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«A mudança está em tuas mãos.

Reprograme tua meta, busca o bem e viverás melhor.

Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo

Qualquer um pode começar agora e fazer um Novo Fim.»

                             Francisco Cândido Xavier (1910-2002)

 

«Paira sobre o planeta a vigília dos espíritos abnegados

que deixam cair sobre os aflitos as pétalas da misericórdia»

 

                                                                                                         Luísa Ataíde

 

 

 Máquina do Mundo

 

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.


Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.


Espaço vazio, em suma.


O resto é a matéria.


Daí que este arrepio


este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,


esta fresta de nada aberta no vazio,

 

deve ser um intervalo.


                                      António Gedeão

 

 

 

Silêncio cósmico


Pudera eu regressar ao silêncio infinito, ao cosmos de onde vim.


No espaço interestelar, vazio, negro, frio,


havia de soltar um grito bem profundo


e assim exorcizar todas as dores do mundo.

 

                                    Regina Gouveia

 

Santa Catarina de Siena (1347 - 1380)

 

«O obstinado é aquele que continua a fazer o que faz mesmo quando tudo parece demonstrar que não o pode fazer.

 

No plano cognitivo esta atitude exprime-se deste modo: "Não podemos mais fazer isso", mas continuamos a fazê-lo, contra ventos e marés.

 

A obstinação traduz-se modalmente assim: "não posso, mas faço-o". Como se vê, a modalidade dominante é aqui a do querer.

 

O obstinado sabe que, no plano cognitivo tal é impossível, sabe que no plano do desejo quer o impossível.

 

Catarina de Siena não tinha outro verbo a que se arrimar: "Eu quero".

(...)

Bom seria que fôssemos Operários do Céu (e da Terra). Contra a arrogância e o despotismo que hoje placidamente reinam.

 

É difícil aceitar o despojamento de que Lao Tsé testemunha: "o sábio não tem ideias". Ou a informação de Heraclito (Fragmentos, nº 93): "O deus, cujo oráculo está em Delfos, não fala nem se silencia, mas dá sinais".

 

Essa é a melhor atitude contra o autoritarismo marmóreo e fixista e a "doxa" [opinião].

                                                                           José Augusto Mourão*

 

* in «A Guerra dos Paradigmas», texto lido pelo autor na Abertura do IX Colóquio Internacional «Discursos e Práticas Alquímicas»

 

 

 

NAS PRAIAS NOVAS DE UMA ESCRITA

Na morte da escritora Matilde Rosa Araújo (1921-2010)

 

 

 

 

«O QUE ESPERA OS HOMENS DEPOIS DA MORTE NEM É

O QUE ELES PREVÊEM NEM AQUILO EM QUE ACREDITAM»

Heraclito, Fragmento 27

 

Entre a literatura infantil e a literatura para adultos não criou Matilde Rosa Araújo fronteiras bem definidas. Cada um dos seus contos, cada um dos seus poemas para crianças, parecem destinados a dar glória à criança que se esconde nas máscaras das pessoas adultas.

No universo desta escritora portuguesa de cristalina água, salta à vista a sua identidade de mulher, mas de mulher que conserva quase que intacto todo o esquema mental daquilo que há de mais belo numa criança. Por isso, dividimos as suas obras em aquelas que são literatura infantil e as que são literatura não infantil. E não dizemos literatura para adultos porque em qualquer delas está o estigma da própria infância da autora de O Palhaço Verde.

Nas duas classificações de literatura estão os momentos inesperados da circunstância de conhecer um menino só, ou triste, ou sem a memória de qualquer infância; mas igualmente, a realidade da mulher que sonha, ou que confia, ou que vê a realidade sem sofismas, como se fosse uma criança.

Num presente vive toda a criança. Num presente de transparência, num presente em que não se incluem feridas por sarar, num presente aberto à novidade do caminho. Mas, para Matilde, no presente deve estar imerso e visível também o adulto. Então, a síntese é possível. O adulto pode albergar a criança, não deixando de ser adulto e sendo-o, desse modo, com mais plenitude e grandeza.

Por isso, os dois mundos – o da infância e o do adulto – que parecem opor-se, devem interpenetrar-se a tal ponto que não se agridam, nem se estranhem, antes se tornem um só. Lembremos uma passagem do conto (não infantil) «Por nada», em que Matilde Rosa Araújo nos confessa: «Nunca perguntei pelo passado a ninguém. Para quê? Nunca o quis saber. O que me interessa é o presente, olhar as pessoas no seu presente, ia a dizer do indicativo. Como são capazes de amar, viver, olhar os outros. Isso é que é importante, o eixo principal. O que sempre foi e será. Passado e futuro pertencem às contingências do caminho (...) E, assim, eu conhecia-lhe o presente do indicativo, só a paisagem que tinha em frente, sinal de um caminho» (Praia Nova, Vega, 2001, pp.89-90).

A autora de O Livro da Tila (1957)  acaba de nos deixar. Do mundo ausentou-se um ser humano à medida das alturas. A tenda da mulher empobreceu. O mundo da criança perdeu uma defensora dos seus tão atropelados direitos. Nesta "apagada e vil tristeza" (como dizia Camões), com que se confrontam tantos milhares de crianças na hora que passa, há pessoas que não deviam sair deste mundo vivo.

O seu combate a favor da justiça e da fraternidade é suspenso pela "lei da morte", a que ninguém escapa. Cabe-nos, a nós, enquanto aqui estamos, manter viva a sua insubstituível herança, a sua maravilhosa dádiva, o seu arsenal de amor que deve ser "cantado por toda a parte", como também dizia Camões.

No próximo mês de Outubro, um texto seu, inédito, será publicado pela editora Calendário. O nome que a autora lhe deu foi simples, infantil, como tudo o que escrevia e fazia Matilde: Florinda e O Pai Natal. Um novo livro para a infância. Matilde Rosa Araújo aqui está. No meio de nós. A fazer de conta e a ser na memória do que sentenciava no conto «Praia Nova» (p.97):  «E ela que tivera sempre tanto medo, tanto medo da morte! Lembra-se de, quando era pequena, levantar-se de noite, agarrar-se aos ferros da cama (que cama tão fria e de grades teve até ser mulher) e murmurar num repetir assustado: Nunca, nunca hei-de morrer!». Na hora da despedida, aos oitenta e nove anos, dizemos a Matilde Rosa Araújo: a arte com que olhou as crianças não morre.

 

 7 de Julho de 2010

Teresa Ferrer Passos

 

 

 

 

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