HARMONIA DO MUNDO

 

 

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TEOLOGIA / RELIGIÃO

 

 

 

NUNO ÁLVARES PEREIRA

 

 NOVO SANTO da Igreja Católica,

um novo Santo PORTUGUÊS

 

 

 

 

S. NUNO DE SANTA MARIA por Teresa Bernardino

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Notícias:

CANONIZAÇÃO DO BEATO NUNO

PAPA RECONHECE MILAGRE DO BEATO NUNO DE SANTA MARIA

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Excertos de EU, NUNO ÁLVARES  (1ª Ed. 1987) de Teresa Bernardino

Nótula de Teresa Ferrer Passos sobre D. NUNO DE SANTA MARIA ̵  O SANTO (1ª Ed. 2005) de D. Duarte de Bragança

Excertos de PÁTRIA (1ª Ed. 1896) de Guerra Junqueiro

Poema "Nun'Álvares Pereira" in MENSAGEM (1ª Ed. 1934) de Fernando Pessoa

A BATALHA DE ALJUBARROTA, A BÍBLIA (ganhada aos Castelhanos) por Fleming de Oliveira

 

 

 

 

 

 

 

 

S. NUNO DE SANTA MARIA

 

«Tinha em mente agradar mais a Deus mantendo a virgindade. Narram as histórias de Galaaz e de outros cavaleiros imortais que a virgindade os fazia comungar da perfeição distante mas alcançável.»

Teresa Bernardino, Eu, Nuno Álvares (romance), p.31.

 

Muito jovem, Nuno Álvares Pereira foi armado cavaleiro na Casa Real de D. Fernando e da rainha D. Leonor. Imbuído dos princípios da honra e da glória cavaleirescas, era um jovem fogoso, intrépito, por vezes, emocional e instável. Identificava-se com o seu tempo tanto pela guerra sacrossanta contra o Infiel, como pela paz elevada a ideal de raiz cristã. Nos saraus aristocráticos da 2ª metade do século XIV a poesia dos amores sublimes, castos ou pecaminosos, as obras piedosas dos monges, a libertação dos povos opressores deliciava, com maravilhamento, os cavaleiros veneradores da tradição lendária da corte do rei Artur.

 

Nascido, em 1360, no mosteiro de Flor da Rosa (Crato) no Alentejo, Nuno iniciava-se na profissão nobre de cavaleiro com apenas treze anos. Aos vinte e três anos, a crise dinástica sucessória do rei falecido sem filho varão e uma filha casada com o rei de Castela, colocou Portugal à mercê das ambições iberistas dessa nação. Ao tomar o partido de D. João, Mestre da Ordem Militar de Avis, combatente pela liberdade da sua pátria, Nuno Álvares Pereira alcançou a glória de vitórias improváveis ante tão poderoso invasor, entre 1384 e 1385, em Atoleiros (Alto Alentejo), Aljubarrota (Leiria) e Valverde (perto da fronteira de Badajoz).

 

A gesta do cavaleiro perfeito aparecia a Nuno Álvares Pereira como o seu objectivo de vida. A imagem de um verdadeiro Galaaz da corte, já não do rei Artur, mas do rei de Portugal, confirmava-se. A fama do seu heroísmo e da sua arreigada ligação a um cristianismo de cruzada  levara D. João I a conceder-lhe o título, entre muitos outros, de Condestável do reino. Mas tudo isto começou a ser para ele mais uma inevitabilidade do que uma vontade.

 

A cruzada guerreira desvanecia-se no seu espírito atormentado com os dramas que vivera durante as batalhas, com a dor, com o sofrimento, com a morte. A sua espiritualidade ia-se fortalecendo numa fé que cada vez mais queria pôr em prática. Renunciou sucessivamente aos títulos e às vastas propriedades territoriais com que o rei o recompensara. Jejuava com frequência. Mandava construir capelas e igrejas desde o Alentejo à Estremadura, descia á rua para dirigir pedreiros nos edifícios mais grandiosos, como o mosteiro e igreja que mandou erigir em monte escarpado de Lisboa, em honra de Nossa Senhora, construção que se prolongou por dez longos anos.

 

Já viúvo com apenas vinte e seis anos, como nos informa Fernão Lopes na Crónica de D. João I, recusou sempre outro casamento. Sua única filha, Beatriz, morria de parto em 1414. No ano seguinte, ainda participava na cruzada de Ceuta, verdadeira cruzada contra a fé em Maomé. Mas, os tempos eram outros e a sua exaustão da guerra tornava-a um suplício. A sua alma já demasiado comprometida com a virtude que o amor aos aflitos, aos perseguidos e aos pobres lhe proporcionava, regozijava-se agora com a paz dos claustros. A alegria de vencer com a espada morrera.

 

A construção de mosteiros e igrejas dedicadas à Virgem Maria, o cuidado com o bem-estar dos seus antigos companheiros de batalha, o carácter contemplativo cada vez mais renegando a força das armas em favor da força da fé e da oração, fortificava-se nele, ano após ano. O Condestável, o homem mais rico do reino, pedia que o tratassem por Nuno. O cavaleiro caíra sob o jugo único da paz. A escolha era clara: apenas a cruz. A espada era agora uma lembrança cruel que o fazia cair numa tristeza de morte.

 

Os ideais que o norteavam com vinte e três anos decorriam do espírito do cavaleiro cristão. A hora da entrega plena a Cristo e a Sua Mãe chegara há muito. Contudo, os compromissos mundanos com o rei, com os príncipes, enfim, com a corte portuguesa eram fundos e sérios. Nada pode ser quebrado de súbito. Pronto a defender a vitória do bem sobre o mal, os pobres e as vítimas da injustiça e da opressão, jogara com coragem o papel de defensor-mor do reino. Saber que a cavalaria implicava o sacrifício, a abnegação, o heroísmo, dava-lhe a força moral para se colocar do lado dos seus compatriotas à beira da tirania. E sabia como um “fraco rei”...

 

Contudo, o invasor pretendia sufocar a liberdade do povo português. Nuno tinha orgulho de pertencer a essa gente rude, mas firme no seu desejo de independência, desde os tempos idos dos Lusitanos. Uma pátria pequena confrontava-se com a gigante. A luta em prol da reposição da justiça dos mais fracos oferecia ao jovem cavaleiro um sentido de vida inultrapassável, de ideal ao serviço de Deus porque ao serviço dos humildes, mas senhores de si, senhores da sua identidade.

 

A plenitude do amor aos que estavam claramente em desvantagem frente ao inimigo, o respeito pelas tradições autonomistas de Portugal desde a “primeira tarde portuguesa” em 1128, na batalha de S. Mamede, o culto dos heróis como o mártir S. Jorge – por quem clamava sempre no início das batalhas –  tinham transformado o incansável Nuno Álvares no seu próprio ídolo, o cavaleiro Galaaz, esse herói-mito da Idade Média. Este cavaleiro da Távola Redonda do célebre rei Artur continuava a ser venerado nos séculos XIV e XV. Lembramos, a propósito, Joana d’Arc que, em 1429, alcança a grande vitória em Orléans que marcaria o sentido do vencedor na Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Esta mulher que, no século XV, atingiu um prestígio militar idêntico ao do mítico Galaaz, era uma camponesa a chefiar o exército real. Ela era o epílogo do prestígio da mulher atingido no século XV.

 

Em Portugal, Nuno, o Condestável de D. João I, seguia já o espírito de Galaaz. Ele era, de facto, das terras de Santa Maria, afortunado cavaleiro como o previu o alfageme de Santarém. Nuno, invencível, como o modelar Galaaz. A profecia cumpriu-se. As batalhas revelaram um Nuno Álvares Pereira entre a espada da liberdade para o povo português e a oração em que se refugiava sempre que estavam próximos os combates ou se aproximava uma vitória a roçar o impossível. Nuno que, ainda em 1415, se haveria de pronunciar a favor da cruzada contra o Infiel, na hora decisiva da conquista da cidade de Ceuta. Aí pelejava, de novo, o Galaaz português.

 

Ceuta seria a última corrida com a espada na mão. O serviço dos mais pobres, o serviço de Deus e de Maria, Mãe de Jesus, absorviam-no já como se de um monge se tratasse. A comunhão com Deus, o combate a todos aqueles que estivessem do lado do mal, a luta contra as forças demoníacas, os inimigos da fé, o auxílio aos doentes, aos presos, aos pobres que abundavam na sua própria terra natal, não lhe permitiam continuar o tempo da fama e da glória da guerra.

