TEOLOGIA / RELIGIÃO
PÁSCOA / 2010
JESUS CRISTO (NA CRUZ)
de Guido Reni
(1575-1642)
«O Verbo tornou-se carne... e, contudo,
não deixou de ser o que era antes»
S. Jerónimo
Ontem à noite, a Última Ceia.
Depois, a Paixão.
O sangue de Cristo, como maré cheia,
Ensopa o chão.
Hoje são as Trevas, e quem quer que creia
Implora perdão.
Perdidos no medo que o Demo semeia
Na escuridão,
Cada um aguarda, cada um anseia,
A Ressurreição.
2 de Abril de 2010
Aos que incessantemente procuram, aos aflitos e desafortunados, um aviso: A Esperança é uma borboleta colorida e rodopia entre os muros.
Apenas ouvia-se o barulho forte e ritmado das patas dos cavalos atravessando o rio. O som abafado como tambor erguia-se em compasso sonoro e repetitivo. O ruído abria círculos de ondas que cresciam indefinidamente. Os cavaleiros traziam nas mãos lanças com pontas de metal, outras esculpidas em madeira. O que podia ser visto era a passagem ligeira das patas, do dorso, da crina... apenas o movimento horizontal sobre a água… Deixavam o cheiro da pressa flutuando no ar. Formavam-se bolhas endurecidas que caiam rapidamente no chão. A cor turva da água tremulou ainda por alguns minutos quando o último animal passou. A areia do fundo do rio repetia o subir e descer e o movimento ganhou forma à nossa frente: os homens buscavam. Uns tinham feridas imensas à mostra. Cortes nas costas, furos de balas no peito. Alguns tinham marcas de cordas no pescoço e havia os que incessantemente buscavam o ar, como se lhes tapassem nariz e boca. Todos sem exceção queriam o encontro. Eram as vítimas em busca de seus algozes. A rigidez dos lábios e a petrificação dos olhos não nos deixavam dúvidas.
Perfilaram-se após o cessar da corrida lado a lado e viam, lá embaixo, as árvores. Depois das árvores havia canteiro de cores; muitas cores. Estávamos atrás deles e víamos o brilho das flores sob a luz do sol. Do lado de cá os guerreiros no momento prévio da batalha. Do lado de lá apenas o desconhecido. Temíamos o encontro. Buscamos mentalmente a benevolência do perdão. Enlaçamos todas as pontas e desejamos que a rede do infinito amor do Cristo chegasse até eles. Nossa força era demasiadamente limitada, éramos apenas portageiros de uma fé em transformação.
A respiração do guerreiro freava em ritmo ofegante e quando o último movimento serenou, ele apenas observou. Nada mais havia depois das cores, apenas o balanço de varais ao vento. O primeiro da fila olhou para o companheiro ao lado. Bateu por duas vezes a ponta da lança afiada no chão. O companheiro repetiu o gesto. O chão sobre nossos pés estremeceu com a batida coletiva. O primeiro homem desceu do cavalo e caminhou em direção às árvores. Os outros seguiram entre os canteiros de flores. O que ia à frente levantou a ponta do lençol sobre o varal. A partir dali a tarde findava-se numa claridade dourada e esta luminosidade dançava entre as árvores como uma melodia. O homem teve muita dificuldade em manter os olhos abertos. No começo não via nem ouvia nada, apenas recebia a luz. As cores emergiam das asas das borboletas e da água clarinha que se espalhava no rio. Agora o homem ouvia o rio. Era uma canção mansa, desconhecida. Lavou as mãos e deixou sob a água a arma de metal. O reflexo da água alargava e tremulava a lança. O guerreiro desceu novamente as mãos em concha e bebeu a água. Lavava calmamente as feridas na água fresca que misturava-se à poeira e ao barro da estrada. À medida que lavava o corpo o sangramento estancava. As feridas tornavam-se pontos pequenos e quase imperceptíveis. Do outro lado do rio, havia o burburinho indecifrável de vozes. O que abrira o caminho entre os lençóis prosseguiu em direção ao ruído, olhavam sem entender. Ali estava o que buscavam. Os que foram encontrados traziam um sinal individual que ligava cada um a algum deles. Apesar da aparência podiam ser reconhecidos. O homem que ia à frente, já sem marcas de sangue e sem sede estendeu a mão em direção a quem sempre buscara. Encontrou uma mãozinha pequena e roliça de criança. Entre as árvores e a vegetação rasteira estavam eles: centenas de meninos e meninas. Deviam ter pouco mais de dois anos. Cachos de cabelos e rostos redondos olhavam. O pequeno à frente do homem apontou-lhe o dedo, depois o recolheu subitamente em direção à boca. O guerreiro o tomou no colo. Os outros caminhavam entre o exército de soldados desarmados. Ouvia-se um burburinho de risos e prece. Lá do outro lado do rio a luminosidade brincava com as borboletas e com as nuvens do céu.
subi as ruas do sangue, dolorosas
e avistareis leões no rasto do Ungido
a presa bebe em nós a água e a sua sombra
come-se a Páscoa na alegria diferida
vinde ao banquete do vinho, não da pedra
onde a doença da morte dorme, recostada
sentai-vos junto do fogo que vos lembre o voo
histórias de perfumes e manhãs de linho
só um vestido nos falta para entrar
a Deus vai-se despido de roupagens
revista-vos a graça da nudez primeira
a desmesura da abordagem imprevista
comparecei à partilha da Palavra
à memória a que devemos estar presentes
enchei a mesa do dom do corpo entregue
do túmulo vazio o pão do dia rompe
vinde ver o lugar do sangue aberto
o tesouro guardado, indestrutível
ide dizer que o perfume encheu a casa
acordai as alusões esquecidas, as fogueiras
* O Nome e a Forma, Pedra Angular, 2009, p.191.
