OPINIÃO:
TERESA BERNARDINO:
O "MAGALHÃES" E A CULTURA INFANTIL
CONTOS:
LUÍSA ATAÍDE:
REGINA GOUVEIA:
TERESA BERNARDINO:
MARIA DE LURDES AGAPITO:
ANA LUCAS:
RICARDO ALBERTY:
PEÇAS DE TEATRO:
TERESA BERNARDINO:
FERNANDO DE PAÇOS:
POESIAS:
A. M. COUTO VIANA:
MATILDE ROSA ARAÚJO:
ALICE GOMES:
MARIA CÂNDIDA DE MENDONÇA:
ESTER LUÍSA DIAS:
SALETI HARTMANN:
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OPINIÃO:
O "MAGALHÃES" E A CULTURA INFANTIL
Alunos a trabalhar com o "Magalhães"
Os alunos de uma escola do 1º ciclo do ensino básico, em Setembro de 2008, começaram a utilizar o computador portátil "Magalhães", de concepção portuguesa, após a distribuição deste, pelo Primeiro-Ministro, Eng. José Sócrates.
A Venezuela adquiriu, na ocasião, um milhão de exemplares − visita oficial a Portugal do Presidente Hugo Chávez − destes mágicos auxiliares de estudo, para crianças.
A 3 de Outubro, o Primeiro-Ministro assinou um contrato com o Presidente Executivo da Microsoft, Steve Ballmer, com vista ao fornecimento de software e conteúdos, etc, para aplicação no "Magalhães".
Trata-se de um computador portátil feito em Portugal pela empresa J. P. Sá Couto, só a pensar nas CRIANÇAS, entre os seis e os dez anos.
A modernização da sociedade portuguesa não pode deixar de começar pelo sector industrial, o principal motor do enriquecimento das nações. Uma lufada de ar fresco entra, desde já, nas escolas portuguesas.
O projecto científico-tecnológico do Governo do Eng.º José Sócrates poderá começar, sem dúvida, a ganhar visibilidade internacional, muito em breve, se houver uma eficaz divulgação no estrangeiro, deste instrumento tecnológico para as crianças.
Uma verdadeira transformação na política de produtividade, em Portugal, está em curso. Que seja bem sucedida.
Que o nosso país volte a ter os benefícios que conquistou com a industrialização levada a cabo pelo Marquês de Pombal, Primeiro-Ministro do rei D. José I.
3 de Outubro de 2008
Teresa Bernardino
CONTOS:
Esta é a história do nascimento do menino-Deus.
Contada por Amorosa Violeta Margarida dos Jardins - A Vaca.
Bumba Alegria- O Boi,
Chico Cansado - o Burro
e Breennda,a Ovelha.
Dizem que tudo aconteceu em Belém. Outros juram que foi lá para as bandas de Nazaré. O certo é que um tal de Anjo Gabriel recebeu por missão encontrar uma casa para a chegada do menino-Deus. O anjo acordou bem cedinho e subiu de mala e cuia na "cauda de um cometa". O anjo viajou dias e noites sob tempestades e ventos, sob o calor do sol e o brilho das estrelas. A casa que ele procurava não poderia ser uma casa qualquer. A casa deveria ter quatro marcos: o Amor, a Alegria, o Trabalho e a Esperança. Depois de muito viajar, ali estava sob o maior de todos os clarões da lua ;com poucas paredes de madeira, um rasgo grande no telhado - A casa. Na verdade, o anjo olhando assim do alto, nem achou que era realmente uma casa, mas Gabriel pousou ali suas asas.
Na casa moravam: Amorosa Violeta Margarida dos Jardins, a Vaca. Farta, tanto de leite como de amor no coração. Bumba – Alegria, o boi. Boi caprichoso, bonito e namorador. Vivia ainda Chico Cansado, o Burro. Burro sim, mas trabalhador como nenhum outro. Morava ali ainda: Breennda a Ovelha. Bem, na verdade, ela não era assim uma ovelha como costumam ser as ovelhas: enquanto tricotava, lia runas, consultava Tarot e fazia Mapa Astral.
