TERESA FERRER PASSOS / TERESA BERNARDINO:

ORAÇÃO BREVE A S. JOÃO DE DEUS

O TEMPO EM QUE ESCREVO

O PADRE MANUEL NUNES FORMIGÃO

A NOVA BASÍLICA EM FÁTIMA

APELOS SACROS DE FÁTIMA

 

FERNANDO HENRIQUE de PASSOS:

OS MILAGRES E AS LEIS DA FÍSICA

 

OUTROS AUTORES:

PASSAGENS SOBRE O JULGAMENTO DE JESUS

DIA MUNDIAL DAS MISSÕES

O PEDACINHO DE NEVE

CAMINHOS DO SAGRADO

SANTA TERESA DE JESUS

HARMONIA DO MUNDO

TEOLOGIA / RELIGIÃO 

NATAL DE JESUS CRISTO/2008

PÁSCOA 2008

NUNO ÁLVARES, NOVO SANTO PORTUGUÊS?

1º CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO COMPOSITOR OLIVIER MESSIAEN (1908-2008)

NO 150º ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES EM LOURDES

PADRE ANTÓNIO VIEIRA

90º ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES DE FÁTIMA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ORAÇÃO  BREVE  A  S.  JOÃO  DE  DEUS

 

 

 

 

Sem julgares os pecados de teus irmãos, sofres pelos teus, e são tantos, dizes. Percorres as ruas da cidade como um louco, para se rirem de ti, o pecador. Chamas a atenção do povo por actos impróprios da lucidez. Queres ser o algoz de ti próprio, precisamente tu, tu que foste tão contrário a Jesus. Tu que participaste nas guerras ao serviço dos grandes, queres fazer justiça contra ti próprio, por tuas próprias mãos, tu que pecaste tanto naquelas guerras «santas»…

 

Cobres o corpo de ridículo para que te chamem ridículo, cobres o corpo de escárnio para que te escarneçam, cobres o corpo de desprezo para que te desprezem. E o povo chama-te louco e criva-te de pedras, na cidade. Na bela cidade de Granada. Acusam-te de louco porque te comportas como se o fosses, porque desejas esse insulto, tudo isto depois de te teres convertido ao Sacro Coração Jesus.

 

Para ti, a guerra deixou de ter sentido, depois de ouvires o sermão de João de Ávila. Agora, convertido, a tua vida já só tem um sentido, o sentido do amor, de que Jesus falava. E com pedras de escândalo te adornas nas ruas pejadas de insultos, nas gentes estultas gritando a tua demência.

 

 

É assim que segues, coberto de dores físicas e dores do espírito, esse espírito tão arrependido. Segues a orar por mais castigos, talvez precises até dos tormentos infligidos aos loucos arredados do convívio da lucidez. E provocando, mais e mais, as pessoas lúcidas,  és conduzido ao hospício, o lar dos loucos. És só mais um deles e, como eles, és açoitado com o baraço de cordas, é assim que os enfermeiros  os «curam» das fúrias e das angústias…

 

Então, sabes como é cruel esse «tratamento», e como, só por isso, se impõe deixares que te continuem a supliciar, mesmo merecendo, porque é preciso terminar os suplícios infligidos sem justeza, a esses pobres loucos.

 

Mostras, célere, uma paz seráfica, uma passividade sã, uma fisionomia conformista. Vêem-te numa harmonia contigo próprio, espantas aqueles que, com crueldade, dizem poder «curar» os doentes do espírito. Dão-te por «curado» da loucura… Agora, sabes que tens de trazer, enfim, aos loucos do hospício, um tratamento todo feito de grande carinho, de grande amor, conforme a palavra de Jesus. E deixam-te sair de entre aqueles doentes, seguir para as ruas. Entregam-te até uma carta de liberdade por estares são, estares «curado». Então, deixas o hospício nefando, livre e com o amor no coração para o dares a todos os doentes, sejam eles do corpo ou da mente, sem diferença, porque não há verdadeira diferença entre eles.

 

 

É preciso ser rápido porque aqueles doentes sofrem sem razão, sem ter pecado, como dizes ter tu pecado. Tens a certeza que, afinal, Jesus não quer que sofras o ódio contra ti próprio, apesar de, como proclamas, tantos pecados teres cometido. Jesus quer ver-te, a ti, a quem ele, num certo dia da tua aventurosa vida, ouviste chamar «João, João de Deus!», ao seu serviço. Mas servir só com amor, só com amor a ti e aos desvalidos. O que Jesus, afinal, quer, é que espalhes amor pelas vítimas da injusta loucura que não é pecado, mas inocência.

 

Como carregas aos ombros as suas dores e descobres o néctar da suavidade que sara as feridas da sua alma.

    

Como susténs o desalento negro em que mergulham.

 

Como esvazias o vazio que acossa as suas vidas.

 

Como agarras as suas mãos fracas com ternura.

 

Como sentes as suas faces a tombar sobre o teu peito, agora cheio de amor para amparar os mais fracos.

 

E, sem hesitar, ofereces aos doentes que encontras pelas ruas, não um infame hospício, mas uma Casa, toda ela erguida sobre os alicerces do amor. Pedes esmola, passas fome. Mas vives, finalmente agora, sem pensar nos castigos que hás-de dar aos teus pecados. Esses teus pecados a redimirem-se pelo amor aos abandonados, pelo amor às vítimas da injustiça, como os loucos, e tantos outros, no hospício deixados. E as vítimas da violência começam a ser dignas de viver com a paz, mesmo nos seus espíritos doentes, conturbados.