 

No ano de 1423, Nuno Álvares Pereira ingressava na Ordem Carmelita com o nome de Frei Nuno de Santa Maria. Com uma sensibilidade muito especial àqueles que, ingressando em Ordens Religiosas, tinham deixado de cumprir com humildade cristã a sua Regra, decidiu mudar o rumo à sua vida de cavaleiro poderoso. Na vila de Moura, no coração do seu Alentejo natal, conhecera alguns membros da Ordem Carmelita que passava por grandes dificuldades, não só em professos de qualidade como em meios de sobrevivência. Logo, o mosteiro de Nossa Senhora do Carmo, em Lisboa, se tornou a sua casa.

 

Vestindo o hábito, saía todos os dias do mosteiro do Carmo em Lisboa, após jejuns e orações. Procurava pobres e doentes para lhes oferecer alimentos e o consolo da harmonia e da paz que, agora, finalmente, ganhara. A santidade revelara-se também nos milagres que muitos lhe atribuíam. Mas o seu reconhecimento pela Igreja não estava á porta, apesar de o rei D. Duarte, visita assídua de Frei Nuno de Santa Maria até ao dia da sua morte, em 1431, o ter sugerido ao Papa poucos anos depois de subir ao trono.

 

Beatificado em 1918 por Bento XV, apenas hoje, dia 26 de Abril de 2009, é canonizado pelo Papa Bento XVI. Com este novo santo, a Ordem Carmelita recebeu mais um louvor da graça divina. O carácter de santo universal foi, finalmente, reconhecido como indiscutível. Um altar para venerar S. Nuno de Santa Maria. E venerá-lo, é, acima de tudo, segui-lo.

 

Lisboa, 26 de Abril de 2009

 

Teresa Bernardino*

 

* Ortónimo de Teresa Ferrer Passos.

 

Fonte: Internet, www.harmoniadomundo.net; Revista de Espiritualidade, nº 66, Abril/Junho 2009, pp.151-154. (assin. pelo ortónimo Teresa Bernardino)

 

 

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NOTÍCIAS:

 

 

CANONIZAÇÃO DO BEATO NUNO

 

 

A cerimónia de canonização do Beato Nuno de Santa Maria, D. Nuno Álvares Pereira, terá lugar no próximo dia 26 de Abril. O anúncio foi feito pela Santa Sé, no final do Consistório deste Sábado, presidido pelo Papa.

O Consistório Público Ordinário representou o passo final do processo para a canonização do Santo Condestável. Juntamente com o novo santo português serão canonizados Arcangelo Tadini, Bernardo Tolomei, Gertrude (Caterina) Comensoli e Caterina Volpicelli. Outras cinco canonizações terã lugar a 11 de Outubro.

O homem que conduziu este processo no Vaticano, Cardeal José Saraiva Martins, referiu à Agência ECCLESIA que "depois de tanto tempo e tantos anos chegou ao seu termo a causa de canonização desta grande figura da hagiografia portuguesa”, frisando que “a canonização vai ser um dia histórico”.

O prefeito emérito da Congregação para as Causas dos Santos revela “um sentimento de gratidão a Deus pelo privilégio que me deu por poder concluir praticamente o processo de canonização do Beato Nuno Alvares Pereira”.

“É um dom de Deus à Igreja portuguesa, que todos os portugueses devemos agradecer”, assegura.

Quanto ao local, o Cardeal Saraiva Martins lembra que “o princípio é que as canonizações sejam feitas em Roma” e as beatificações nas igrejas locais. “Se não houve nenhum pedido por parte de Portugal, é natural que seja em Roma”, sublinha.

O Cardeal português diz que “todos os santos são modelos para serem imitados” e no caso do Beato Nuno: destaca “a caridade para com os pobres”.

Hoje, com os pobres a aumentar, a mensagem do Nuno Álvares Pereira é “extremamente actual”.

“É um modelo muito interessante”, assinala D. José Saraiva Martins, que lembra ainda a devoção do Santo Condestável a Nossa Senhora.

O Beato Nuno de Santa Maria (1360-1431) foi beatificado em 1918 por Bento XV e nos últimos anos, a Ordem do Carmo (onde ingressou em 1422), em conjunto com o Patriarcado de Lisboa, decidiram retomar a defesa da causa da canonização. A sua memória litúrgica celebra-se, actualmente, no dia 6 de Novembro.

O processo de canonização foi reaberto no dia 13 de Julho de 2003, nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa.

A cura milagrosa reconhecida pelo Vaticano foi relatada por Guilhermina de Jesus, uma sexagenária natural de Vila Franca de Xira, que sofreu lesões no olho esquerdo por ter sido atingida com salpicos de óleo a ferver quando estava a fritar peixe.

A cura de Guilhermina de Jesus, depois de ter pedido a intervenção do Santo Condestável, foi observada por diversos médicos em Portugal e foi analisada por uma equipa de cinco médicos e teólogos em Roma, que a consideraram miraculosa.

A história deste processo já poderia ter conhecido o seu epílogo quando, em 1947, o papa Pio XII se manifestou interessado em canonizar o Beato português por decreto. O estado de uma Europa destruída pela II Guerra Mundial fez, porém, com que a Igreja portuguesa recusasse este motivo de festa.

Trabalhos levados a cabo pelos Cardeais Patriarcas de Lisboa D. José III (1883-1907) e D. António I (1907-1929), secundados pela Ordem do Carmo, culminaram com o Decreto da Congregação dos Ritos “Clementissimus Deus” de 15 de Janeiro de 1918, ratificado e aprovado pelo Papa Bento XV em 23 do mesmo mês e ano. Esses trabalhos, retomados pelo Episcopado Português, culminaram com a já referida permissão de Pio XII para que o processo da canonização prosseguisse.

(In Agência Ecclesia, 22 de Fevereiro de 2009)

 

A Ordem do Carmo está a organizar uma peregrinação para que os fiéis possam participar da alegria deste acontecimento em Roma. A Ordem dos Carmelitas Descalços não os poderá acompanhar pois celebra por esses dias, em Fátima, o Capítulo Geral da Ordem.

 

Fonte:  Internet,  http://www.carmelitas.pt/site/index.php

 

 

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O Condestável Nuno Álvares Pereira, com o nome de Frei Nuno de Santa Maria (após fundar a Ordem Carmelita em Portugal), será canonizado, no próximo dia 26 de Abril, pelo teólogo Joseph Ratzinger, o actual Papa Bento XVI, em cerimónia a efectuar no Vaticano.

O Irmão Carmelita Francisco Rodrigues, vice-postulador para a causa da canonização de Nuno Álvares considerou que se trata de «um exemplo para a sociedade actual». E acrescentou que a canonização é um «sinal» no nosso tempo.

Neste ambiente marcado pela subversão das virtudes e pela obscura vivência da fé, foi um acto de coragem do Papa Bento XVI, tomar a decisão de apressar a visibilidade de modelos de vida cristã, capazes de provocarem a ascensão de novos santos. Sobretudo, daqueles que dão testemunho da santidade, como um comportamento vulgar e não como uma excepção.

   

22 de Fevereiro de 2009

T. F. P.

 

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Em 16 de Fevereiro de 2009, a Rádio Renascença informou, no seu bloco noticioso das 19  horas, que o Papa Bento XVI efectuará a cerimónia de canonização de Nuno Álvares Pereira, em 11 ou 18 de Outubro deste mesmo ano. Assim, o fundador do Mosteiro e Igreja de Nossa Senhora do Carmo em Lisboa, autor de reconhecidos e variados milagres, benemérito dos pobres e doentes, após largas doações com que D. João I reconheceu os serviços prestados à Pátria portuguesa, receberá finalmente o merecido reconhecimento do Chefe da Igreja Católica. 

 

16/2/2009

 

 

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PAPA RECONHECE MILAGRE DO BEATO NUNO DE SANTA MARIA

 

 

Os decretos foram tornados públicos esta Quinta-feira pela Sala de imprensa da Santa Sé, após uma audiência concedida pelo Papa ao Cardeal José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.

O Beato Nuno de Santa Maria (1360-1431) foi beatificado em 1918 pelo papa Bento XV, e nos últimos anos, a Ordem do Carmo (onde ingressou em 1422), em conjunto com o Patriarcado de Lisboa, decidiram retomar a defesa da causa da canonização. A sua memória litúrgica celebra-se, actualmente, no dia 6 de Novembro.