Naquela noite, Alegria, o Boi chegava de mais um baile, cantando e rodopiando pelo estábulo, elegante e perfumado como sempre. Parou contudo perturbado com o brilho imenso, do que parecia ser uma estrela entrando pelo buraco do telhado. E foi assim, pescoço torto e rabo espetado que Amorosa Violeta Margarida dos Jardins, a Vaca o encontrou.
– Alegria, o que foi?
– Essa estrela, minha flor, olhe!. Não estava aí quando eu saí. Que brilho intenso, chego a ficar arrepiado.
A vaca olhou para o céu e ficou também admirada.
– Na última noite, disse o boi. Eu tive um sonho estranho. Sonhei que ali na entrada da porta havia uma cestinha e dentro dela uma criança. O menino era nosso, nós devíamos cuidar dele.
Foi quando naquele momento chegou o Burro.
– O que vocês admiram tanto aí no céu? É uma estrela? E sacou do bolso uma luneta.
– Que estrela admirável! continuou o Burro. Nunca vi uma estrela assim. Sabe eu também tive um sonho. Sonhei que eu estava lá no campo arando a terra. Era de tarde, eu estava já , cansado... cansado... quando puxei o arado , ali estava entre o feno espalhado: um menino.
– Hum não sei não, esses sonhos com criança, só pode significar que teremos mesmo um menino. Mas que cheiro esquisito é esse?, falou a Vaca.
– Eu sempre falei para vocês no alinhamento dos planetas que nos traria uma estrela anunciando a Era de Peixes. ... Disse Breennda a Ovelha enquanto espalhava incenso pelo estábulo.
– Todos esses sinais, continuou a ovelha, significam que um novo tempo está chegando. Um tempo que nos ensinará o amor entre os homens.
– Bem, disse o burro. Eu sempre achei essa ovelha esquisita mas devo dizer que alguma coisa está para acontecer. Essa luz intensa, todos nós sonhando com um menino... acho que teremos visita.
– Visita? disse a Vaca. Estejam certos que esta casa não está muito em condição de receber a visita de um menino. Então, VAMOS À FAXINA!!!
E a Vaca distribui vassoura, rodos, sabão e todos iniciaram a limpeza da casa. Trabalharam toda a noite e tão cansados ficaram que adormeceram e não notaram a chegada dos visitantes. Quando acordaram no dia seguinte, ali estava entre eles: O Menino.
O Menino passou naquela casa, que nem era realmente uma casa, apenas uma semana. Alimentado pelo leite da vaca, adormeceu no lombo do burro. Riu com as piruetas do boi, aqueceu-se com a lã da ovelha. Faz parte da estória dele as primeiras lições de Amor, Alegria, Trabalho e Esperança.
Que neste natal, você receba o menino, alimente-o, carregue-o entre os braços, brinque com ele, aqueça-o e o presenteie a alguém.
Luísa Ataíde
A história do vento
perde-se no tempo.
Começou há muito, muito tempo
quando começou a história do ar
de que precisamos para respirar.
Embora não o possamos ver
- é transparente -
sabemos que à nossa volta
está presente.
Do mesmo modo
não vemos a vidraça da janela,
se limpinha,
e por isso há dias bateu nela
a Joaninha
e ficou com um galo na cabeça.
Também o ar, embora não pareça,
não se consegue ver,
mas está lá.
A história do vento
perde-se no tempo.
Começou há muito, muito tempo
quando começou a história do ar
pois o vento não é mais
do que o ar em movimento,
ora lento, ora agitado,
ora brisa ou ventania,
vendaval ou furacão,
quer de noite, quer de dia,
seja Inverno, seja Verão,
a soprar qual melodia,
a rugir como leão.
Se vem dos lados do mar
pode ter um gosto a sal,
talvez saiba a especiaria
se é um vento oriental.
