POESIA
ROSA MARIA OLIVEIRA
Rosa Maria Oliveira nasceu em Souto, Santa Maria da Feira, em 12 de Agosto de 1959. Licenciou-se em Literatura e Cultura Modernas pela Universidade de Aveiro em 1991. É professora de Português e de Francês do Ensino Secundário. Concluiu a tese de Mestrado em Estudos Portugueses, em 2000. Com o primeiro trabalho poético Magmas e Aguarelas, em 1988 (1º prémio Júlio Dinis), iniciou a sua actividade literária. Tem participado em acções de sensibilização à leitura da poesia nas escolas. Tem dinamizado Oficinas de Escrita desde 2001. Escreveu recensões críticas e crónicas no Letras e Letras, Sol XXI, Gazeta do Mundo da Língua Portuguesa, Folhas e Diário Regional de Aveiro. Participa semanalmente com a rubrica literária Letras & Leituras no programa Hemisfério Norte da Rádio Regional de Aveiro. Foi responsável pela coordenação científica da obra Vasco Branco, Vida Literária (1999).
Livros publicados: Verbo Liberto (1989), Da Vida e do Acaso (1990), Em Setembro a Vida (1993), Meu Nome é Poesia (1995), Sol da Casa (1998), Poetas da Liberdade (1999), O Discurso da Cidade (2001), Agostinho Gomes, Vida Literária (2004), O Voo da Enxada (2004), Magna Mater (2008).
Em Setembro a Vida está traduzido em língua búlgara, inserido na Antologia Profundidades, juntamente com poemas de Jorge de Sena e Fiama H. P. Brandão.
POESIAS DA AUTORA
Olho para mim e vejo apenas amor.
Não imagino para habitação do corpo
outra consciência
senão a das coisas que são fontes
no interior dos nomes.
Antes havia o caminho
que enchia de terror as noites
e tudo respondia como se estivesse
fora da realidade única.
Era o poder do mundo delindo
a ovelha mais pura.
Agora impossível é não amar
tal como falou a sombra. Livre
me deixo ir como a pastora.
Sibila
Ao redor de gnomos
entre lodo e vinho,
como podes governar o coração,
ó filha e sibila, tão perdida
do divino,
por atalhos e artifícios?
Tanto te gasta o invisível
de vazio e escuridão
não há nada nem uma gota
de água no teu poço.
Poema para Rhiannon
Entre todas as presenças
eu esperei a do cavalo branco.
Vi-o na colina sem pressa
de pisar o chão do poema.
A noite cobriu-me como um manto
e sobre o dorso, do animal,
que é vento, éter divino,
parti para a ilha benigna,
como se a escuridão
fosse mais do que um caminho.
Fonte: Rosa Maria Oliveira, Magna Mater, Ed. Diário de Aveiro, Aveiro, 2008, pp. 12, 25 e 41.
Exercício de escrita
Devo rever os versos
pede-me o mar no corpo
a morrer.
Porque são pobres
os livros junto à boca
nada dizem sobre a árvore
que dentro de mim avança.
Este dia é preciso, como exercício
de paciência,
de outro modo não acharei o voo
certeiro
límpido e veloz
que falta para o som
da mudança.
«Nasci para retribuir o amor
não o ódio»
Antígona
Em Tebas
Entre os mortos de Tebas
os ossos descobertos gemem
nas trevas.
Por que me temes,
se nasci para cobrir
de amor o coração desfeito?
Como elas as borboletas
Há uma vida para a escrita
amanhecendo com as borboletas
que nada sabem do dia
de amanhã.
Todos os dias se contam
as poucas palavras
que chegam à eternidade.
Como elas as borboletas.
Não temos tempo para surpreender
as ervas que nascem nos lábios
das crianças.
Ainda quando a escrita
pertence aos mortos
não temos pressa de morrer
tanto nos cega
o bater da enxada.
Fonte: Três poemas do livro da autora, O Voo da Enxada, edição da Junta de Freguesia de Vera-Cruz, Aveiro, 2004, pp. 12, 26 e 54.