O processo de canonização do Beato Nuno de Santa Maria, D. Nuno Álvares Pereira, foi reaberto no dia 13 de Julho de 2004, nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, com a sessão solene presidida por D. José Policarpo.

A cura milagrosa reconhecida pelo Vaticano foi relatada por Guilhermina de Jesus, uma sexagenária natural de Vila Franca de Xira, que sofreu lesões no olho esquerdo por ter sido atingida com salpicos de óleo a ferver quando estava a fritar peixe.

A cura de Guilhermina de Jesus, depois de ter pedido a intervenção do Santo Condestável, foi observada por diversos médicos em Portugal e foi analisada por uma equipa de cinco médicos e teólogos em Roma, que a consideraram miraculosa.

A história deste processo já poderia ter conhecido o seu epílogo quando, em 1947, o papa Pio XII se manifestou interessado em canonizar o Beato português por decreto. O estado de uma Europa destruída pela II Guerra Mundial fez, porém, com que a Igreja portuguesa recusasse este motivo de festa.

Trabalhos levados a cabo pelos Cardeais Patriarcas de Lisboa D. José III (1883-1907) e D. António I (1907-1929), secundados pela Ordem do Carmo, culminaram com o Decreto da Congregação dos Ritos "Clementissimus Deus" de 15 de Janeiro de 1918, ratificado e aprovado pelo Papa Bento XV em 23 do mesmo mês e ano. Esses trabalhos, retomados pelo Episcopado Português, culminaram com a já referida permissão de Pio XII para que o processo da canonização prosseguisse (...).

 

3/7/2008

 

 

Fonte: www.somosportugueses.com

 

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NUNO ÁLVARES PEREIRA,

 

UM CAVALEIRO MEDIEVAL:

 

DA BUSCA DA PERFEIÇÃO

AO ENCONTRO DA SANTIDADE

NA LITERATURA PORTUGUESA

 

 

 

 

 

 Eu, Nuno Álvares

por 

 Teresa Bernardino*

 Romance histórico (excerto)(Publicações Europa-América, Colecção Século XX, nº 274,

1ª edição, Lisboa, 1987)

 

 

 

Capítulo XIV, pp.112-124:

(...)

 

Da fundação do Mosteiro de Nossa Senhora do Carmo em Lisboa

 

 

«Naquele ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1385 recebi largas doações das mãos d'el-rei: Vila Viçosa, Borba, Estremoz, Portel e Setúbal, que pertenciam ao conde Andeiro; as rendas e direitos de Loulé e Silves; em préstimo, D. João outorgou-me as rendas e direitos que detinha em Guimarães, Ponte de Lima, Valença, Vila Real, Chaves e Bragança; pela vitória em terras de Valverde, o monarca atribuiu-me o título de conde de Barcelos, com a respectiva vila e seu termo. No ano seguinte, fui contemplado com a dízima da lenha e de carvão destinados à cidade de Lisboa, com a pensão vitalícia que os tabeliães das comunas judaicas pagavam à coroa todos os anos.

Estas honras e dádivas régias deixavam-me confuso e circunspecto. Não as receber seria injúria para o rei; possuí-las constituía afronta à dignidade do guerreiro que só queria servir o Reino e engrandecer o bom nome das armas portuguesas. Que ligação entre tão dilatado poder em terras e rendas e a honra da cavalaria, assente no desprezo dos bens mundanos? A minha vida sóbria, sem espavento nem vaidade no trajar, a cada momento disponível para a guerra movida de Castela, não se podia comprazer com tão largas e proveitosas mercês. A riqueza e o conforto do lar desprezara-os bem jovem ao afastar-me de Leonor de Alvim e da sua esplêndida casa no Minho, para me deleitar no serviço de uma pátria em perigo de ser submersa pela prepotência abrangente e aniquiladora de uma rainha vendida aos interesses de terra estranha. Com inúmeros rendimentos, nasceu na minha alma uma insatisfação, uma repugnância, um sentimento de inquietação crescente. À alegria da vitória sucedia o desaire da recompensa real. E como a recompensa me parecia mesquinha e vil, após ter recebido a oferta divina de uma vitória na batalha sangrenta! Era a derrota do inimigo que me proporcionava contentamento; a supremacia do braço armado português permitia-me encontrar a expressão da felicidade, que só descobria nos campos de batalha ao ver por terra a bandeira castelhana; a luta heróica confrontava-me com a morte e concedia-me a certeza de que só morre quem desiste de lutar. O herói não encontra a morte no terreiro da batalha porque é aí que o herói descobre a vida a perpetuar-se na memória das gentes.

O sangue, a dor, o grito, ecoam no seu mundo de surpreendentes glórias sem as modificar, sem as destronar, nem sequer as profanar ou emudecer. Neste mundo, a vida é a eleita, não a morte. Esta é a demolidora do sonho, enquanto aquela é a sua raiz e a sua intérprete. A vitória, a coroação do sonho que a vida enalteceu, transmite o significado profundo da existência heróica e consigna-lhe a verdadeira recompensa. Envolvido nestes pensamentos, entrevia as múltiplas doações régias como sinal de gratidão d'el-rei, mas não como o galardão verídico das proezas contra o Castelhano, em hora de maravilhosa intervenção da Divina Providência, após contemplativos êxtases de invocação.

À Mãe de Deus escolhi frequentemente como auxiliadora privilegiada nos transes mais perigosos do combate; à beira da abismal derrota, orava com fervor; a salvação da Pátria, a pureza da religião sem subserviências a falsos papas, a defesa da expansão do seu culto em terras de Portugal, estavam presentes em todos os exórdios, em que apelava à sua compaixão para com os que, sendo poucos, pelejavam com a grande hoste inimiga. à Virgem Maria elegi rainha dos Portugueses nos campos de Aljubarrota. Desvendei então o Seu olhar vigilante sobre os que, sendo em maior número, repudiavam o domínio do invasor. A nossa vitória sobre forças tão poderosas era a prova do Seu amor aos Portugueses, pois todas as tácticas são inglórias se são contrárias aos desígnios dos Céus. As minhas preces foram contempladas pela vontade da Mãe de Deus: em Aljubarrota, em Atoleiros e em outros lugares.

Como retribuir-Lhe tanta bonomia para com este pequeno povo que a venerava com desvelada ternura? Num instante, surgiu-me a luminosa ideia de semear com capelas e igrejas, sob a sua invocação, as vilas do vasto e incansável pelejante Alentejo. Assim, mandei concluir, em Estremoz, o templo de Nossa Senhora dos Mártires, já iniciado no reinado d'el-rei D. Fernando; em Vila Viçosa, onde me detive longas temporadas, edifiquei a Capela da Imaculada Conceição; em Évora, Monsaraz, Portel, Mourão, Sousel, foram elevadas igrejas dedicadas a Nossa Senhora, sob a minha direcção e com parte das rendas que auferia. Contudo, parecia-me insuficiente a construção de simples santuários de culto e homenagem à Virgem Santíssima. Sentia que algo mais majestoso e místico devia ser-Lhe dedicado. Algo que possuísse maior amplitude e que consagrasse de modo mais sublime a minha veneração pela Mãe de Cristo.

Um dia, ao passar por Moura, encontrei Frei Afonso de Alfama, vigário-geral dos frades carmelitas, estabelecidos naquela localidade desde o reinado d'el-rei D. Sancho II. Convidou-me para visitar o mosteiro, o que fiz com muito agrado. Depois de me mostrar o refeitório, a Sala do Capítulo, o scriptorium e o dormitório, trouxe-me até ao claustro, onde deambulámos em vivo diálogo acerca das condições de sobrevivência daquela Ordem religiosa contemplativa e a situação geral dos mosteiros do reino, nos fins daquele século sacudido por calamidades tão devastadoras como a peste negra do fatídico ano de 1348. Muitos frades tinham sido vítimas do terrível flagelo e os mosteiros, por vezes, pouco povoados, acabavam por cair em ruínas ou ficar nas mãos de administradores pouco escrupulosos. Estes, também chamados «ovençais», dirigiam os mosteiros utilizando os seus réditos para a manutenção da sua enfermaria, vestiaria ou adega; desprezavam a solenidade das celebrações litúrgicas, reduzindo-as a um culto simplificado e desprovido da eloquência de outros tempos. Esta chamada de atenção de Frei Afonso para as questões respeitantes ao declínio da disciplina e da obediência monásticas despertou-me a ideia de ajudar, conforme estivesse ao meu alcance, esta Ordem, de remota fundação.