É assim o vento cuja história
começou há muito tempo,
o vento que não é mais
do que o ar em movimento
que, lento, faz os veleiros
deslizar sobre o mar,
faz as velas dos moinhos
lentamente girar;
os moinhos onde a farinha
se transforma o grão
com que mais tarde
se irá fazer o pão.» (...)
Regina Gouveia
Fonte: Regina Gouveia, Era Uma Vez... Ciência e Fantasia no Reino da Fantasia, Campo das Letras, Porto, 2006, pp.16-17 (Ilustrações de Nuno Gouveia).
O menino crescia devagar.
A mãe levava-o às compras quando não estava a saborear a doce treva do seu quarto habitado por gritos, urros, gargalhadas estrondosas.
Mas temendo que o filho quisesse dar uma curta corrida, metia-o no carrinho amolgado.
Amolgara-o num dia em que a sua fúria decidira destruí-lo a ele, não ao carrinho.
Mas era o carrinho, e não o filho, que estava junto aos seus joelhos pesados de banhas.
Fora o carrinho a tombar sob o peso das suas mãos envolvidas em gritos.
O pequenino chamava-se Mani. E logo que ele começava a chorar de saudade, ela berrava o seu nome.
«Pára, Maniii!, pára, pára!!!». Berrava, não gritava.
Ela já nem sabia gritar. Tudo nela entrava e saia da sua boca como um berro a ecoar na distância.
Então, Mani tinha saudade de um tempo pré-natal, desse tempo em que nunca se encontrava acordado, em que sua mãe parecia não lhe dizer uma única palavra e em que o pai raras vezes se sentava à mesa.
Tinha saudade da noite sempre acesa em que sua mãe mais parecia estar sempre a dormir com ele.
Agora, como gostava de gatinhar no lajedo e de se estender todo como se a própria pedra fosse relva enfeitada com o orvalho da noite silenciosa.
Sua mãe, sempre com uma irritação na voz finíssima, berrava dezenas de vezes o seu nome.
«Não mexas nisso! Maniiii! Não ouves?!».
Os seus ouvidos gostavam de ouvir ela dizer «Maniiiiii!».
Ele gostava tanto de a ouvir dizer o seu nome! O berro sonoroso enchia-o de um contentamento!
«Maniiiii», berrou.
«Não te reboles nos troncos da videira que teu pai acabou de podar!», berrou de novo.
Os ouvidos de Mani ouviram o berro como um leve murmúrio.
A voz escaldante de som da mãe perdia-se agora nas ruas estreitas da vila.
A voz da mãe de Mani transformara-se, de súbito. E Mani ouvia a voz estridente de berros, como se fosse um sussurro.
No dia seguinte, a mãe movia os lábios com as faces rubras como era costume quando berrava.
Mas Mani não voltou a ouvir ela pronunciar, sequer, o seu nome…
E Mani começou a chorar de saudade.
8 de Novembro de 2007
Teresa Bernardino *
* Ortónimo Teresa Ferrer Passos .
«À torrente do Sol vive um tigre com uma fêmea e os filhotes.
Os pântanos estão secos.
Não chove há muito tempo.
O calor é muito.
A água falta. Ninguém pode viver sem água.
Aflitos com a situação, combinaram todos em mudar de lugar.
Assim podia ser que pelo caminho encontrassem a desejada água.
No momento era o sonho mais ambicionado.
Desde a manhã, que caminhavam sem sucesso e já estavam desesperados, principalmente os velhotes
que davam sinais de cansaço e mortos de sede, quando de repente, aparece uma mancha verde, redonda.
Rondaram em volta afastando a verdura, e, disfarçado aparece um pequeno lago com água.
Saciaram a sede e molharam as patas.
Os tigres mostraram-se contentes e muito felizes com o achado!
Por vezes é necessário mudar o rumo da vida.
Parar ou ficar parado é morrer!»
Maria de Lourdes Agapito
Fonte: Maria de Lourdes Agapito, «O Achado» (conto infantil), Gazeta de Poesia - Revista de Literatura, Ciência e Artes, Nº 6, Outono/Inverno, 1995, pp. 76-77.