 

16 de Novembro de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

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O TEMPO EM QUE ESCREVO

 

 

 

Retomei o meu romance sobre o «Paralítico de Betsaída» (João, 5). Tive de repensá-lo. Revisitar a sua estrutura. Estive vários dias sem lhe tocar. E, isto, quando se escreve romance, é sempre motivo de novos atrasos na sua progressão.

 

O romance exige muito método e uma continuidade rigorosa. Se surgem problemas, as paragens, a nossa incapacidade para o continuar a trabalhar, a podar como se fosse uma árvore de muitas ramagens e flores entrelaçadas em raminhos enrolados em outros raminhos…

Todos os meus romances têm sido uma agricultura exigente. Ainda que encha a minha vida de uma grande força para continuar a defrontar os obstáculos, mesmo que me ofereça um sentido para existir que parece alicerçar-me num mundo reconstruído, é um árduo trabalho, com muitas dificuldades nos laços que dele se desprendem.

As direcções podem multiplicar-se tanto que me sinto até desamparada, solitária, nos caminhos que selecciono, que julgo os melhores, mas sobre os quais duvido sempre. As horas cheias de angústia que a vida me coloca em frente não deixam, por vezes, seguir em frente a ficção que se confronta com a realidade. E paro.

Olho à minha volta e fico com dúvidas e o tempo dilui-se e sei que não volta mais. Esse tempo que me escasseia, esse tempo que quero recuperar, esse tempo perdido porque não o posso reencontrar, talvez seja inevitável perdê-lo.

O tempo em que escrevo é, talvez, o único que é preciso; é, talvez, o tempo certo da escrita. Não é preciso nem mais um minuto, nem menos um minuto. Afinal, o Pai celestial deve prepara-me um tempo certo para acreditar, outro tempo exacto para agir e ainda um outro tempo para ajuizar e contemplar.

Há também as horas para descobrir os espaços da luz, como há as horas para defrontar a noite mais negra.

O fim e o princípio brotam e tocam-se devagar, mas entre eles há o meio que os divide, que os torna diversos, mas que os conserva incrivelmente inseparáveis.

27 de Outubro de 2008

Teresa Bernardino

 

 

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O PADRE MANUEL NUNES FORMIGÃO

NO SANTUÁRIO DE LOURDES

E A CAMINHO DE... FÁTIMA

 

 

Acabados os estudos académicos e doutoramento em Direito Canónico e Teologia em Roma, o Padre Manuel Nunes Formigão decidiu regressar à sua Pátria. Queria exercer com a maior competência a sua missão de apóstolo de Jesus Cristo. Desejava ser um grande missionário. Projectava ser um Padre ou seja um pequeno pai para os que, no erro ou na virtude, quisessem seguir o Pai de que Jesus fora a Palavra e o Espírito.

E ser Padre com um conhecimento profundo dos mistérios sacros. A Santa Madre Igreja tinha mesmo de ser santa e mãe. Ele queria ser um apóstolo a vibrar de fé, a proclamar a sua alma entusiasmada pelos ensinamentos desse Jesus ressuscitado por graça de Seu Pai e, afinal, como dissera, a Sua própria Imagem «Quem me vê, vê o Pai».

A  missão de servir Jesus Cristo, imagem do Pai universal e criador de tão magnífico universo, de tão belo quadro com estrelas, planetas e cometas  ordenados num espaço sem limites e esplendoroso, não lhe dava tréguas no seu eufórico pensamento.

Mas, à missão de servir Jesus Cristo unia-se a de servir Sua Mãe que, na hora do martírio que se consumava no madeiro em cruz, também era pertinente. Como o Padre Formigão se impressionava com aquela Mulher que tanto amava o Filho nascido no mistério da Anunciação do Anjo. Aquela Mãe extenuada da visão do seu Jesus, a cumprir a dolorosa e humilhante via sacra até ao Calvário, tanto o fazia delirar de alegria como o emocionava até às lágrimas que brotavam do seu coração. Sentia a dor de Maria, Mãe a envolver-se em sofrimento atroz, ao viver em cada um dos seus passos, o suplício que o Filho, com abnegação, suportava.

Era preciso aumentar a luta contra o mal espalhado pelo mundo, através de todos aqueles que a isso aderissem por fidelidade a Jesus, o Salvador. Ao Salvador que ressuscitando, vencera a morte. A Seu Pai do Céu nada era, na verdade, impossível. A ressurreição era a arma que, a partir da ressurreição de Jesus, todos os verdadeiros cristãos podiam usar, para, ao Seu serviço, se lhe juntassem para a Reparação do mal espalhado por tantos homens e mulheres alheados da Verdade. A Mãe desse Cristo – o Pai incarnado – , como sofrera a maior mutilação que uma Mãe pode sofrer: ver o seu próprio filho flagelado e a morrer na humilhação maior que era, então, morrer pendendo de uma Cruz de madeira.

E o Padre Manuel Nunes Formigão lia e relia as palavras do Evangelho de S. João. O Apóstolo Amado, presente no lugar do Gólgota (quer dizer caveira ou morte) com Maria, essa Mãe a apagar-se nas suas faces enrugadas de dor. Ela via a inclemência dos soldados, a troçarem e a chicotearem Jesus. A tão carinhosa Mãe via o Filho amado, a esvair-se em sangue que gotejava no madeiro e ensopava a terra ressequida. E, Ele fazia-o para redimir a humanidade que cometia o mal sem se lembrar da Palavra profética revelada nos Livros judaicos. Esses Livros, estudados e comentados nas sinagogas, eram esquecidos nas acções de cada instante dos dias.

A recordar tudo isto o Padre Manuel Nunes Formigão decidiu, no regresso a Portugal, passar pelo Santuário de Lourdes onde um dia, no ano de 1858, Maria dirigira a Palavra à jovem Bernardette, numa pequena gruta das montanhas dos Pirinéus. Oferecendo-se, de imediato, para diversos serviços em Lourdes, regressou a Portugal ao fim de um mês – o mês de Agosto de 1909.

