANNA
TU já viste um passarinho nascer?
É como Anna a acordar.
Tu já viste um passarinho voar?
É como Anna a crescer.
Tu já viste um passarinho beber?
É como Anna a mamar.
Tu já ouviste um passarinho piar?
É como Anna a chorar.
Tu já viste um passarinho saltar?
É como Anna a mexer.
Tu já viste um passarinho cantar?
É como Anna a viver.
Tu já viste o mais belo passarinho?
É como Anna!
Ester Luísa Dias*
*Poema publicado na antologia Viola Delta, Volume XXII,
Edições Mic, Lisboa, 1996, pág.19.
A ÁGUA E A CRIANÇA*
Plim, plim, plim
- cai uma gotinha
de água
entre as folhas
amarelecidas no chão.
Logo mais,
Vai se transformando
em fio d'água, Fazendo valeta
Pelo meio do mato.
Plim, plim, plim,
- é a nascente
de um rio,
cantando, murmurando
e insinuando sua forma líquida
no chão da Terra.
Plim, plim, plim,
- os olhos de uma criança
acompanham com encantamento,
a Vida, que se faz
feito Ternura ao seu redor.
Lá dentro,
- no espelho d'água,
Ela vê o seu rostinho
Devolvendo-lhe
o olhar extasiado.
Lá dentro,
- naquele fio d'água,
sacia a sede,
bebendo o líquido
na concha das mãos.
Nesta água querida,
Banha o seu corpo,
Que sente o abraço
Amoroso da vida,
Num batismo de energia
e de vitalidade.
A criança sorri,
A água murmura,
Corre e canta...
A criança é Luz
Brinca,
e se encanta.
Água - criança -
Luz - sorriso -
Vida - alegria -
É o Milagre da Mãe-Terra,
Envolvendo
duas Criaturas amadas
Num abraço de Ternura
E de eterno Agradecimento.
27/6/2007
Saleti Hartmann
* site Usina de letras, www.usinadeletras.com.br, «Infantil»
O CACHECOL DA POMBA PETRONILA
(Conto de Ricardo Alberty)
«A Pomba Petronila acordou estremunhada.
Há um tempo para cá dormia pouco e mal, porque era muito sensível e os vizinhos começavam a arrulhar logo de manhã, naquele pombal novo, de ninhos todos iguais, mandado construir pela Columbófila.
Ainda não se habituara àquele novo modo de vida, porque só há um ano casara com o pombo Aristides e viera para ali morar.
Mas não era só por isso que a pomba Petronila andava nervosa.
Andava nervosa, porque tinha um sonho e ainda não conseguira realizá-lo.
O sonho da pomba Petronila era ter um cachecol, mas um cachecol moderno, de cor clara e de bom pêlo, para sair à rua no Inverno, quando ia de manhã à praça ou passeava à tarde pelo Chiado com as amigas pombas da sua criação.
O dinheiro não chega para nada, mas a pomba Petronila tinha jurado que não passava do Natal sem comprar o seu cachecol.
Por isso saltou logo do ninho, espreguiçou-se, estendeu a pata e começou a vestir-se sem fazer barulho, para não acordar a ninhada de borrachinhos. Tinha quatro. Calçou as meias, atou as fivelas dos sapatos, vestiu um vestido prático, e foi pôr o chapéu ao espelho. Agarrou na gabardina, viu se levava na mala o lenço, o dinheiro e a caixa de pó de arroz, e preparava-se para levantar voo.
− Onde vais Petronila? − perguntou o pombo Aristides, que estava ainda no quente, dando voltas no ninho, um olho fechado, o outro aberto.
− Vou comprar o meu cachecol. Já não é sem tempo, e não passa de hoje. Quero estreá-lo pelo Natal.
− Não pode ser! Bem sabes que temos muita despesa: as prendas para os garotos, a renda da casa, a Festa do Ano Bom. Isto para não falar nas gorgetas ao guarda-nocturno, aos varredores da Câmara e ao pombo-correio.
− Não pode ser? − perguntou muito nervosa a pomba Petronila. − Era o que faltava! Há quanto tempo te ando a falar nisso? Depois de um ano inteiro de trabalho, não havia de ter o meu luxo? Eu, que não gasto um bago de milho mal gasto!
O pombo Aristides não gostava que o contrariassem, e gritou: − Não, não, e não, já disse!
Saltou do ninho em pijama, e dirigiu-se à casa de banho.
A pomba Petronila foi atrás dele e gemeu: − Não foi para isto que eu casei contigo!... É bem certo o ditado: casa de pombos, casa de tombos… E desatou a chorar: − Sou uma escrava, uma pomba sem fel, e agora, enquanto as outras estreiam vestidos e casacos novos, eu hei-de andar para aqui como uma pobre de Cristo? Vai ao Largo do camões, ao Jardim da Estrela, e pergunta aos outros pombos se tratam assim as pombas deles.
O pombo Aristides, que já estava a fazer a barba, porque tinha de ir para o Ministério, no Terreiro do Paço, voltou-se de repente, fez um lenho no bico, e gritou-lhe fora de si: − Não me irrites!
− Irritar? E a pomba Petronila começou a insultá-lo entre lágrimas: − Pombo mariola! Borracho! Não o tratava assim porque o pombo Aristides pertencesse à raça de pombos mariolas ou porque fosse ainda borracho na idade, mas porque ele, às vezes, voltava ao pombal fora de horas e com um grãozinho na asa.
O pombo Aristides, que tinha um coração de pomba, e não podia ver chorar ninguém, começou a arrulhar em volta da pomba Petronila, fazendo-lhe muitas festas.
− E como era o cachecol que tu querias para estrear pelo Natal? − perguntou.
− Como é que havia de ser? − respondeu a pomba Petronila, limpando uma lágrima à ponta da asa. − De cor clara e de bom pêlo, que é o que está na moda.
− Mas foi justamente assim que eu comprei um anteontem nos Armazéns do Chiado, para te oferecer no dia de Natal, minha pombinha!
− Isso é verdade? − perguntou a pomba Petronila, muito contente.
− Tão verdade como eu chamar-me Aristides.
− Meu pombinho! − exclamou − a pomba Petronila. E, abraçando-se, começaram os dois a arrulhar de satisfação.
Arrulharam, arrulharam, tanto, tanto, que acabaram por acordar os quatro borrachinhos, que de bico aberto, exigiram logo o pequeno-almoço.
E é que se a pomba Petronila não acode, nunca mais se calavam!...»
(Este conto foi retirado do livro para a infância de Ricardo Alberty, Este Livro tão Bonito, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1968, pp.59-61. Ilustrações de Marcello de Morais)
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