O Rui crescera com o seu avô, rodeado pelos seus retratos do passado, com os seus cozinhados sem sal por causa da hipertensão, e lindas histórias de adormecer.
Mas o seu avô não percebia muito de crianças. Ficara com o Rui depois da morte dos pais. Já não se lembrava como cuidar de uma criança.
Todos os dias o Rui ia para escola com roupas das cores mais esquisitas: calções azuis, camisola amarela e colete vermelho... O avô não percebia nada de moda, não distinguia as cores por ser muito velhinho. E o Rui não conseguia dizer ao avô, pois gostava muito dele − ele era a sua única família − que não era assim que um menino se devia vestir.
Os outros meninos não conheciam nada do Rui, porque mudara de escola quando fora viver com o avô. Quando o viram entrar assim vestido, fartaram-se de gozar com ele.
Nos intervalos das aulas, ninguém brincava com ele. Ninguém queria sentar-se ao seu lado na secretária, ou que o Rui ficasse na sua equipa de futebol. Com o passar do tempo, o Rui começou a ficar cada vez mais sozinho. Apesar de tentar ser simpático e prestável para com os colegas, nenhum queria ser seu amigo, porque o achava esquisito por causa da sua maneira de vestir.
Um dia, a sua colega Beatriz viu o avô do Rui à saída da escola. Também ele vinha vestido com uma camisola verde, umas calças roxas e um boné castanho. Vinha buscar o Rui à escola para o levar ao dentista.
No dia seguinte, a Beatriz, curiosa, foi ter com o Rui, para saber quem era o senhor velhinho que o tinha ido buscar no dia anterior. O garoto ficou tão feliz por uma colega vir falar com ele.
Explicou-lhe quem era o seu avô, que era quem tomava conta dele desde que os seus pais morreram. Por isso ele vestia daquela maneira estranha. O seu avô já não distinguia muito bem as cores e não havia maneira de lhe explicar.
A Beatriz gostou tanto do Rui que rapidamente se tornaram amigos.
Nesse dia brincaram no recreio, e almoçaram na mesma mesa. Como a Beatriz se tornou amiga do Rui, os outros colegas começaram a gozar também com ela.
Mas a Beatriz não se importou, eles não tinham nenhuma razão. Afinal, o Rui não era esquisito, apenas se vestia assim para agradar ao avô. No dia seguinte, a Beatriz apareceu vestida com um vestido cor-de-laranja, umas meias cor-de-rosa e um casaco azul. Contou aos colegas que o Rui era um menino muito simpático, com muito talento para jogar à bola e ao berlinde, e para fazer contas.
Passado uma semana todos os coleguinhas se vestiam originalmente, para não haver distinção entre eles. A partir desse dia se tornaram amigos.
Ana Lucas
Fonte: Ana Lucas «O Menino Diferente» (conto infantil), revista Fátima Missionária, Ano IV, nº 6, Junho de 2008, pp. 28-29.
«A Pomba Petronila acordou estremunhada.
Há um tempo para cá dormia pouco e mal, porque era muito sensível e os vizinhos começavam a arrulhar logo de manhã, naquele pombal novo, de ninhos todos iguais, mandado construir pela Columbófila.
Ainda não se habituara àquele novo modo de vida, porque só há um ano casara com o pombo Aristides e viera para ali morar.
Mas não era só por isso que a pomba Petronila andava nervosa.
Andava nervosa, porque tinha um sonho e ainda não conseguira realizá-lo.
O sonho da pomba Petronila era ter um cachecol, mas um cachecol moderno, de cor clara e de bom pêlo, para sair à rua no Inverno, quando ia de manhã à praça ou passeava à tarde pelo Chiado com as amigas pombas da sua criação.
O dinheiro não chega para nada, mas a pomba Petronila tinha jurado que não passava do Natal sem comprar o seu cachecol.