Foi durante essa breve estadia no Santuário de Lourdes que escutou um sermão do bispo de Valence. As suas palavras incentivaram-no a não perder a esperança de recristianizar esse Portugal, em que a propaganda republicana atingia o regime monárquico pela preponderância que a religião católica e os seus representantes recebiam da Coroa. Para o bispo francês as peregrinações organizadas pelas dioceses a Lourdes tinham sido determinantes para a recristianização da França anticlerical do século XIX. Ora, o Padre Manuel Nunes Formigão vinha para um Portugal em que ele sabia quanto a descrença e o anticlericalismo se divulgavam nos jornais, nas folhas volantes, nas conversas dos cafés, nas lojas maçónicas, nas reuniões partidárias.

A implantação da República em 1910 atingiria, de facto, as instituições religiosas. Então, o Padre Formigão vai dar aulas para o Seminário de Santarém. Anos mais tarde, sente que a sua acção missionária podia ser mais actuante num liceu. Começando a ensinar no Liceu Sá da Bandeira daquela cidade, desenvolve uma série de actividades juvenis com vista a criar bases religiosas aos alunos. Entre outras, destacamos a fundação da Associação Nun’Álvares para, com esta figura exemplar da Ordem dos Carmelitas Descalços, poder homenagear Nossa Senhora , Padroeira de Portugal, desde o século XVII.

 Estranhamente, nos princípios de 1917, três crianças  ̵  Lúcia, Jacinta e Francisco  ̵  com idades entre os sete e os dez anos, diziam ter visto e escutado a voz da Virgem Maria, quando pastoreavam ovelhas na serra d’Aire, no lugar da Cova de Iria, perto da povoação de Fátima. Lúcia, Jacinta e Francisco − acusadas pelas autoridades de inventar essas aparições de uma Senhora, que diziam, mais brilhante do que o Sol, e que, ao perguntarem-lhe donde vinha, dissera vir do Céu.

O Padre Manuel Nunes Formigão ao saber dos boatos das Aparições de Nossa Senhora, não ligou importância, porque «Lourdes enchia-lhe a alma e o coração».

No entanto, em Setembro, resolveu deslocar-se à Cova da Iria.

Coma devida prudência, ficou num lugar distante, para poder observar. Impressionou-se coma fé da multidão, mas regressou incrédulo.

Sem saber que o Senhor o chamava, pensou em ir, nos finais de Setembro e entrar em contacto com os pastorinhos.

Como o Pároco não estava, dirigiu-se à casa dos pastorinhos em Aljustrel.

Após o primeiro interrogatório, o incrédulo Padre Formigão converteu-se ao ver a verdade, a candura, a simplicidade, a inocência e a bondade das crianças.

A partir daí, a sua vida fica completamente ao serviço de Nossa Senhora. Ampara os pastorinhos, dá-lhes conselhos e ajuda-os.

Passado tempo, a Jacinta adoece. Ele resolveu tudo, para que ela fosse convenientemente observada no Hospital Rainha D. Estefânia em Lisboa. Falou com o médico, arranjou casa para a mãe de Jacinta ficar, numa palavra foi incansável.

No Hospital, a Jacinta foi visitada por Nossa Senhora, que lhe transmite uma mensagem para o Doutor Formigão. A Jacinta aflita pede que quer falar com ele. Mas a sua morte aproximava-se, então ela muito preocupada transmite o «recado» a uma senhora para o Padre Formigão.

O Padre Formigão recebe este «recado»  ̵  «é preciso que haja almas reparadoras».

Depois de muita oração, o Padre Formigão fundou a Congregação das Religiosas Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima, no dia 6 de Janeiro de 1926, para dar resposta ao pedido de Nossa Senhora.

O Padre Formigão fundou duas publicações, a revista «Stella» e o «Almanaque de Nossa Senhora de Fátima». A primeira, para um público mais culto, o segundo para o povo dos campos, das aldeias e das pequenas cidades da província.

Cinquenta e nove anos após as Aparições em Lourdes, nas montanhas dos Pirinéus, em França, surgiram, de novo, na serra d’Aire, em Portugal, revelações de Maria, como a da futura conversão da Rússia ao cristianismo. A Mãe de Jesus, eleita, por Ele próprio, a nossa Mãe do Céu, aqui estava. Entre o povo rude das serranias veio até nós. Veio para este povo que continua, hoje, a venerá-La nessa Capela construída de acordo com o seu pedido aos pastorinhos. Esse Povo que ali, junto da azinheira não deixa de orar-Lhe com uma fidelidade, com uma dedicação já bem visível nos anos que se seguiram às Aparições desse ano distante de 1917.

 

21 de Abril de 2008

Teresa Ferrer Passos

 

 

Fonte: Almanaque de Nossa Senhora de Fátima/2009, nº 67, pp. 98-101.

 

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Passagens dos Evangelhos de S. João

 

 e de S. Mateus

 

sobre o Julgamento Judaico-Romano de

 

 Jesus Cristo

 

 

 

«Falei abertamente ao mundo (...) e nada disse em

 

 segredo (...) Bem sabem o que eu disse»

 Jo, 18, 20

 

«O Meu Reino não é daqui (...) para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a Minha voz»

Jo, 19, 36-37

 

«E na terra, a ninguém chamem pai, porque só é vosso Pai: Aquele que está nos céus»

Mt,23, 9

 

«Que é que vale mais? O ouro ou o santuário que torna o ouro sagrado?»