̶  Já no século IV, D. João, patriarca de Jerusalém, foi frade carmelita  ̶  elucidou-me Frei Afonso.  ̶  Agora temos aqui Frades vindos de Castela e de Inglaterra que procuram conservar e fazer cumprir a Regra nas suas linhas mestras; alguns portugueses estão igualmente empenhados em não deixar proliferar alguns casos de pouca decência, como o de monges mais preocupados na acumulação de benefícios do que em servir devotamente e observarem com rigor os princípios fixados pelos nossos santos monges dos séculos passados. Como sabeis, o cargo de abade é ambicionado por muitos e merecido por poucos. Aconteceu recentemente que abades não foram eleitos pela comunidade para o serem pelos papas, pelos bispos e até pelos próprios reis!

̶  Penso que é preciso pôr cobro a toda esta degradação moral dos conventos  ̶  interrompi com energia.  ̶  Com satisfação vejo que vos preocupais com uma das realidades mais tristes do nosso tempo. Será para mim motivo de contentamento poder auxiliar a vossa obra de reorganização dos Irmãos Carmelitas de Moura. A vossa presença dinâmica e sábia nesta bela povoação de um Alentejo ermitério silencioso de horizontes a perder de vista é o maior alento para o guerreiro que repousa por breve tempo das agruras e do desconforto da lide interminável.

̶  A reforma da Ordem é o meu objectivo maior  ̶  acrescentou Frei Afonso.  ̶  Se Deus o permitir, havemos de ser uma das mais zeladoras Ordens de Portugal. Os bons costumes e a sã moral regressarão, se nos esforçarmos, a esta monástica casa de tão antigas tradições. A nossa entrega plena ao coração da Virgem Maria não deixará soçobrar tão magnífica e exemplar morada de meditação bíblica e patrística.

Regressei a Vila Viçosa ao fim da manhã. Embora envolvido pelo cenário ainda não desvanecido da guerra com Castela, cogitei todo o caminho no entusiasmo daquele homem de meia idade, fronte pálida e olhar vivaz, generosamente dedicado à sua missão monástica e com um apurado sentido empreendedor da renovação dos costumes conventuais. A impetuosidade com que proferia as suas críticas revelava a revolta da sua alma, escandalizada com a degradação de vários mosteiros abandonados pelo egoísmo de muitos monges a viverem com mulher e filhos e indiferentes aos votos jurados ante o altar de Deus e Nossa Senhora da Conceição.

Quando certas comunidades estavam sob a alçada de abades que não eram monges nem sequer clérigos, Frei Afonso procurava dar rumo novo à Ordem, rejeitando soluções que enveredassem pela sobrevivência de uma vida profana dentro dos muros claustrais. Com o seu carácter determinado, a vida cenobítica dos Carmelitas de Moura ia ganhar uma nova dimensão: ao retomar os caminhos percorridos nos tempos áureos dos séculos anteriores, seriam lidos e meditados durante longas horas um Santo Agostinho, um S. Gregório Magno, um João Cassiano ou um Santo Isidoro de  Sevilha. Como sucedera nos pródigos anos do misticismo ascético, os conventuais deviam regressar à vida contemplativa em toda a plenitude e abandonar as solicitações do século, alienantes e distanciadoras dos mistérios divinos, só captados pelo frade desprovido de interesses materiais. Todos estes pensamentos eclodiam no meu espírito cansado quando consegui adormecer. No dia seguinte, ainda o Sol não subira além da linha do horizonte, entreabri os olhos, julgando que acordara demasiado tarde. Estava acostumado a levantar-me quando a luz resplandecente do Sol não era perceptível senão pela claridade que rompia a escura noite. O sono fora tranquilo. Contudo, um sonho sobressaía entre os que me animaram o espírito adormecido: foi o da aparição da Mãe de Deus quando me deleitava saboreando alguns frutos do horto dos Carmelitas de Moura; emudecido pelo espanto, olhei a Sua configuração mediana, o Seu rosto muito alvo como se n'Ele tivesse caído uma neve transparente e, ao de leve, rosada. Ao contemplar a divinal imagem, senti no ar que respirava um forte perfume a incenso ou a malva-rosa, não distingui, que me inebriava e envolvia numa atmosfera irreal e paradisíaca.

Envolta num longo manto de púrpura branca, a sorrir, disse-me: «Aqui estou para solicitar um trabalho vosso. Sei como vos impressionou bem a comunidade carmelita de Moura. Nela encontrastes um pouco de vós, da vossa sensibilidade e devoção. Podeis ajudá-los, se com as vossas rendas edificardes um magnífico mosteiro, constituído por parte dos seus membros portugueses, na populosa e nobre cidade de Lisboa; lembro-vos um local a que dou preferência: a falésia escarpada sobranceira ao largo do Rossio, situada junto de um campo a que chamam Pedreira, que foi bairro de judeus e que tem hoje um olival pertencente aos frades do Mosteiro da Trindade». Sem que tivesse tempo de responder, a visão surpreendente desfez-se e fiquei de novo ente as árvores abaladas pelo peso da fruta, que pendia já com abundância e o silêncio entrecortado pelo zumbido do vento que se enrolava no manto da folhagem profusa e fresca do extenso pomar. Ali me deixara Frei Afonso na hora da reza de sete padre-nossos. Quando este regressou do ofício litúrgico, eu queria repetir-lhe a cena, mas algo de estranho me impedia de articular qualquer som. A minha boca, inflamada pela acidez dos frutos, estava inchada e uma secura atroz estonteava-me. Dividido entre o desejo e a impossibilidade, agarrava-lhe o hábito como se desse modo lhe comunicasse a minha vontade de lhe expressar a inesperada visita celestial. Já desesperado pela impotência, dei um violento estremeção e acordei. Com o coração em palpitações rápidas, meditei sobre a bela mensagem da Rainha dos Céus e logo me predispus a dar realização à luminosa visão onírica.

A construção de uma comunidade monástica com uma sumptuosa igreja dedicada a Nossa Senhora do Vencimento do Carmo, no monte fronteiro ao Castelo de S. Jorge e rivalizando com o Convento de S. Domingos, perto do largo do Rossio, seria a coroa de glória de Lisboa. Em 16 de Julho de 1389, dia consagrado a Nossa Senhora do Carmo, era lançada a primeira pedra, para se erigir a imponente catedral do monte da Pedreira.

No ano anterior, minha mulher deixara para sempre o mundo dos vivos. Foi em Braga, onde se efectuavam cortes, que recebi a infausta notícia. Leonor residia na cidade do Porto, donde ninguém a conseguia afastar. A sua morte recordara-me os momentos raros em que convivemos: os primeiros anos do matrimónio foram vividos como se soubéssemos que iam ser breves, e, de facto, foram. O serviço da guerra impedia a minha permanência no Minho. Na verdade, eram raros os contactos nos proporcionava. Minha filha, uma criança risonha e impetuosa, só me via esporadicamente, guardando de mim uma lembrança vaga e pouco afectuosa. Nos breves encontros, possíveis entre o assalto a um castelo e a preparação de um  bando para perseguir o Castelhano, aquela criança sem rebeldia observava, com curiosidade, o arnês, a cota e os braçais, que raras vezes despia; e a sua timidez assumia um carácter emotivo sempre que eu a entrelaçava nos braços e a beijava saudoso.

Desconfiada, olhava de soslaio para a mãe como se temesse o meu aspecto belicoso e não reconhecesse o próprio pai. A Leonor a entregava, sem demora, quando um lacrimejar assomava às suas coradas faces, se não a largava prontamente. A morte da carinhosa mãe foi um rude golpe para Beatriz, tão ligada ao amor que ela lhe oferecia; Leonor concentrara na filha toda a ternura que não me podia atribuir devido às minhas ausências prolongadas. Neste transe era a dor de Beatriz, ainda de pouca idade, que me compungia e absorvia os pensamentos. Porque a morte de Leonor não significava, como seria vulgar, uma separação sofredora. A nossa união durara escassos anos. O afastamento fora uma realidade consentida pela mulher que não abdicava da serenidade caseira e pelo homem vocacionado para o desconforto e a aridez da guerra. Com a sua morte, eu cortava um dos poucos e frágeis laços que tinha com o mundo. Restava-me a sensível Beatriz e minha mãe, a quem a entreguei e que residia então na buliçosa cidade do Tejo.