Por isso saltou logo do ninho, espreguiçou-se, estendeu a pata e começou a vestir-se sem fazer barulho, para não acordar a ninhada de borrachinhos. Tinha quatro. Calçou as meias, atou as fivelas dos sapatos, vestiu um vestido prático, e foi pôr o chapéu ao espelho. Agarrou na gabardina, viu se levava na mala o lenço, o dinheiro e a caixa de pó de arroz, e preparava-se para levantar voo.
− Onde vais Petronila? − perguntou o pombo Aristides, que estava ainda no quente, dando voltas no ninho, um olho fechado, o outro aberto.
− Vou comprar o meu cachecol. Já não é sem tempo, e não passa de hoje. Quero estreá-lo pelo Natal.
− Não pode ser! Bem sabes que temos muita despesa: as prendas para os garotos, a renda da casa, a Festa do Ano Bom. Isto para não falar nas gorgetas ao guarda-nocturno, aos varredores da Câmara e ao pombo-correio.
− Não pode ser? − perguntou muito nervosa a pomba Petronila. − Era o que faltava! Há quanto tempo te ando a falar nisso? Depois de um ano inteiro de trabalho, não havia de ter o meu luxo? Eu, que não gasto um bago de milho mal gasto!
O pombo Aristides não gostava que o contrariassem, e gritou: − Não, não, e não, já disse!
Saltou do ninho em pijama, e dirigiu-se à casa de banho.
A pomba Petronila foi atrás dele e gemeu: − Não foi para isto que eu casei contigo!... É bem certo o ditado: casa de pombos, casa de tombos… E desatou a chorar: − Sou uma escrava, uma pomba sem fel, e agora, enquanto as outras estreiam vestidos e casacos novos, eu hei-de andar para aqui como uma pobre de Cristo? Vai ao Largo do camões, ao Jardim da Estrela, e pergunta aos outros pombos se tratam assim as pombas deles.
O pombo Aristides, que já estava a fazer a barba, porque tinha de ir para o Ministério, no Terreiro do Paço, voltou-se de repente, fez um lenho no bico, e gritou-lhe fora de si: − Não me irrites!
− Irritar? E a pomba Petronila começou a insultá-lo entre lágrimas: − Pombo mariola! Borracho! Não o tratava assim porque o pombo Aristides pertencesse à raça de pombos mariolas ou porque fosse ainda borracho na idade, mas porque ele, às vezes, voltava ao pombal fora de horas e com um grãozinho na asa.
O pombo Aristides, que tinha um coração de pomba, e não podia ver chorar ninguém, começou a arrulhar em volta da pomba Petronila, fazendo-lhe muitas festas.
− E como era o cachecol que tu querias para estrear pelo Natal? − perguntou.
− Como é que havia de ser? − respondeu a pomba Petronila, limpando uma lágrima à ponta da asa. − De cor clara e de bom pêlo, que é o que está na moda.
− Mas foi justamente assim que eu comprei um anteontem nos Armazéns do Chiado, para te oferecer no dia de Natal, minha pombinha!
− Isso é verdade? − perguntou a pomba Petronila, muito contente.
− Tão verdade como eu chamar-me Aristides.
− Meu pombinho! − exclamou − a pomba Petronila. E, abraçando-se, começaram os dois a arrulhar de satisfação.
Arrulharam, arrulharam, tanto, tanto, que acabaram por acordar os quatro borrachinhos, que de bico aberto, exigiram logo o pequeno-almoço.
E é que se a pomba Petronila não acode, nunca mais se calavam!...»
Ricardo Alberty
Fonte: Ricardo Alberty, Este Livro tão Bonito, Sociedade de Expansão Cultural, Lisboa, 1968, pp.59-61 (Ilustrações de Marcello de Morais).
PEÇAS DE TEATRO:
(Peça Infantil inédita)
Quatro amigos resolveram juntar-se para tirar uma fotografia para a Internet.
Chamavam-se Asinha Amarela, Chapelinho Azul Turquesa, Chinela Vermelha e Folhinha Verde.