Mt 23,17

 

«Ai de vós escribas e fariseus hipócritas porque pagais o dízimo da hortelã, do funcho e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade»

Mt 23, 23

 

«Por fora pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade»

Mt 23, 28

 

«Serpentes, raça de víboras»

Mt 23, 33

 

«Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados!»

Mt 23, 37

 

«Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram»

Mt 26, 56

 

«"Não respondes nada? Que dizes aos que depõem contra Ti?" Mas Jesus continuava calado»

Mt26, 62-63

 

«"É réu de morte". Cuspiram-Lhe depois no rosto e deram-Lhe socos. Outros esbofetearam-n'O, dizendo: "Adivinha, ó Cristo, quem foi que Te bateu?»

Mt 26, 66-68

 

«"Não ouves tudo o que dizem contra Ti?" Mas Ele não respondeu coisa alguma»

Mt 27, 13-14

 

«Os que passavam, injuriavam-n'O meneando a cabeça e dizendo "Tu que destruías o templo e em três dias o reedificavas, salva-Te a Ti mesmo; se és Filho de Deus, desce da cruz"»

Mt 27, 39

 

Selecção de T.B. (24/3/2008)

 

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A NOVA BASÍLICA EM FÁTIMA

 

Paredão de ouro ao fundo, na Basílica da Santíssima Trindade

 

 

 

1. «Sobre o fundo das palavras da "Avé-Maria" passam diante dos olhos da alma os principais episódios da vida de Jesus» (1)

 

Em 13 de Outubro deste ano de 2007 abriu ao culto mais uma Basílica construída no limite sul do recinto envolvente da capelinha das Aparições da Virgem Maria, em Fátima. No limite Norte já existia uma Basílica dedicada à Mãe de Jesus Cristo. Este novo templo invoca a Santíssima Trindade. Tem nove mil lugares sentados e espaços para o sacramento da reconciliação. Há passagens bíblicas nos muros exteriores, traduzidas para vinte e três línguas, abordando o carácter trinitário de Deus, o Pai, o Filho, Jesus, e o Espírito Santo, por quem Maria O concebeu, por Sua obra e graça.

Mas porquê a construção de mais um grande templo naquele recinto onde, para além da capelinha solicitada por Maria, havia ainda uma basílica que lhe foi dedicada?

O seu custo ascendeu já a sessenta milhões de euros. Segundo fontes eclesiásticas foi construído com as ofertas dos cristãos que ali veneram a Virgem Maria.

 

2. «O terço converge para o Crucificado que desta forma abre e fecha o próprio itinerário da oração» (2)

 

As opiniões sobre a construção da Basílica da Santíssima Trindade são todas, mais ou menos, consensuais. Segundo uns, parece um auditório para espectáculos profanos; para outros, até poderá ser um «jeitoso T8» (3).

O aspecto arquitectónico, tanto exterior como interior, enquadra-se no estilo cubista tão característico da arquitectura civil. As dimensões exorbitantes relativamente ao que seria necessário, impõem-se: na área destinada ao sacramento da Confissão (agora chamado da Reconciliação), há corredores com 150 metros, há salões de espera de atendimento com 600 lugares sentados (a maioria dos cinemas de Lisboa são mais pequenos), se os peregrinos forem portugueses; se forem estrangeiros, há outros 120 lugares sentados. Quer para uns, quer para outros, há ainda 32 salas/gabinetes, respectivamente, com vista a cada peregrino receber o sacramento referido.

«Gente sentada e gente de pé», escreve Frei Bento Domingues na sua crónica no jornal O Público. E acrescenta: «Para gente de pé, continua o recinto da Cova de Iria , a maior basílica do mundo a céu aberto (...). A divindade não precisa de templos para habitar entre nós (...)». Na verdade, «o coração humano, em espírito e verdade, é a sua morada e o mistério da Santíssima Trindade, a nossa ilimitada habitação: nele  vivemos, nos movemos e existimos (Act 17, 28)». (4)

Para preencher os vastos espaços, foram seleccionados três papas: Pio XII, por ter consagrado o Imaculado Coração de Maria ao mundo inteiro, em 1942, e tê-la coroado (Coroa de Ouro), em 1946. Paulo VI, por ter visitado este santuário mariano em 1967. João Paulo II, por ter vindo rezar à capelinha das Aparições após ter escapado com vida ao atentado que sofreu, no dia 13 de Maio de 1981. Mas, como se não fossem o suficiente, foi também colocada a estátua do 1º Bispo depois da restauração da Diocese, D. José A. C. da Silva.

 

Igreja construída por índios

na América do Sul

 

3. «Repetir o nome de Jesus (...) enlaçado com o de sua Mãe Santíssima, e de certo modo deixando que seja Ela própria a sugerir-no-lo, constitui um caminho de assimilação que quer fazer-nos penetrar cada vez mais profundamente na vida de Cristo.» (5)

 

A dimensão da estatuária papal é pouco consentânea com o local em que se insere. Estamos num santuário de Maria, escolhido por Ela própria para ter uma pequena capela sob a sua invocação. Afinal, a imagem de Maria, Mãe do Filho de Deus e nossa Mãe, é bastante mais reduzida em tamanho. O Papa João Paulo II é mesmo colocado num lugar mais destacado e visível do que a Rainha do Céu, no seu santuário em Portugal. Como pediu, Maria está recolhida na pequenina capela que solicitou aos pastorinhos de Fátima.

A verdade é que a maioria dos crentes se desloca a Fátima para rezar junto da capelinha das Aparições, ou seja, no local onde foi escutada por Lúcia a «Senhora mais branca do que a luz do Sol». E aí está a pequena capela  para nela ser visitada e poder ser, junto dos povos, uma Mãe atenta aos seus filhos. Atenta a esses filhos que Jesus identificou com o seu discípulo João, junto da Cruz: «Eis aí a tua Mãe» (Jo 19, 27).