Sem me aperceber do motivo, a ideia de construir o Mosteiro de Nossa Senhora do Carmo possuía um sentido maior após o afastamento tumular de Leonor. A edificação da monástica morada era o ponto de partida para ma nova existência, como se se tratasse de um lar a substituir aquele onde permaneci com Leonor no tempo em que a paz mo consentiu.

Logo após receber o breve consentimento do papa Urbano VI, deu-se início à construção. No entanto, a pouca consistência dos terrenos, no declive que a Virgem elegera, obrigou ao lançamento de alicerces por três vezes. Foram oito anos de árduos trabalhos: a igreja, com três naves e seis grandes pilares de cada lado, era revestida no exterior com largos botaréus, o que lhe dava uma aparência de esplendorosa fortaleza defensiva; o claustro, com trinta e seis janelas, era encimado dos dormitórios, cuja parte inferior era ocupada pela Casa do Capítulo e outras dependências destinadas aos conventuais.

Para que o edifício comunitário obtivesse a máxima segurança, chamei os melhores pedreiros de Lisboa: Lourenço Gonçalves, Estêvão Marques, Lourenço Afonso e João Lourenço. À frente destes quatro importantes elementos coloquei Álvaro Pires. A minha participação reduzia-se à vigilância dos trabalhos, a apontar algumas imperfeições ou a fazer sugestões sobre a decoração das paredes ou dos altares. Pretendendo um edifício de grande sobriedade e elegância, sem excessivos ornatos (usuais na arquitectura religiosa) que ferissem a humildade mística dos monges, gostava que lhe fosse conferido apenas o tom da sumptuosa arte gótica. Com simples ornamentação, as paredes rasgadas com altos janelões abertos sobre o amplo rossio da cidade permitiam que a luz penetrasse plenamente no interior das janelas absidiais e nas naves do corpo principal da igreja.

No ano da graça de 1397, a edificação estava praticamente concluída. Desejando dar cumprimento à vontade da Mãe de Deus, escrevi uma carta a Frei Afonso, pedindo-lhe o envio de alguns monges da comunidade de Moura, desde que fossem todos portugueses, para o cenóbio de Nossa Senhora do Carmo em Lisboa. De acordo com a minha sugestão, a comunidade escolheu Frei Gomes de Santa Maria para primeiro prior. Com ele vieram para o Carmo Frei Luís de Serpa, Frei Vasco Pinto, Frei João Gonçalves, entre outros. O sustento e a manutenção dos frades ficava a minhas expensas, conforme revelara na missiva dirigida a Frei Afonso. Os meus avultados rendimentos em géneros e em moeda possibilitavam a despesa não só com os membros da Ordem Carmelitana como igualmente com os inúmeros pobres que diariamente começaram a procurar amparo junto ao portal de Nossa Senhora do Carmo.»

(...)

 

 

* Ortónimo Teresa Ferrer Passos

 

 

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NÓTULA SOBRE O LIVRO D. NUNO DE SANTA MARIA −

O SANTO*

 

 

Como se escreve no Prefácio desta monografia da autoria do Duque D. Duarte de Bragança "celebremos os louvores dos homens ilustres, através das gerações. Neles o Senhor realizou uma glória imensa e manifestou a Sua grandeza desde outrora." O autor deste texto de apresentação do livro é o Padre Frei Francisco J. Rodrigues da Ordem Carmelita, Vice-Postulador da Canonização do Beato Nuno.

 

Na contra-capa, destacamos um texto de Vítor Escudero da região espanhola da Galiza, autor da conferência "D. Nuno Álvares Pereira –  'Alma Mater' do Portuguesismo", como refere a brevíssima Bibliografia final. Aqui, Vítor Escudero salienta  que Sua Eminência o Cardeal D. José Saraiva Martins,  após reunião com  o Duque de Bragança, D. Duarte João, reunião solicitada a pedido deste para que fosse dinamizado «o processo de canonização do Beato Nuno de Santa Maria», o aconselhou a fomentar «o conhecimento e a devoção do nosso Frei Nuno de Santa Maria, o "Santo Condestável".»

 

Como escreveu D. Duarte (neste texto publicado posteriormente a esta conversa com o Cardeal D. José Saraiva Martins), «julgava-se que D. Nuno Álvares Pereira teria nascido no castelo de Cernarche do Bonjardim na festa de S. João Baptista, a 24 de Junho de 1360, recebendo o baptismo, no mesmo dia, no Mosteiro do Bomjardim, fundado por seu pai, D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital, que é hoje a Ordem de Malta. O mais provável, porém, é que o seu nascimento tenha ocorrido em Flor da Rosa, junto à bela vila do Crato, que pertencia à mesma Ordem». E, acentua, ainda: «Criado na Corte junto da mãe, D. Iria Gonçalves do Carvalhal, o jovem dedicou-se desde cedo à leitura e à aprendizagem das virtudes da cavalaria » (p.13). E, logo a seguir, sublinha que «aprendeu a amar as virtudes dos santos, sobretudo a pureza, a caridade e a humildade, tendo jurado seguir o código de honra dos lendários Cavaleiros da Távola Redonda» (p.14). E, «nos últimos dias de 1383 "o comum povo livre" proclamou o Mestre de Avis Regedor e Defensor do Reino, o qual organizou o seu Conselho de Governo, chamando Nun'Álvares a fazer parte dele (p.17).

 

Mais adiante, o duque de Bragança realça o facto de as Crónicas «narrarem que o célebre Alfageme da Ribeira de Santarém, que corrigiu a sua espada numa só noite, gravou nela uma cruz e uma estrela com o nome da Virgem Santíssima. Levantou esta espada pela primeira vez em defesa da Pátria, na batalha de Atoleiros, a 8 de Abril de 1384, e depois dessa vitória, o Mestre de Avis, concede-lhe o título de Conde de Ourém. A 6 de Abril de 1385, o Conde de Ourém foi nomeado Condestável e Mordomo-Mór do Reino, tornando-se assim guardião máximo da Lei e da Moral nacional (p.19).

 

Ainda recorrendo às muitas lendas que se formaram a propósito do carácter milagreiro de Frei Nuno de Santa Maria, o Duque Duarte João Pio de Bragança, afirma na sua homenagem a este seu longínquo antepassado, que «D. Nuno impedia, com frequência, após as batalhas, os seus homens de perseguirem os vencidos, contrariando assim os usos da época» (p.21).

 

Nesta contribuição do autor para uma das vertentes da História do Povo português, a história das lendas, tão abundantes na literatura portuguesa, afirma que, no lugar de Fátima, «quando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol» (p.22).

 

A obra conta 57 páginas e é ilustrada com belos desenhos e pinturas da figura de D. Nuno Álvares Pereira. De notar, a primorosa apresentação do livro de capa dura, magnificamente decorada com uma gravura em que Frei Nuno se apresenta com uma sumptuosa indumentária de guerreiro nobre.

 

17/3/2008

Teresa Ferrer Passos*

 

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino.

 

** S. A. R. Dom Duarte, Duque de Bragança, D. Nuno de Santa Maria - O Santo, ACD Editores, 2ª edição, Lisboa, 2005.

 

 

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Nuno Álvares Pereira

nas páginas do livro PÁTRIA [1ªed., 1896]

de Guerra Junqueiro

(Os excertos foram retirados da 3ª edição, Porto, 1915, pp.140-169

[foi conservada a grafia da época])

 

 

 

(...)

 

«Surge o espectro de Nun'Álvares, vestido de  monge carmelita. O rei desfalece de novo. Os cães investem, mas, diante do olhar sobre-humano do condestável, recuam trémulos, como obedecendo a um fluído mágico.

 

O ESPECTRO DE NUN'ÁLVARES:

 

Por teus avós chamaste. Um falta ainda,

Falta a raiz da árvore de morte,

Que em ti, vergôntea exausta, expira e finda.

 

Oh miseranda, lastimosa sorte,

A deste coração desbaratado,

Que outrora se julgou tão puro e forte!

 

Deu com ele a gangrena do pecado,

Qual um bicho escondido que apodrece

Um deleitoso fruto embalsamado.

 

Nada valem tensões, nem vale a prece:

É das obras que vem à criatura

O galardão e a pena que merece.

 

Não acuso de ingrata a sorte dura:

Volvo-me contra mim unicamente

Em meu desassossego e má ventura.

 

Tamanino inda eu era, inda inocente,

Alma cândida e pura, como a rosa

Aberta junto d'água ao sol nascente.