Começam a discutir antes de posar para o retrato.
Asinha Amarela
Quero ser o melhor da fotografia! Vejam as minha asas em leque!
Chapelinho Azul Turquesa
Eu também tenho um lindo chapéu com borlas verdes...
Chinela Vermelha
Acho que sou eu aquele que vai ficar melhor! Vejam as minhas chinelas!
Folhinha Verde
Isso é o que tu julgas... A minha folhinha verde é bem mais vistosa...
Asinha Amarela
Vocês são uns vaidosos! Quem fica mesmo bonito sou eu! Com estas asas!
Chapelinho Azul Turquesa
Olha quem fala...Ah! Ah! Ah! Só o meu chapéu vale mais que tudo...
Folhinha Verde
Ainda não reparaste foi em mim! Vê como é bela a minha folha...
ela vai fazer de mim o melhor da fotografia...
Chinela Vermelha (cabisbaixo)
Como é possível que não vejam que as minhas chinelas vermelhas valem mais do que tudo!
O que vocês tanto elogiam como o melhor...
Chapelinho Azul Turquesa
Não sabem o que é o belo, é o que é... Só a cor do meu chapéu...
Folhinha Verde
O belo, o belo, o que é o belo? Se olhasses para a minha folha...
Como é bem recortada, como é elegante...
Asinha Amarela
As minhas asas em leque ninguém as vence... Todos os que me virem na fotografia
vão estar de acordo. Eu sou o mais bonito!
Chapelinho Azul Turquesa
Ah! As tuas asas são uns abanos sem graça! Pelo menos, sei que
a cor do meu chapéu é mais bonita!
Chinela Vermelha
Porque dizem todos o mesmo? Todos vocês são os melhores para vocês!
A fotografia vai ser vista por outros...
Folhinha Verde
Tens razão! Assim nunca mais nos tiram a fotografia e ninguém nos vê...
Chapelinho Azul Turquesa
Se continuamos a discutir, para quando ficar quietos para a fotografia?
Chinela Vermelha
É verdade o que dizem... Para quê querermos ser melhores uns do que os outros?
Só devemos querer ser o que somos capazes de ser...
Folhinha Verde
E o juízo do que nos virem na fotografia, não nos deve ralar muito...
Chapelinho Azul Turquesa
Acho que tiveste uma óptima ideia!
Asinha Amarela
Que importa o que é mais belo, as chinelas, a folha verde ou as minhas asas amarelas...
Chinela Vermelha
É isso mesmo! Não terão todas elas uma beleza diferente,
mas beleza, para ficarmos bem na fotografia?
.......
Foi nesse momento em que a discussão terminou que o fotógrafo
fez o flash e ficaram assim, todos muito belos na fotografia!
Teresa Bernardino
A cena passa-se junto a um poço. A pouca distância está uma árvore, com uma escada encostada.
PERSONAGENS:
Afonso − (lendo um mapa que diz «Plano de um tesouro escondido»)
− Acácia...
Alberto – Acácia.
Afonso – Cinco passos à direita...
Alberto – Cinco passos à direita... (executa)
Afonso – Dois passos à esquerda...
Alberto – Dois passos à esquerda... (idem)
Afonso – Um em frente...
Alberto – Um em frente... (idem)
Afonso – Poço onde está o tesouro escondido...
Alberto – Poço onde está o tesouro escondido (espreita). E estará mesmo? Neste poço? Mas onde descobriste tu
esse plano, Afonso?
Afonso – Encontrei esse mapa dentro de um livro muito antigo, que ontem me emprestou o Anastácio.
Alberto – É boa! Um tesouro escondido! E escondido neste poço! Custa-me a acreditar. Mas, como o poço não tem água, é fácil ir ver. Só quero uma escada, e ela aqui está! (dirige-se à árvore onde está encostada uma escada de mão e mete-a no poço, descendo por ela). Cá vou eu, Afonso! Se descobrir o tesouro é para mim, ou para ti?