 

4. «À luz da própria Avé-Maria nota-se claramente que o carácter mariano não só não se opõe ao cristológico como até o sublinha e exalta. (...) O Rosário torna-se verdadeiramente um caminho espiritual, onde Maria faz de mãe, mestra e guia, e apoia o fiel com a sua poderosa intercessão» (6)

 

As portas da Basílica da Santíssima Trindade, em número de treze, alternam com paredes cobertas de mensagens extraídas dos Livros Bíblicos. Estas mensagens, ao sobrevalorizarem profetas e apóstolos, fazem o peregrino perder-se da Mãe em Jesus Cristo, divinal e protectora, que ali chamou à conversão os pecadores porque o Pai do Céu já estava muito ofendido. Não seria mais lógico haver sobretudo passagens das Memórias de Lúcia, ouvidas à Senhora do Rosário de Fátima? Se estamos num santuário mariano, como dar relevo sobretudo àqueles que lhe são alheios e de quem a Virgem Maria não falou?

Tudo aquilo que no santuário de Fátima é estranho a Maria não desperta qualquer interesse àqueles que visitam o local. A finalidade dos peregrinos em Fátima é honrar, venerar e orar a Maria, Mãe de Jesus e Mãe de Deus, conforme a Anunciação do Anjo. Veja-se a grande emoção que envolve os peregrinos ao incorporarem-se na Procissão das Velas e na Procissão do Adeus. Na Cova de Iria, Maria conduz o Povo ao Filho, a Jesus; Maria indica a cada um, na imagem do Filho, o Pai. Lembremos as frases de Jesus: «Sede perfeitos, como Meu Pai é perfeito», «Quem Me vê, vê o Pai». Por sua vez, Maria tem na Sua voz, a voz do Espírito Santo que a escolheu, como anunciou o Anjo, para Mãe de Seu Filho, Jesus, o Príncipe da Paz.  

Nem no dia da inauguração, os fiéis presentes tiveram interesse em ler as epígrafes gravadas nas paredes externas. Por outro lado, a sua profusão é de tal ordem que desmotiva a leitura.

Naquele lugar especial, Maria falou aos pequenos pastores para ensinar à humanidade aquilo que o Espírito Santo queria que lhe fosse revelado, nesse ano de 1917. Aqui, na Cova de Iria, o ensino, ou é o da Palavra de Maria, Mãe de Jesus, ou forçando a pedagogia da Santíssima Trindade, esta só pode cair no vazio. Logo, presta-se ao desinteresse, à indiferença.

 

Exterior da Basílica da Santíssima Trindade

 

5. «Neste processo de configuração a Cristo no Rosário, confiamo-nos, de modo particular, à acção maternal da Virgem Santa (...). O primeiro dos "sinais" realizado por Jesus − a transformação da água em vinho nas bodas de Caná − mostra-nos precisamente Maria no papel de mestra, quando exorta os servos a cumprirem as disposições de Cristo» (7)

 

Como disse, recentemente, o Papa Bento XVI ao bispo António Marto da diocese de Leiria-Fátima, "Fátima é escola de fé com a Virgem Maria por Mestra". Neste lugar das alturas da serra d'Aire, Maria, "da sua cátedra, ensinou aos pequenos Videntes e depois às multidões as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar"(8). E na Encíclica Spe Salvi (Salvos pela esperança), recentemente publicada, Bento XVI acentua que Maria é a «estrela da esperança», dessa «esperança cristã que tem os outros como horizonte» (a última parte da Encíclica Spe Salvi, é dedicada à Mãe de Jesus).

 

«Bezerro de ouro»

 

A Basílica da Santíssima Trindade é um templo com muitas portas, mas no modelo que Jesus nos dá do Céu, Ele diz-nos que aí só há uma porta e que ela é estreita. No interior da nova Basílica há um largo mural de terracota coberta de ouro.  Não será um «bezerro de ouro», em má hora colocado no Santuário mariano? Esta ideia lembra-nos esse célebre «bezerro de ouro» que o povo de Israel, no tempo de Moisés, introduziu no templo, após fazer fundir o ouro das jóias das suas mulheres, para adorarem esse ídolo, símbolo da riqueza, substituindo o seu Deus e Senhor. Mas o Senhor disse a Moisés: «O povo está pervertido. Fizeram um bezerro, um ídolo de ouro (...). A Minha cólera vai inflamar-se contra eles» (Êx 32, 1-10).

Aqui, também, parece estar presente um certo «bezerro de ouro». Aqui, no lugar que os Céus tinham escolhido para celebrar a Mãe, bendita entre as mulheres e cheia de Graça, se recita todos os dias o Terço, sem esquecer  o Pai Nosso e a Salve-rainha. E, precisamente, nesta última oração, os peregrinos pedem-Lhe para que depois desta vida "nos mostre Jesus" e que "rogue por nós para que sejamos dignos das promessas de Cristo".

Na Cova de Iria, Maria mostra, claramente, a Lúcia, Jacinta e Francisco, que "está em risco a salvação eterna dos seus filhos e, por isso, repete o apelo de Jesus: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». (Mc 1,15). A mensagem de Jesus torna-se assim a mensagem de Maria" (9). E a mensagem de Maria aos pequenos pastores de Fátima foi repleta de palavras de humildade, a começar pela capelinha onde caberiam poucos, mas onde à sua volta, uma multidão teria sempre lugar ao Sol ou à chuva, mas sempre a sentir uma fé inquebrantável.

 

6 de Dezembro de 2007

Teresa Ferrer Passos*

 

*Ortónimo de Teresa Bernardino

 

(1) João Paulo II, O Rosário da Virgem Maria − Carta Apostólica, p.7.