 

Quando uma noite uma visão fermosa

Me aparece e me diz com voz divina,

Ao mesmo tempo clara e misteriosa:

 

«Li numa estrela d'oiro a vária sina

Que a esforçadas, magnânimas empresas

E a feitos não obrados te destina.

 

«Mas que valem altíssimas grandezas,

Mas que valem as pompas e as vitórias,

Se a mundano desejo andarem presas?!

 

«Só da fé, só do bem quedam memórias:

Tudo o mais é poeira, um vão ruído,

Uns tumultos de sombras ilusórias...

 

«Cavaleiroso coração ardido

A grande termo levará seus feitos,

Quando ponha em Jesus alma e sentido.

«Melhor que duro arnez, defendem peitos

Virtude adamantina e graça clara,

Com que Deus abroquela os seus eleitos.

 

«Sê casto como a luz beijando a seara,

Firme qual entre as ondas o rochedo,

Manso como ovelhinha em pedra d'ara.

 

«E, como o sol d'Abril veste o arvoredo,

D'armas resplandecentes vestirás

O teu corpo d'herói, viçoso e ledo.

 

«Só pela Pátria e Deus batalharás.

De tua larga mão caiam na terra,

Num gesto grande a beatitude e a paz.

 

«Seja neve dos píncaros da serra

Teu limpo coração, bondoso e humano,

Quer na tranquilidade, quer na guerra.

 

«A tirania ao fim pune o tirano.

Contra o injusto volta-se a injustiça,

E a maldade é aos maus que faz o dano.

 

«Arreda para longe ódio e cubiça;

Contra fero inimigo um bravo alento,

Contra amargura e dor alma submissa.

 

«Viva dentro da carne o pensamento,

Na pureza da virgem confinada

Dentro da cela branca dum convento.

 

«E a carne exultará transfigurada,

Qual nuvem escura em céu ligeiro,

Em lhe batendo a luz da madrugada.

 

«De tal guisa, vencendo-te primeiro,

A todos vencerás como um leão,

Formidável e nobre cavaleiro.

 

«E de Cristo e da Pátria em defensão

Brilhará tua lança como um raio,

Mandará tua voz como um trovão!»

 

Assim falou (se me abalou julgai-o!)

A graciosa visão, que se desfez

Pouco a pouco em suavíssimo desmaio.

 

Donzel eu era já, quando outra vez

As mesmas falas ela, de improviso,

Me repete co'a mesma candidez.

 

Todo cheio de lágrimas e riso,

Num enlevo quedei, numa ansiedade,

Mais que da terra já, do paraíso.

 

E à celeste, benéfica deidade

Jurei suas razões maravilhosas

Puramente cumprir e de vontade.

 

Jurei que nunca minhas mãos culposas

Mulher manceba haviam de tocar,

Feita que fôra de luar e rosas.

 

Jurei, unido em Cristo à luz do altar,

Pôr batalha de morte a meus desejos

E meus vícios da carne assossegar.

 

Anos do mundo, breves e sobejos,

Fadigações da vida tão mesquinha,

Com seus ais, com seu pranto, com seus beijos,

 

Tudo votei sem pena e bem asinha

À cruz do Redentor e à cruz da espada,

Ao meu Deus verdadeiro e à pátria minha,

 

Jurando guardar sempre, e bem guardada,

Ûa alma pura em natureza pura,

Qual em âmbula d'oiro hóstia sagrada.

 

Ai de mim! ai de mim! faltei à jura!

Ai de mim! ao de mim! porque uma peste

Logo te não queimou, língua perjura?!

 

Ah, donosa visão, visão celeste,

Bem devera de ter descortinado

Naquelas altas falas que me deste,

 

Que eu, em vício d'amor sendo gerado,

Remiria na carne aborrecida

Pela grã penitência o grã pecado.

 

Madre senhora! ó madre estremecida!

Antes ficara tu noiva e donzela,

E eu não abrisse o olhar à luz e à vida!

 

Ó padre carinhoso! Ó madre bela!

Vossa culpa caiu no vosso fruto,

E, com a culpa amarga, o nojo dela!

 

Queixa não hei de vós: a mim imputo

Lástima e dano, que me só provêm

Dêste bichoso coração corrupto.

 

Por vós criado fui, como ninguém;

Vós me guiaste com suave geito,

Desde menino a alma para o bem.

 

Remidor dum pecado eu fôra eleito;

Assim mo disse a cândida visão,

E mo escreveu com lágrimas no peito.

 

Quando tu, padre meu, alto varão,

Mulher me cometeste, logo ansioso

Se me gastou, nublado, o coração.

 

E toda a noite o arcanjo luminoso

Repetindo: Não deixes, filho meu,

Glória celeste por triste gôzo!

 

E a miséria da carne me venceu!

Ó padres! perdoai, chorai comigo,

Que o vosso algoz tirânico fui eu!

 

Eis aqui vosso algoz, vosso inimigo:

Por mim no purgatório estais sofrendo,

E eu sofro, além do meu, vosso castigo.

 

Oh, destino cruel! oh, caso horrendo!

A livrar-vos da falta me hei proposto,

E sou o Judas negro que vos vendo!

 

Nem pára aqui meu transe e meu desgosto.

Como de olhar-me, ó sol deslumbrador,

Não se te muda em noite a côr do rosto?

 

Como não gelas, dize, de pavor,

Vendo que em fraco peito miserável

Cabe tromenta assim de nojo e dôr?!

 

Ó terra triste! ó céu inexorável!

Que ventre de mulher pariu um dia

Desaventura a esta assemilhável?!

 

Nobres guerras armei, como cumpria,

D'ânimo afoito a rudes castelhanos,

Desbaratando-os Deus por minha via.

 

Contra seu vão furor, contra seus danos,

Batalhei desde a alva alegradora,

Ao derribado ocaso de meus anos.

 

Sangue de irmãos verti... Vertido fôra

Novamente mil vezes, sem piedade,

Que alma não é de irmão alma traidora.

 

Pátria minha gostosa, quem não há-de

Em risonho sabor, vida e fortuna

Dar por teu livramento e majestade!

 

Como a de fogo altíssima coluna

Vai do povo de Deus na dianteira,

Afim que se não perca ou se desuna,

 

Tal na frente das hostes, sobranceira,

Contra duro inimigo acovardado

Tremeu sempre no ar minha bandeira.

 

É que nela Jesus ia pregado,

Jesus, rei das estrêlas, rei do mundo,

Meu capitão fermoso e sublimado.

 

Ordenara, porêm, o céu profundo,

Que em tal cometimento era mister

Carne sem nódoa e coração jocundo.

 

E estas mãos (ai do feito em que as puser!)

Tocado haviam já, tornadas lama,

Com vil desejo, em corpo de mulher.

 

Fôsse a Virgem celeste a minha dama,

Se, como Galaaz, herói invito,

Alcançar me propunha honrada fama.

 

Deus castigou-me o coração maldito:

Pois que sôbre êle ainda vem pesando

O carrêgo mortal do meu delito.

 

Ó cidadela da pureza, quando

Um vício te faz brecha, sem tardança,

Prestes os mais acodem galopando.

 

Em minha carne, um dia honesta e mansa,

Por onde entrou luxúria malfazeja

Entrou ira e soberba, entrou vingança.

 

Inda me sangue o peito lagrimeja

Da boa e má tensão, que, desvairadas,

Armaram nele horrífica peleja.

 

Oh, pelejas da alma encarniçadas!

São as outras uns jogos inocentes,

Com o furor das tuas comparadas.

 

Anjos d'asas de luz resplandecentes,

Sêculos dia e noite a batalhar

Com demônios, com tigres, com serpentes!

 

Ah, nem ouso de espanto relembrar

Essa guerra feroz, que já não arde,

Entre meu crime duro e meu pesar...

 

Tão animoso, nela fui covarde;

Tão vencedor, a miúdo fui vencido,

E a vitória, se a hei, me chegou tarde.

 

Uma noite em que mais me vi perdido,

Com afincada raiva e crua senha

Dos demônios ardentes combatido.

 

A visão me ressurge em forma estranha,

E em tão grande e mortal melancolia,

Que nunca em mim a houve assim tamanha.

 

Um longo véu de dó ela vestia,

Numa tal soledade e desconfôrto,

Que a disséreis a Virgem na Agonia.

 

Meiga, sem me falar, o olhar absorto

Pousou em mim então, como se fôsse

Ûa madre encarando um filho morto.