Afonso – Ah! Ah! Ah! Um tesouro escondido! É metade para mim e metade para ti... E não há dúvida nenhuma: é neste poço que está o tesouro. Acácia... Cinco passos para a esquerda... Dois passos para a direita... Um em frente... Poço... É aqui que está o tesouro e o Alberto não tarda a descobri-lo. (gritando para o poço): – Alberto... (o eco repete-se) Então, já descobriste? (eco) Queres uma luz?(eco) Responde! Já descobriste o tesouro? (eco).
Alberto – (aparecendo) : Sim, já descobri que não há tesouro nenhum. Apesar de ver mal, vi bem que não há nada no poço.
Afonso – Nada? Alberto, deixa-me descer agora. Deve estar lá o tesouro. É o que diz o mapa.
Alberto – É o que diz o mapa! Ah! Ah! Ah! Pois desce lá, desce lá e já vais ver que o mapa não passa de um mapa falso...
Afonso – Nunca ouvir dizer que houvesse mapas falsos. Também quero ver.
Alberto – Pois vai ver que eu espero. (Afonso desde) O plano de um tesouro escondido... Olha, quem se vai esconder sou eu, que vem ali o Anastácio e, se me vê, quer logo saber para que é o mapa, para que é a escada e para que é o poço... Escondo-me aqui até que ele passe... (esconde-se atrás do poço)
Anastácio – (cantarolando):
Água leva o regadinho, água leva o regador... Inventei uma partida! Ai, sou um grande inventor! Esta, é muito boa! Mas onde é que se meteu o Afonso? Emprestei-lhe um livro muito antigo e dentro desse livro... Ah! Ah!... dentro desse livro meti um mapa de um tesouro escondido, que desenhei com toda a minha habilidade. Ora... o mapa já não está dentro do livro... e o Afonso já não está dentro de casa. Deve ter vindo procurar o tesouro inventado por mim...! Mas aqui também não o vejo... Olha...olha... Está mesmo neste momento dentro do poço... Eu logo vi que ele caía dentro da peta... Ah! Ah! Com que cara vai ficar, quando vir que o poço não tem nada e quando souber que a história do mapa foi uma partida minha! Vou para detrás daquela árvore! Oh! que surriada! Quero ver a cara com que ele aparece! (esconde-se)
Alberto – (que ouviu o monólogo): – Ora esta! Nem tal me passou pela cabeça... Mais uma partida do Anastácio... Ora ainda bem que ouvi o que ele esteve aqui a dizer para os seus botões... E o Afonso, muito convencido, continua a procurar... (para o poço) Afonso (eco) vem depressa, que tenho uma coisa para te dizer... (eco)
Afonso – E eu tenho uma coisa para te mostrar... (aparece, com uma caixa parecida com um cofre).
Alberto – O tesouro?!...
Afonso – É verdade! Encontrei-o...
Alberto – Mas... não pode ser... O Anastácio esteve agora mesmo aqui e ouviu-o dizer que o plano do tesouro escondido foi desenhado por ele, só para se rir de ti. Como é que tu agora descobres um tesouro? Não pode ser.
Afonso – Pois não. Esta caixa não tem tesouro nenhum. Esta caixa é minha. Tinha-me caído ao poço uma vez que aqui passei... E agora, aproveitei para a trazer... Que bom! A minha caixinha de surpresas!
Alberto – É uma caixa de segredo?
Afonso – É! (vai abrir, mas suspende)
Alberto – Schiu! Tenho uma ideia! Vou chamar o Anastácio! Ele está detrás daquela árvore, mas fingimos que não sabemos... (grita para longe): – Anastácio!... Anastácio!...
Anastácio – (espreita e depois aparece): – Aqui estou! Então que há?
Alberto – Vem cá. Descobrimos um tesouro! Um verdadeiro tesouro!
Anastácio – Um tesouro?
Afonso – Sim, rapaz! Estava no poço um tesouro escondido. Olha! Não vês?
Anastácio – Estava no poço?
Alberto – Estava.