(2)  Idem, Ibidem, p.49.

(3) Internet, Blog Movimento da Mensagem de Fátima , Ermesinde.

(4) Frei Bento Domingues, Público, 15/ 10/2007.

(5) João Paulo II, O Rosário da Virgem Maria − Carta Apostólica, p. 46.

(6) Idem, Ibidem, pp. 45 e 50.

(7) Idem, Ibidem, pp. 20 e 21.

(8) Fátima Missionária, nº 11, Dezembro de 2007, p.34.

(9) Almanaque de Nossa Senhora de Fátima, 2008, p.68.

 

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«Fomos feridos por uma cegueira branca, sem pontos de fuga, sem utopias. As paróquias funcionam como um regime cadastral, mecanicamente oleadas por devoções e sacramentais desencarnados. O desejo mimético é responsável pela violência que assola o mundo e as instituições: o círculo mimético é o movimento constante com que na sociedade humana se estrutura a violência, que deriva do desejo de se substituir aos outros para lhes tomar o lugar. Donde as polaridades, os bodes expiatórios, as paranóias.

Estamos em marcha, à procura da fonte, o Jordão que abre a estrada a andar sobre as águas. É essa a experiência em que nos mergulha o baptismo. Daí o perigo. Daí as trevas. Avançamos perigosa, dolorosamente. É para pensar essas chagas que o sagrado existe, não para fazer lindo ou solene, mas para fazer corpo.»

 

Excerto do artigo de José Augusto Mourão intitulado "O Baptismo como Imitação de Cristo"

 

 

 

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DIA MUNDIAL DAS MISSÕES

 

Santa Teresa do Menino Jesus, Padroeira dos Missionários e Doutora da Igreja, teve o sonho de sair do Carmelo de Lisieux e seguir para o Cambodja. Devido à gravidade do seu estado de saúde, às portas da morte, apenas lhe foi possível proteger e orientar com as suas cartas um jovem padre missionário. Também S. Francisco Xavier, grande evangelizador da Índia, é Padroeiro dos Missionários.

 

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OS MILAGRES E AS LEIS DA FÍSICA

 

 

 

 

 

Para fazer milagre, Jesus Cristo pode não ter precisado de violar as leis da matéria criadas por Deus, tal como o próprio Deus talvez não precise de violar as leis por Si criadas, sempre que faz um milagre.

 

Se a Mecânica Quântica estiver certa, as leis da Física não determinam completamente o modo como a matéria se comporta.

 

Por exemplo, se um homem tentar caminhar sobre as águas, há uma probabilidade ínfima de que, nesse instante, a água sob os seus pés se "feche" e lhe permita caminhar sem se afundar.

 

Esta probabilidade é baixíssima. Seria preciso um homem comum passar triliões de triliões de triliões de vezes a idade do Universo a tentar, até isso acontecer, porque, em circunstâncias normais, a matéria escolhe ao acaso entre as várias possibilidades deixadas em aberto pelo indeterminismo quântico.

 

Mas Jesus Cristo, na Sua qualidade de Filho de Deus, para andar sobre as águas, pode naquele momento ter ordenado à matéria para escolher a possibilidade que Lhe interessava, ou seja, aquele estado de probabilidade ínfima em que as águas se "fecharam" sob os Seus pés e Lhe permitiram caminhar sobre elas.

 

Fernando Henrique de Passos

 

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«O PEDACINHO DE NEVE»

 

 

 

 

 

 

«O célebre Leonardo da Vinci escreveu fábulas muito simples, mas muito ricas em ensinamento, como esta “fábula da neve”.

Um pedacinho de neve estava no alto de um rochedo situado no cume de uma altíssima montanha.

Naquele lugar silencioso, deu largas à imaginação. Começou a meditar e a dizer de si para consigo:

Não serei considerada altiva e vaidosa por ser tão pequena e ter sido colocada em tão alto lugar e suportar que tanta quantidade de neve que vejo daqui esteja mais abaixo que eu. É claro que a minha pouca quantidade não merece esta altura. Também sei o que o Sol pode fazer-me, pelo que vi fazer às minhas conpanheiras, desfeitas por ele em poucas horas.

E isto sucedeu porque se colocaram em lugares mais altos do que lhes cabia.

E o pedacinho de neve, reconhecendo a sua insignificância, continuou a dizer: “Quero fugir à ira do Sol. Quero descer e encontrar lugar mais adequado à minha pequenez, à minha ínfima quantidade”.

Lançou-se então pela montanha abaixo, deslizando sobre a outra neve. E quanto mais baixo lugar procurava, mais crescia a sua quantidade.

Terminou o seu curso numa pequena colina e viu-se quase com a mesma grandeza que a colina que a sustinha.

E foi, nesse Verão, a última a ser desfeita pelo calor do Sol…

Leonardo da Vinci, fundamentado na palavra do Evangelho, lembra que os orgulhosos serão derretidos e os humildes enaltecidos.

E nós, que observamos o mundo, também sabemos (e temos de tê-lo presente!) que a ambição do poder, da fama e dos lugares cimeiros é traiçoeira e destrói mais depressa, como mais rapidamente é derretida a neve das alturas.

E que os humildes, protegidos pela sua simplicidade e reconhecimento autêntico do seu valor, serão enaltecidos por Deus e por todos os que julgam com justiça…»

 

 

Fonte: Mário Salgueirinho, Dar é Receber, Fundação Voz Portucalense, Porto, 2003, pp.137-138)

 

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CAMINHOS DO SAGRADO

 

 

 

 

«Os verdadeiros santos sempre se sentiram como pecadores. Para eles isto não era nenhum excesso de humildade, mas sim uma protecção para não se deixarem seduzir pelas projecções dos outros a um mundo de aparências. Os santos não procuravam parecer santos. Tornaram-se santos porque manifestaram a Deus tudo quanto eles eram realmente, com todos os altos e baixos, com todas as luzes e  sombras, para que Deus os curasse e os transformasse (…).