Olho o meu cristo pousado sobre a mesa.
É de barro, eu sei, mas não parece.
Usa na cabeça um sinal que o enobrece
o meu cristo de barro e de tristeza.
Os braços, parti-os ao descer
da parede onde estava pendurado.
São dois cotos expostos a meu lado,duas ânsias vencidas de sofrer.
Olho os seus olhos abertos, esgazeados.
Entram pelos meus como presságios.
Há neles o tremor dos condenados
e as súplicas que irrompem dos naufrágios.
É poeta, eu sei, pelos pecados
a que a vida o obrigou ̶ fatalidade.
E é deus pelos sonhos procurados
e pelas horas recolhidas de verdade.
Todo o seu corpo em mim se reconhece.
Sou mortal, eu sei, não o mereço.
Mas deixo-lhe um verso em tom de prece:
– A ti cristo de barro, eu me confesso!
*Pedras Suspensas, Universitária editora, 1996, p.47.
«O Logos [a Palavra] espiritual que, na mais alta espiritualidade divina, está acima de tudo o que é o criado material, introduz-se na "carne", expressão para o transitório e caduco humano que é próprio do homem como criatura. O Logos eterno, superior ao tempo, entra na história humana com as suas limitações e fragilidades; o Ser divino absoluto une-se ao ser humano contingente»
Rudolf Schnackenburg «E o Verbo se fez carne», Communio, 2003, nº1, p.25.
«Todas as respostas estão n'Ele ocultas: mistério do Amor neste Filho obediente até à morte, mistério da essência divina num Deus inacessível que se revela, mistério mesmo da visão corpórea num Deus que descobrimos fazendo-se homem»
Jean Baruzi (cit. por Carlos H. do Carmo Silva, "Filosofia, Ciência da Cruz e Mística" in Revista de Espiritualidade, nº 65, 2009, p.72)
à Hermética Irmandade dos Amigos da Luz
a Sigillum Militum Christi
aos expertos e peritos no Livro de Toth
No palácio infeliz da Desventura,
Eu vi meu coração crucificado.
Monstros, harpias mil... mas ao meu lado
Carpia uma amorosa criatura.
Era a Mãe! Minha Mãe que na fundura
Do seu olhar mais belo do que um prado,
O corpo de seu filho, ensanguentado,
Vira descer à negra sepultura.
«O meu filho! Meu filho tão pequeno!
Pra que eu te tive em mim, se te perdi?
O meu filho me entrega, ó Nazareno!!!»,
Dizia a pobre Mãe, quando eu parti;
Mas diz um Anjo azul, no Céu sereno:
«Ó Mãe, não chores mais, eu estou aqui.»
Lisboa, 03/ 05/ 1990
MENS AGITAT MOLEM
«O peso da cruz que Cristo carregou é a corrupção da natureza humana, com todas as consequências de pecado e sofrimento, com os quais foi assinalada a humanidade caída. O sentido último da via-sacra é libertar o mundo desse peso... A soma total das culpas humanas, desde a primeira queda até ao dia do juízo final, tem de ser apagada por uma expiação de medidas equivalentes. E esse reparação não é outra coisa que o caminho da cruz»
Edith Stein (cit. por Armindo dos Santos Vaz, "Edith Stein e o pecado original" in Revista de Espiritualidade, nº65, 2009, p.8).
«A Ressurreição desvenda aquele que é o artigo decisivo da nossa fé: "E fez-Se homem". Daqui sabemos que é para sempre verdade que Ele é homem. E sê-lo-á para sempre. Através dele a humanidade foi introduzida na própria natureza de Deus − é este o fruto da sua morte. Nós estamos, nós somos em Deus. Deus é o inteiramente outro e, ao mesmo tempo, o não-outro. Se dissermos Pai juntamente com Jesus, dizemo-lo no próprio Deus. É esta a esperança do homem, a alegria cristã, o Evangelho: ainda hoje Ele é homem. Nele, Deus tornou-Se verdadeiramente o não-outro. O homem, o ser absurdo, deixou de ser absurdo»
Joseph Ratzinger, O Caminho Pascal (1ª edição [original] 2000), Lucerna, 2006, p.113.

Estava o monte, estava a cruz, estava ele.
É verdade: e os pregos. Mas isso não tem importância.
Um corpo de homem. Um sangue de homem.
Dizia todas as coisas. Calmamente
era uma divina fala. Nos ares.
Vinha em ecos entre o céu e a terra.
Nada mais a fazer: estava entregue.
* Tábua das Matérias, Tertúlia, p. 55
«Tem Jesus muitos que amam o Seu reino, mas poucos os que querem levar a Sua cruz.
Tem muitos que querem consolação, mas poucos que desejem participar de Suas penas.
Acha muitos que O acompanhem na mesa, poucos os que O sigam na abstinência.
Todos querem alegrar-se com Ele, poucos os que, por Ele, querem sofrer alguma coisa.
Muitos O seguem até o partir do pão, poucos até ao cálice da amargura.
Muitos se maravilham com os Seus milagres, poucos se conformam com a ignomínia da cruz.
Muitos O amam, enquanto não há adversidades, muitos O louvam e exaltam, enquanto d'Ele recebem benefícios. E se Jesus deles se esconde, deixando-os por algum tempo, logo se queixam e se entregam ao desânimo.
Imitação de Cristo (excerto de), pp.61-62.
