HARMONIA DO MUNDO

 

 

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POESIA

 

ABDUL CADRE

 

Nascido em Portugal, há mais de 60 anos, ABDUL CADRE é o nome literário que o poeta, escritor e ensaísta inventou para si próprio enquanto deambulava pelos cacimbos africanos. Tem colaboração dispersa por jornais e revistas de vários países, nomeadamente Espanha, França, Itália e Brasil e mais de duzentas distinções em certames literários, de que se destaca «Lauro D'Oro», 1985, no XX World Literature and Art Selection da Accademia Internazionale di «Pontzen» di Lettere, Scienze ed Arti (Nápoles), academia que também lhe conferiu o grau de «Accademico di Merito»; Certificado de «Excelence in Poetry», da International Writers Association (USA - 1987; «Palmas Académicas» de mérito literário, conferidas em 1988 pela atrás referida Academia de Nápoles. Fundou e dirigiu duas associações literárias e foi editor de várias publicações. É conferencista de temas literários e esotéricos. Presentemente colabora como free lancer em vários jornais regionais portugueses. Entre as obras individuais publicadas, destacamos: Liberalismo, Intervencionismo e o Caso Português (Ensaio - edições esgotadas: 1ª em 1979; 2ª em 1980 e 3ª em 1982); Matope - (Poesia - 1982) «Lauro d'Oro» no World Literature & Art Selection - 1985» - Nápoles, Itália); Contos, Crónicas & Etc (Ficção - 1985; 100 ex., fora de mercado) Obra distinguida pelo júri do Prémio Literário Joaquim Almeida/1985, Montijo; Reverso - Poesia - (1985: 100 ex. fora de mercado) Obra classificada em 3º lugar no  concurso Literário da C. M. de Arronches, em 1985; Poesia e Sociedade - (Palestra - 1986, Edição NERP); Na Morte de Benjamim Moloise e Outras Elegias - (Poesia, 1987) Edição de I.W.A. - International Writers Association - U.S,A.; Song - (Poesia, 1988) Opúsculo bilingue, IWA, USA; Missão Templária - (Palestra, 1990), Edição do NERP - Núcleo de Escritores e Recitadores Portugueses; Trovar o Porto do Graal - (Idem, idem); O Panfleto do Nojo - (Poesia, 1991, Collection Poésie Palmipède, Paris, França, Edições Albatroz); Sete Rosas de Papel - (Epístolas, 1996) - Edição TAR; Sete Desafios e uma Confidência - (Epístolas, 1996) - Edição TAR; Acima do Dó Central (Poesia - 2000) - Edição TAR; Atlântida – Mito ou Realidade? (Palestra, 2002) - Æterna. Participou também em diversas obras colectivas.

 

 

 

 

NA MORTE DE BENJAMIN MOLOISE*

 

                            Para Robert e Mamike

 

Na te permitiram que cantasses

Mamike!

Tu não cantaste

Robert!

quando do poeta suspensos

ficaram os pés

a dois palmos do chão

como se o destino dos poetas

fosse voar

e urgente se fizesse

estrangular-vos as vozes

enquanto do vosso filho

se silenciava o último poema

no esconjuro do medo

 

No pátio esconso

no patíbulo frio

o loiro sisal

riu permissivo

no pescoço segregado

na coleira final do uivo

 

Um vidro de olhos

desorbitou a raiva

e a morte fez-se sinal

de mais raiva ainda

 

Inútil foi o sémen

da última ejaculação

           que não a morte

a ensombrar as micaias

das terras do Rand

na hora ainda impotente

mas já acerada

 

Depois do silêncio

n´gomas e mundus

levaram a notícia

nas zagaias do vento

e o suor da raiva opressa

ecoou kissanges na savana

espantando o choro dos pássaros

erguendo catanas de resistência

 

Há odes de sangue anunciado

em recortados pendões

nos horizontes vermelhos

do sol magoado

de África coração desperto

 

Do Sara ao Cabo

estão secos os olhos

dos últimos filhos de Spartacus

e o sal nas chagas abertas

é como um fogo sagrado

no alquímico prenúncio do amanhã

 

A ignomínia não pode mais grilhões

nas carnes maceradas

e a areia corre corre na ampulheta

inexorável do futuro premeditado

 

Que importa o escarninho riso

ainda possível das hienas

na noite furtiva

se há um prenúncio de alvorada

nos olhos acesos?

 

Pois que se estrangulem os poetas!

 

Nunca o poema deixará

de compor sobressaltos

do alto das ameias da resistência

 

 

* Benjamim Malisela Moloise, poeta e militante do ANC, foi enforcado pelas autoridades do regímen do apartheid em 18 de Outubro de 1985.

 

 

*

 

 

ELEGIA FRIA

 

Um luto quase verdade

uma dor quase certa

um rosto quase cera

uma flor quase murcha

 

E entre os brancos folhos

num cuidado frio

fecharam-lhe os olhos

 

Ficou na rígida posição

de a boiar num rio

um ponto de exclamação!

 

 

 

Estes dois poemas foram publicados no livro Na Morte de Benjamin Moloise e Outras Elegias, 1987, International Poetry (USA).

 

 

___________________________________

 

Voa e queima as asas.
Todas as vezes.
Até que sejas voo.

*

 

Aprender é repetir
o que se ignora até que se saiba
e o que se sabe até que se esqueça.

Mas se o saber diz,
a sabedoria cala.

*

 

Por sete portas se vão os sóis
que poucos olhos vislumbram;
neles secam as lágrimas
quando as estrelas morrem.

No arrepio da maré
parte o arco-íris.

Uma tristeza gelada fica
na indiferença
dos grandes silêncios.

 

Do livro Acima do Dó Central (www.ebooksbrasil.org)