Nós não somos definidos unicamente a partir das expectativas do mundo. Somos mais do que meros contribuintes da previdência ou beneficiários de pensão. Nós temos em nós mesmos alguma coisa de santo, que não está submetida à intervenção do mundo. Tomar consciência disso faz-nos bem. Liberta-nos do domínio e da tirania deste mundo, com os seus padrões. Temos em nós uma coisa diferente, uma coisa santa, íntegra, que não pode ser tocada. Trazemos dentro de nós o santuário interior em que o próprio Deus faz morada (cf. Jo 14, 23).

Tente conscientemente ver hoje com outros olhos as pessoas com quem você convive. Tente acreditar que Cristo está em cada uma delas, que em cada uma existe alguma coisa de sagrado que precisa ser protegido. Não tente penetrar nelas e atribuir-lhes um valor, mas deixe-as ser assim como são. Nelas o Sagrado já está presente. Apesar de todas as contradições, em cada pessoa existe algo de são e de autêntico. Como é que se sente, quando as considera desta maneira? Será que de repente conseguirá agora conviver ou comportar-se com estas pessoas de uma maneira diferente?»*

 

ANSELM GRÜN

 

 

 

Fonte: Anselm Grün, A Protecção do Sagrado, Editora Vozes, Petrópolis, 2003, pp72-75.

 

 

 

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«TERESA DE JESUS»

 

«O povo de Deus é um povo de pecadores que peregrina do pecado à inocência, da desgraça à graça. É uma peregrinação através do deserto. O deserto é a saudade. Mas a saudade do povo de Deus está cheia da presença imutável de Deus. O sinal de que se vive nessa desértica plenitude, é a alegria. A alegria teresiana do deserto carmelitano, segue ressoando a transbordar, desde há quatro séculos, em todo o rosário ininterrupto dos seus Fundadores.

Reformar é reformar-se. “Nada muda, na verdade, enquanto não muda o coração do homem” (…). Ela ensinou aos homens sem fé ou de pouca fé a realidade e o mistério dessa relação do Criador e a criatura e é nisso que consiste a religião (cristã)». *

 

ANTÓNIO GARRICHES

 

Fonte: Artigo de Jornal ABC, Madrid, 1970 (excerto).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NADA TE PERTURBE…*

 

Nada te perturbe,

Nada te espante,

Tudo passa,

Deus permanece,

A paciência

Tudo alcança;

Quem possui Deus                                                            

Nada lhe falta:

Deus é o bastante.

 

 

Santa Teresa de Jesus

 

CRUZ, DESCANSO DOCE DA MINHA VIDA…*

 

Cruz , descanso doce da minha vida,

Sejais bem-vinda.

 

Oh estandarte, em cujo amparo

O mais fraco será forte!

Oh vida da nossa morte,

Que bem a ressuscitaste!

Ao leão amansaste,

Porque por ti perdeu a vida,

Vós serás a bem-vinda.

Quem não os ama está cativo E longe da liberdade;

Quem vos quer alcançar

Não terá nenhum desvio,

Oh ditoso poderio,

Onde o mal não acha lugar!

Vós serás a bem-vinda.

Vós foste a liberdade Do nosso grande cativeiro;

Por vós se limpou o meu mal

Com o usual remédio;

Para com Deus foste o meio

Da alegria consentida,

Vós serás  a bem-vinda

                      

                      Santa Teresa de Jesus

 

Fonte: Obras Completas de Santa Teresa de Jesus, Editorial Plenitud, 1958, págs. 947, 959 (edição em língua espanhola).

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APELOS SACROS DE FÁTIMA **

 

 

 

«Vós que encheis a minha esperança,

Ó Mãe! Escutai o humilde canto

De amor e de gratidão

Que vem do coração da vossa filha…

 

Às obras de um Missionário

Uniste-me para sempre,

Pelos laços da oração

Do sofrimento e do amor»

 

Santa Teresa do Menino Jesus, Obras Completas

 

 

   «Os adultos têm algo que é certamente diferente de nós… quer dizer, Deus (…). Mas isto é seguro: os adultos não estão a preocupar-se com Ele, pelo que somos nós, as crianças, é que temos de nos preocupar»

                                                                                    Rainer Maria Rilke, Histórias de Deus

 

 

 

 Foi com curiosidade que comecei a ler a obra da Irmã Lúcia, vidente da Cova de Iria, intitulado Apelos da Mensagem de Fátima (Edições Carmelo, Secretariado dos Pastorinhos, 2005). Uma novidade em relação a anteriores revelações? Uma complementaridade dos escritos dados à estampa, há vários anos, e que titulara Memórias? De qualquer modo, o título era apelativo, chamava-se apelos. Além disso, subscrevia-o a vidente de Fátima que escutara as mensagens da Senhora mais brilhante do que o Sol.

De facto, Lúcia recebera, após a publicação das Memórias, uma vasta correspondência de leitores. Todos eles procuravam esclarecer os pontos mais controversos ou obscuros do texto em que dava testemunho escrito das visões e das palavras verbalmente transmitidas na Cova de Iria, nas proximidades da aldeia de Fátima, corria o ano de 1917, pela Senhora que identificou como sendo a própria Virgem Maria, Mãe de Jesus Cristo.