 

No seio me verteu, divina e doce,

Lágrimas d'oiro, e, com suspiro etéreo,

Silenciosa esmaiando, evaporou-se.

 

Ó lágrima de dôr, por que mistério

Subitamente ao ânimo torvado

Me deste paz, clareza e refrigério?...

 

Todo eu me senti purificado:

Num ditoso sofrer o meu tormento,

Numa pena bemvinda o meu cuidado...

 

Tal o mísero rei, que vai sangrento

De perdida batalha, alfim se lança

Em ditoso e profundo acostamento.

 

Descobrira que a dôr é irmã da esp'rança;

E que ao alto pendão, no azul divino,

Só a humildade, a rastros, se abalança.

 

Já liberto de espírito malino,

Com as veras palavras de Jesus

Assentei de acordar o meu destino.

 

De mundanários bens fácil dispuz;

Que só virtude é oiro, e a mór grandeza

Da terra são três pregos numa cruz.

 

Dentro de mim, numa fogueira acesa,

Queimei glória e valor: não ficou nada

Mais que melancolia e que tristeza.

 

Parti a lança; pendurei a espada;

Com bordão de pastor ou de ceguinho,

Bem andamos de noite esta jornada.

 

Fama grande do mundo tão mesquinho,

Dando às trombetas com ardor não vôa,

Onde vôa, cantando, um passarinho.

 

E onde há, ó meu Jesus, se a dor te crôa,

Se é teu vestido sangue e o vinho fel,

Pena digna de nós, que bem nos dôa?!

 

Sem escudo, sem cota, sem laudel,

Minha triste nudez arrecolhida

Numa samarra triste de burel,

 

Determinei findar miséria e vida

Lá em partes inóspitas, distantes,

Entre gente comum desconhecida.

 

Estes olhos, que arderam relumbrantes,

Verteriam de dor sangue coalhado,

Qual os olhos de Job verteram d'antes.

 

Êstes pés, que no vício hão caminhado,

Manariam gangrêna, já desfeitos,

Como os pés de Jesus Crucificado.

 

Êstes braços, altivos de seus feitos,

De logar em logar, côdeas de pão

Buscariam, rendidos e sujeitos.

 

E esta abatida alma de cristão,

No cárcere da carne prisioneira,

À míngua mór, à mór tribulação,

 

Gostosa sorriria e prazenteira,

Qual o bom lavrador, em vélha idade,

Sorri festivamente ao pão na eira.

 

E, já em Deus o espírito e a vontade,

Me acolheria às solidões dum ermo,

Na derradeira angústia e pouquidade.

 

Lá houve afinal benigno termo,

Se, em tão grande, humildosa desventura,

Prouvera a meu Jesus de conceder-mo.

 

D'El-Rei me veio o embargo; e na clausura

D'A que, chorando estrêlas, nos conforta,

Em silêncio, escondi minha amargura.

 

Vida do mundo, junto dessa porta,

Com o rouco fragor que tudo abala,

Aos pés, em sombra vã, me caíu morta.

 

Dir-se-ía que o mar perdera a fala,

E a terra se volvera em nuvemsinha,

Bastando um ai de dôr a evaporá-la.

 

Já diversa era ali a pátria minha;

Que o trono do meu rei era uma cruz,

E o chão, banhado em sangue, o da raínha.

 

Ó Raínha da Angústia! ó Rei Jesus!

Venha a nós êsse império onde reinais,

Todo amor, todo esp'rança e todo luz!

 

Venham a nosso peito os vossos ais!

A nossas mãos, ó Cristo, os vossos cravos!

Maria, à nossa alma os teus punhais!

 

Venham a nós as chagas, que são favos!

Venham tua agonia e teu madeiro,

A nós, ó Rei do Céu, a teus escravos!

 

Dias de soledade e de mosteiro

Eu os vivi, na temerosa esp'rança

Da alva do meu dia derradeiro.

 

Esta dôr, que abrandou, que se fez mansa,

Ali chorou aos ais, como partida

Num deserto, de noite, uma criança.

 

E oh, alívio da alma arrependida!

Quanto mais afincado era o tromento,

Mais nos ombros ligeira a cruz da vida!

 

Como no ar o vento sôbre o vento,

Como no mar a vaga sôbre a vaga,

Só na dôr tem a dôr sossegamento.

 

E com a fôlha nua duma adaga

Todo eu me prazia em revolvê-la

Dentro do coração a hedionda chaga!

 

Qual as tuas, Jesus, quisera eu vê-la

De purpurina abrir-se numa rosa,

De inflamada acender-se numa estrêla.

 

Toda imunda, porêm, toda verdosa,

Só matéria escorria peçonhenta,

Só gangrêna letal, cadaverosa.

 

E eu a escarnava com a mão cruenta,

E eu lhe metia, para não sarar,

Carvões a arder na bôca pestilenta.

 

Mas a Virgem tristíssima, a chorar,

Lhe derramava, bálsamo divino,

O lumioso perdão daquele olhar.

 

Era assim, irmãmente cristalino,

O da visão angélica suave,

Que amistosa me foi desde menino.

 

E, a tão cândida luz, meu pesar grave

Ia alvorando, como rocha bruta,

Que pouco a pouco se fizesse em ave.

 

Já da úlcera ardente, quási enxuta,

Manava um soro apenas, filho ainda,

De podridão tão negra e tão corrupta.

 

Hora do livramento, hora bemvinda,

Uma noite, em um sonho d'esplendor,

Ma predizeu, chorando, a Virgem linda.

 

E, abraçando e beijando o Redentor,

Sem angústia enfadosa, sem queixume,

Dei a alma nas mãos do Criador.

 

Embrulhada de vício e de azedume,

As regiões celestes foi voando,

Como pálida luz solta do lume.

 

Numa névoa, a boiar, quedou sonhando:

Sonho de dôr feliz, dôr sem memória,

Névoa d'antemanhã que vem raiando.

 

Não era ainda ali perpétua glória:

Mas falecera já da vida ausente

A remembrança amarga e merencória

 

Sonho d'alma levíssimo, inocente,

Em músicas de estrêlas embalado.

Quem o dormir pudera eternamente!

 

E um véu de lua cheia, engrinaldado,

A Virgem desdobrou, em ar divino,

Sôbre a encantada paz do meu cuidado.

 

Era uma graça, um bem que eu não defino...

Jucundo enlêvo... candidez airosa...

Num presepe, a sonhar, feito menino...

 

E uma luzinha ao longe, misteriosa,

Cantando-me as canções que me cantava

Minha madre no berço, em Frol da Rosa...

 

Oh, descuidado alívio!... não cuidava

Que das culpas do mundo temeroso

Esta essência revel jazia escrava.

 

Deus a espertou no sono deleitoso,

E, por mais a punir, inda um momento

A banhou, ao de leve, em claro gôzo.

 

Só as estrêlas, só o firmamento

Recontar poderiam, se quisessem,

Meu desvairo, meu nojo e meu tromento!

 

Convinháveis palavras me falecem,

As que as bôcas dos homens deitam fóra

Tribulações daquelas não conhecem.

 

Lá d'alta estância donde venho agora,

Lá donde o Eterno me elegeu pousada,

Duzentos anos grandes, hora a hora,

 

Vi eu, alma em tromento, alma calada;

Minha pátria, a meu sangue redimida,

Por meu sangue afinal desbaratada!

 

Por sangue do meu sangue foi traída;

Eu que alentos lhe dei, lhe dei nobreza

Ao cabo lhe arranquei nobreza e vida!

 

Os filhos dos meus filhos, oh, tristeza!

A danaram com raiva tão medonha,

Que nem lôbos a hão contra uma presa.

 

Descendentes da míngua e da vergonha,

Réprobos eram, pois é justa a lei

Que do câncaro mau cria a peçonha.

 

Feze-os a sina herdeiros do meu rei,

Por que um a um no trono dessem conta

Dêste perdido reino, que eu livrei.

 

E eu lá daquela altura que amedronta,

Sem poder abalar, correr asinha,

Vingar com mão sanhosa a dura afronta!

 

Em vão, oh, dôr cruel! oh dôr mesquinha!

Alevantava súplicas piedosas

À dos anjos tristíssima Raínha!

 

Ela vertia lágrimas fermosas...

E nasciam estrêlas como flores,

Canteiros de boninas e de rosas...

 

Porêm, Deus era surdo a meus clamores!

Mais pesavam meus crimes na balança

Que os teus olhos de luz, ó Mãe das Dores!