Anastácio – E de quem é?
Alberto – De quem o encontrou. Do Afonso!
Anastácio – Não pode ser. Eu também tenho direito a ele. E, já agora, digo-vos tudo: Fui eu que fiz o plano do
tesouro escondido, que o Afonso deve ter encontrado no livro que lhe emprestei. Não encontraste?
Afonso – Encontrei.
Anastácio – Não foi com esse mapa que vieste até ao poço onde descobriste esse cofre?
Afonso – Foi.
Anastácio – Então o cofre também me pertence, pois se eu não tivesse feito o mapa, nunca o tinhas descoberto...
Alberto – Mas tu não sabias que o poço tinha um tesouro... Para que fizeste o mapa?
Anastácio – Para ver a cara com que o Afonso ficava quando saísse do poço sem ter encontrado nada. Mas como
encontrou, também tenho direito ao que foi encontrado. Se eu não tivesse desenhado o mapa, não descobria ele o tesouro...
Alberto – Lá isso é verdade. Afonso, o Anastácio que abra o cofre e que tire a parte que lhe pertence. Quanto queres, Anastácio? Metade?
Anastácio – Quero tudo!
Afonso – Pois seja. Acho que é a ti que o cofre deve pertencer. De facto, sem o teu mapa, eu não o descobria. Fica com ele.
Alberto – Estás satisfeito, Anastácio? Abre!
Anastácio – E vocês... não querem nada?
Os dois – Nada!
Anastácio – Depois não se arrependam. O que tem dentro é só para mim?
Os dois – Só para ti.
Anastácio – Então, muito obrigado. Ah! Ah! Convenci-os e deram-me o tesouro todo. Agora já não podem voltar com a palavra atrás. Aqui só toco eu! (abre o cofre; salta um gato de mola).
Os dois – Ah! Ah! Ah!
Fernando de Paços
(1923-2003)
Fonte: Fernando de Paços, «O Tesouro escondido» (peça de teatro) , Camarada (revista infantil), nº2, 27/1/1962).
POESIAS:
DOIS POEMAS INFANTIS DE A. M. COUTO VIANA:
A CIGARRA E A FORMIGA
A Cigarra e a Formiga
andam sempre em briga:
uma afina a garganta
e só canta.
A outra quer trabalhar
sem descansar.
Diz-lhes a coruja atenta:
«Nem oito nem oitenta,
que canta, trabalha
melhor.
E a alegria
espalha
energia
ao redor»
Que sabedoria!
Que bela lição!
Também a cantar
se deve ganhar
o pão.
O DINOSSÁURIO
Milhões de anos atrás
havia certas criaturas más,
chamadas dinossáurios, sobre a terra.
Só lembrá-las me aterra;
Sabemos, pelos ossos,
que eram autênticos colossos.
Bichos estranhos;
deixaram-nos pegadas
fossilizadas,
ovos de imensos tamanhos.
Viviam em rebanhos
ou isolados, mas em lutas
brutas
e mortais,
que horríveis animais!
Eu
prefiro ver-lhes o esqueleto
chegar até ao tecto
nas salas dos Museu, livre de perigo.
− Não concordas comigo?» (...)
António Manuel Couto Viana
Fonte: A. M. Couto Viana, Bichos Diversos em Versos, Texto (editora), Lisboa, 2008, pp. 23 e 24.
Ó rapaz calado e pobre
Varrendo as folhas do chão:
A tua face descobre
O espelho da solidão.
Com teu carrinho de folhas,
Descendo pela avenida,
Se por acaso me olhas
Tenho vergonha da vida.
Diz que perdoas meu fato
Junto do teu abandono,
Moço de fato-macaco,
Que varres folhas de Outono...
Matilde Rosa Araújo*
*Este poema foi retirado do livro da autora O Cantar da Tila e transcrito por José António Gomes, A Poesia na Literatura para a Infância, pág.51. A obra para a infância de Matilde Rosa Araújo foi objecto da 2ª parte deste livro (pp.83 -114).