As visões de Maria tinham sido acompanhadas pela simultânea audição de palavras, de palavras estranhas, mas significantes, tão significantes que as entendera, ainda que necessariamente à sua maneira. Segundo o teólogo J. Ratzinger (actual Papa Bento XVI) «a visão comporta simultaneamente uma vertente imaginal e uma vertente comunicacional».(1) E no seu Comentário Teológico ao 3º Segredo de Fátima, Ratzinger diz-nos: «A pessoa é levada para além da pura exterioridade e é tocada por dimensões mais profundas da realidade que se tornam visíveis para ela».(2)

Ao debruçar-se sobre o «Segredo de Fátima», o dominicano e semiótico José Augusto Mourão escreve, bem a propósito, que «cada leitura irá acrescentar o texto, ao ajudar a desdobrar o sentido». Mas, não deixa de se interrogar: «Haverá interpretação fora da violência hermenêutica? Como sair do paradoxo aparente da interpretação, ao mesmo tempo aberta e determinada e da semiose, ao mesmo tempo infinita e contudo decidível?».(3)

Com apenas dez anos e sem cultura religiosa, a pequena Lúcia transmitira, ou seja, traduzira o que escutara, com as dificuldades inerentes à sua condição. Segundo J. Ratzinger tratou-se de um «processo de tradução», próprio de uma «visão interior».

Como declarara aos seus familiares, aparecera-lhe uma Senhora muito luminosa, que dizia vir do Céu. A identificação da Mãe de Jesus Cristo, impôs-se-lhe de imediato. Na perspectiva de Ratzinger, «uma percepção interior, imaginativa» foi captada, «de acordo com as possibilidades da vidente».(4)

Ora, a Irmã Lúcia viu a Senhora resplandecente, entre os ramos sóbrios de uma pequena azinheira. A sua voz vibrara de apelo, de aviso e de mágoa. Ao longo das intervenções feitas, desde Maio a Outubro de 1917, os seus apelos foram recebidos pelo espanto, mas também pela aceitação de três crianças: além de Lúcia, os seus primos mais novos, Francisco e Jacinta estavam presentes e percebiam que Lúcia dialogava com a Senhora de brilho sobrenatural.

Ele, Francisco, escutava a Senhora, sem a ver. Contudo, Jacinta via-a, embora não ouvisse o que dizia. Só Lúcia a via e a escutava, ao mesmo tempo.

Em 13 de Julho de 1917, Lúcia e Jacinta viram, então, a mais terrível das visões: a visão do fogo infernal a provocar grandes sofrimentos nos maus. Com as infernais imagens, a Senhora, donde brotava a nívea luz, mostrava-lhes o castigo que mereciam os pecadores pelos seus actos iníquos. Poder-se-á estranhar que tenham sido crianças, e não adultos, a receber esta assustadora visão. Escolha estranha, sem dúvida, mas talvez, estando cheia de mistério, transpareça, de igual modo, um significado: se nos lembrarmos da predilecção de Jesus Cristo pelos mais pequeninos, os puros de coração, os inocentes, algo se começa a perceber.

As crianças eram puras, por isso, poderiam bem mais facilmente ser capazes de acreditar no que viam e comunicá-lo a todo o mundo, apesar das suas limitações de interpretação. Aqui, o Inferno simboliza o apelo à conversão, ao arrependimento.

O apelo da mensagem de Maria respeitava também ao valor de sacrifícios e de orações, oferecidos ao Altíssimo, como penhor dos pecados cometidos. De acordo com o que Lúcia nos diz neste seu livro, há que fazer muitos sacrifícios para merecermos o Céu. Entre os mais difíceis, sem dúvida, estão aqueles que só são possíveis graças a um espírito com a força de uma grande humildade. Como nos lembra, sacrifícios podem fazer-se todos os dias. E, dá-nos algumas sugestões sobre a possibilidade de os fazer.

Para Lúcia, sacrifício existe quando um espírito é capaz de não responder à ofensa com outra ofensa, quando é capaz de não se impacientar com ambições não alcançadas, quando é capaz de viver sem má disposição ou azedume com aqueles que sabe que o rejeitam, quando é capaz de suportar os infortúnios com abnegação. São esses sacrifícios - verdadeiros actos de penitência - que mais mérito encerram e que, nessa medida, mais são louvados por Deus.

Acerca desta delicada questão, presente nos apelos marianos, J. Ratzinger escreve, no Comentário Teológico já referido, que esses apelos à penitência revelam como é importante para Deus a liberdade humana. Na sua interpretação da mensagem de Fátima, concretiza que, afinal, «todo o objectivo da visão é trazer a liberdade para a ribalta e apontá-la numa direcção positiva. O objectivo da visão não é mostrar um filme de um futuro fixo e irrevogável (…)». Antes, «tem por intenção mobilizar as forças de mudança na direcção correcta».(5)

Uma criança, chamada Lúcia, escuta este importante apelo de Maria, um apelo à renúncia de si mesmo por amor a Deus e à humanidade. A Mãe de Jesus Cristo estava, através da criança, a dirigir-se a toda uma humanidade. Há aqui como uma forma de fazer pedagogia do adulto, e, precisamente, através da infância. O facto de os três pequenos pastores seguirem os ensinamentos da Senhora mais brilhante que o Sol, ao começarem, de imediato, a oferecerem pequenos sacrifícios para salvar do castigo eterno os maus - ela própria Lúcia e os seus primos, Jacinta e Francisco, a quem ela conta tudo aquilo que Lhe ouve - é significativo.

De facto, tudo nas crianças é clareza, tudo nelas é boa intenção e sinceridade. Tudo nelas transmite serenidade, tudo está imbuído de paz e verdade, porque a criança não conhece o que é a guerra, não imagina o que é a crueldade, não prevê a mentira. Para a criança todo o real está repleto de aparência e toda a simples aparência é também real. A realidade co