POESIA
REGINA GOUVEIA
Regina Gouveia nasceu em 1945. É licenciada em Físico-Químicas e Mestre em Supervisão Professora do Ensino Secundário aposentada, colaborou vários anos com o Ensino Superior, nomeadamente com o Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Actualmente lecciona na Universidade Popular do Porto e, como voluntária, colabora com a Biblioteca Almeida Garrett no Porto, divulgando a ciência e a poesia, junto dos mais pequenos.
Em 2005, no âmbito do Ano Internacional da Física, foi agraciada com a comenda da Ordem da Instrução Pública e premiada com o prémio Rómulo de Carvalho. É autora do livro de didáctica Se Eu Não Fosse Professora de Física. Algumas Reflexões sobre Prática Lectivas e do livro de ficção Estórias com Sabor a Nordeste.
No âmbito da poesia, tem poemas dispersos em várias publicações, nomeadamente na antologia, Um Poema Para Fiama.
É autora de Reflexões e Interferências, Magnetismo Terrestre e de Era Uma Vez… Ciência E Poesia No Reino Da Fantasia, livro de poesia infantil recomendado no âmbito do Plano Nacional de Leitura. Tem trabalhos classificados em concursos quer no âmbito da poesia quer no da ficção.
POEMAS INÉDITOS
SILÊNCIO CÓSMICO
Pudera eu regressar ao silêncio infinito, ao cosmos de onde vim.
No espaço interestelar, vazio, negro, frio,
havia de soltar um grito bem profundo
e assim exorcizar todas as dores do mundo.
POEMAS DE NATAL
Inexorável o tempo avança
como um rio que flui
em direcção ao mar das memórias
que sedimenta ou dilui.
Mas eis que, de novo,
se repete a magia
de voltar a ser criança por um dia
Não sabemos se a estrela de Belém
era estrela, supernova ou cometa.
Diz-se que brilhava intensamente
anunciando o nascimento dum Messias.
Que brilhe novamente este Natal,
que volte a ressurgir em nossos dias
que venha anunciar a profecia
de paz e harmonia no planeta.
O menino sorri sobre as palhinhas, e cintilam as luzes do pinheiro,
e a mesa está repleta de iguarias e à sua volta há muito comensal, muitos adultos, algumas criancinhas.
Por entre a excitação o sono espreita mas a hora de deitar não se respeita,
é preciso receber o Pai Natal, com todos os presentes.
Atravessa o ar, em galopada, um tropel de palavras fugidias:
uma boneca, um avião, uma consola, uma casinha, um helicóptero, uma bola,
um robot, um mecano, uma pistola, um triciclo, uma prancha, uma viola….
Isolo-me de tanta confusão e penso com saudade nos ausentes
cuja imagem é cada vez mais desbotada.
Levanto-me num gesto sorrateiro, vou à janela e ninguém dá por nada.
É Natal.
No passeio em frente, deitado no chão, dorme um mendigo, coberto com um jornal.
Espera
A vida é apenas uma espera.
Esperamos que a noite suceda a cada dia,
e que a uma dor pungente suceda a alegria.
Esperamos o fim anunciado
em que a luz dá lugar à eterna escuridão.
Esperamos que, num orgasmo de energia,
uma supernova expluda um dia
e, num raio de luz que atravessa a imensidão
um longínquo passado nos seja devolvido, por magia
Regina Gouveia
Fonte: Poemas no espaço tempo (a publicar brevemente)
Deserto
Ao vento que ali sopra frio e forte
segue-se o tórrido sol que tudo queima.
A vida que ali outrora foi pujante
é hoje agonizante.
Eis o deserto
de uma beleza ímpar, sufocante,
onde sede e fome ecoam como um grito
abafado, suplicante, aflito.
Elegia
Como cantar-te terra?
Uma ode, um hino de alegria, um poema de amor?
Talvez seja melhor compor uma elegia
que possa ressoar em sintonia
com esse teu grito de tristeza e dor
Regina Gouveia
Fonte: Requiem pelo planeta azul (a publicar)
ALGUNS POEMAS PUBLICADOS
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Ocaso
Em Fevereiro, o dia quase exangue,
era azul claro e rosa a cor do céu.
Depois escureceu; tornou-se cor de chumbo
e cor de sangue.
Talvez anjos brincando na imensidão etérea
ou, simplesmente,
a interacção da luz com a matéria.
O sol vai imergindo por detrás do monte
e no horizonte destaca-se a silhueta de um sobreiro.
Difusa, voa rasante uma cotovia
e é então que, no céu, Vénus se anuncia.
Crepúsculo
Plana o falcão sobre a ravina.
O sol declina e todo um mistério invade o ar.
Num eco etéreo, há um rumor que se aproxima.
Talvez o vento cujo lamento cruza a neblina
que esconde o dia e abraça a noite
que se anuncia numa acalmia,
numa doçura crepuscular.
Porém, na Terra, algures há guerra,
bombas, granadas a deflagrar.
TEIA
Com as recordações da minha infância
fui tecendo, dia a dia, enredada teia.
O cheiro do azeite no lagar
e no Outono a fermentar o mosto,
o céu estrelado, o luar de Agosto,
as cores da Primavera e as do Outono,
o vermelho das papoilas, dos medronhos,
o branco das flores da amendoeira,
o sabor das amoras de silva ou de amoreira,
as histórias contadas à lareira,
o som da chuva, da neve, do granizo,
na escacha da amêndoa, o som do riso,
o rumorejar do rio no fundo da ladeira,
o piar da coruja, o bramir do vento,
são imagens que preenchem os meus sonhos
e assim invadem o meu pensamento,
enredando-o na emaranhada teia
que até hoje a minha vida prende
por um fio, que tanto se contrai como distende.
Regina Gouveia
Fonte: Regina Gouveia, Magnetismo terrestre, Calendário de Letras, 2006, p.19, 25 e 31.
Nave
Não tem nome minha nave seja de um deus ou de um sábio.
Sem bússola, sem astrolábio, computador ou radar,
cá vou eu na minha nave mais uma vez a girar,
no meu passeio orbital.
Minha nave é espacial.
Com qualquer velocidade e momento linear,
vai girando minha nave com seu momento angular.
Minha nave é singular.
Minha nave não precisa de impulsão nem gravidade,
pelo espaço ela desliza, só precisa liberdade.
Não tem motores de explosão, não há qualquer combustão
nem reacção nuclear.
Ela pode viajar sem energia solar e sem ajuda do vento.
O motor da minha nave é só o meu pensamento.
Regina Gouveia
Fonte: Regina Gouveia, Reflexões e Interferências, 2002.
Página iniciada em 5/10/2008
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