 

Tal um peito rasgado de uma lança

Que em torvação eterna agonizara,

Sem alívio, sem morte e sem esp'rança!

 

Ó filha! Ó anjo pulcro! Ó alva clara!

Antes em leda e tenra meninice

Uma víbora má te envenenara!

 

Antes bôca de monstro te engolisse,

E daquele êrro o fruto miserando

Teu ventre criador nunca o parisse!

 

Vozes tais eu gemia, senão quando

Oiço como o ruir d'ûa montanha,

Como um trovão de súbito estoirando!

 

Deus arrasara a nobre flor da Espanha!

Nem a Virgem do Carmo em seu mosteiro

O defendeu de cólera tamanha!

 

Virgem do Carmo! vê-la num braseiro,

Misturada com pedras e destroços

Vê-la eu! seu algoz e seu cóveiro!!...

 

A igreja, que por môr dos olhos vossos

Alevantei, ó Virgem da Piedade,

Minha infâmia arruíu contra os meus ossos!

 

Grito d'alma naquela imensidade

Tão agudo expedi subitamente,

Que fez branca de dôr a Eternidade!

 

Assim horrenda, assim direitamente,

Em quejanda e cruel desaventura

Não foi posto no orbe um ser vivente!

 

Já dois séculos idos de amargura,

Acreditei que emfim o Criador

Houvera dó da triste criatura:

 

Do meu sangue de lástima e de horror

Cavaleiroso príncipe foi nado,

Qual nasce de uma campa ebúrnea flor.

 

Ah, o nobre donzel, d'olhar fadado,

A imagem de mim mesmo era talvez,

Quando isento do vício e do pecado.

 

Risonha aurora em noite se desfez...

Breve expirou, qual expiraram breve

Dentro em mim a virtude e a candidez.

 

Não perdôa o Eterno a quem lhe deve:

De culpa grande a ofensa lhe devia

E o castigo aturado o julgou leve.

 

Minha dôr empenosa acabaria

Com teu acabamento e sorte infanda,

Último rei de infanda dinastia.

 

Criatura nojenta e miseranda!

Ó vítima final! já na procela

Descubro o raio, a arder, que Deus te manda:

 

E a pátria! o meu amor! a pátria bela!...

Em que míngua eu a vejo!... Quem a abraça,

Quem vai lidar até morrer por ela?!...

 

Já o mundo a meus olhos se adelgaça!...

Montes, fraguedos, tudo se evapora...

São nuvens... sonho... sombra vã que passa...

 

Quási liberto já... não tarda a hora...

Sorri-me a Virgem!... como vem brilhante!...

Deus! quanta luz!... que mar de luz!... que aurora!

 

Queda enlevado, extático, sobre-humano. Irradia oiro. Descortina, súbito, numa panóplia, a vélha espada de Aljubarrota. O gládio heróico entre cutelos de verdugos! Como eximi-lo à afronta, se já mãos de eleito não devem tocar em ferros homicidas! Embora! Arranca-o, beija-o, ergue-o na dextra, e, da varanda, olhando a noite, em voz soturna de trovão:

 

Cavaleirosa espada relumbrante!

Se nesse lôdo amargo um braço existe

De profeta e de herói, que te alevante!

 

Inda bem que na lâmina persiste,

Em crua rememberança e glardão

Do sangue fraternal a nódoa triste.

 

Descobre o gládio a quem o houver na mão,

Que ante a justiça recta e verdadeira,

Não há padre, nem madre, nem irmão!

 

Porêm, se a pátria, já na derradeira

Angústia e míngua onde a lançou meu dano,

Terra d'escravos é, terra estrangeira

 

Rútila espada, que brandi ufano!

Antes um vélho lavrador mendigo

Te erga a custo do chão, piadoso e humano.

 

Volte à bigorna o duro aço antigo:

E acabes, afinal, relha de arado,

Pelos campos Deus a lavrar trigo.

 

Arrojando a espada ao abismo da noite:

 

Deus te acompanhe! Seja Deus louvado!

 

Desaparece. O rei fica no chão, imóvel e sem acôrdo.

_____

 

SCENA XXII

O espectro de Nunalvares atravessa, resplandecendo, a escuridão nocturna. Enxerga a distância, o vulto fantástico do doido. Pára, surpreendido. Contemplam-se.

 

 

O ESPECTRO DE NUNALVARES, melancólico, fitando o doido:

 

Se esta alma, há três séculos gemendo

Em carne humana andasse, e, dia a dia,

A perdição da pátria fôra vendo

 

No semblante de louca amostraria

Aquela dôr soturna e tenebrosa

Aquele olhar de pasmo e agonia!...

 

O DOIDO,absorto:

 

Oh, que figura estranha e luminosa!...

Que aparição aquela!...

E eu já a vi... eu já a vi... lembro-me dela...

Mas onde foi?... Cabeça tonta!... Onde seria?!...

Ah, ah, já me recordo!... quando eu vivia,

Tive assim um parente... um irmão... Um irmão?

Eu nunca tive irmão!...

Oh, que loucura! oh, que loucura!

Mas eu conheço êste fantasma... esta figura...

Aquele ar singular de guerreiro e de monge...

Eu conheço-o... Mas onde foi?... quando é que foi?... lá muito ao longe...

Muito ao longe... Ora espera!... Já sei! Não era irmão, não era!...

Fui eu próprio!... Fui eu assim!... Fui eu! fui eu! fui eu!

E tal e qual... é exacto,

O meu retrato!...

Fui eu!...

 

 

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NUN'ÁLVARES  PEREIRA

 

 

 

Que auréola te cerca?

É a espada que, volteando,

Faz que o ar alto perca

Seu azul negro e brando.

 

 

Mas que espada é que, erguida,

Faz esse halo no céu?

É Excalibur, a ungida,

Que o Rei Artur te deu.

 

 

'Sperança consumada,

S. Portugal em ser,

Ergue a luz da tua espada

Para a estrada se ver!

 

Fernando Pessoa, Mensagem, Edições Ática,

 Lisboa, 12ª edição, 1978, pág. 45.

 

 

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A BATALHA DE ALJUBARROTA, A BÍBLIA (ganhada aos Castelhanos)

E OUTRAS COISAS, DO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

 

(…)

 

O povo saiu à estrada e aclamava delirantemente o vencedor, entregava-se a danças e folias próprias do tempo e ao som de ininterruptas vivas, acompanhou D. João I e o seu exército até Alcobaça, onde foi recebido perante a comunidade dos monges. D. João ordenou que aos de maior nome, que morreram em Aljubarrota, se fizesse sepultura no Claustro do Mosteiro de Alcobaça, como urna de tão leais cinzas.

 

Do campo de Aljubarrota para o Mosteiro foram levados, pois, alguns cadáveres de nobres portugueses, tendo o rei oferecido alguns despojos da batalha. Entre estes, há a destacar, a bandeira de Castela, o ceptro do Rei de Castela, um oratório de prata, os caldeiros de cobre onde se fazia a comida para o exército invasor, um dos quais está exposto na Sala dos Reis e uma Bíblia, hoje denominada a Bíblia de Aljubarrota, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa.

 

Chamam-se Códices Alcobacenses, a um fundo de manuscritos existentes na Biblioteca Nacional e Torre do Tombo que pertenceram ao acervo do Mosteiro de Alcobaça, de onde foram levados depois de 1834. Alguns desses documentos provêm de Claraval, trazidos pelos monges fundadores de Alcobaça, mas a maioria é de calígrafos portugueses, quase todos da Ordem de Cister.

 

Os códigos destinavam-se, fundamentalmente, à formação espiritual dos monges de tipo litúrgico. Com os Códices de Alcobaça levados da sua Biblioteca para a Torre do Tombo, há uma obra que é uma dupla preciosidade, por ser artística e histórica.

 

Trata-se como se disse da chamada Bíblia de Aljubarrota que se diz ganha por D. João I, aos Castelhanos. Este manuscrito foi entregue ao Mosteiro de Alcobaça pelo Condestável D. Nun’Álvares Pereira e no princípio lê-se:

 

Bíblia ganhada na Batalha de Aljubarrota que el Rey Dom João o primeiro da gloriosa memória a qual era do próprio Rey de Castela foy ganhada dentro da sua própria tenda como consta da sua memória que está d’este próprio livro.

 

Fleming de Oliveira

 

 

 

Fonte: Internet, www.flemingdeoliveira.com/Doc17.html

 

 

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Nuno Álvares Pereira