HARMONIA DO MUNDO
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TERESA FERRER PASSOS
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FERNANDO HENRIQUE DE PASSOS
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«A mudança está em tuas mãos.
Reprograme tua meta, busca o bem e viverás melhor.
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo
Qualquer um pode começar agora e fazer um Novo Fim.»
Francisco Cândido Xavier (1910-2002)
«Paira sobre o planeta a vigília dos espíritos abnegados
que deixam cair sobre os aflitos as pétalas da misericórdia»
Luísa Ataíde
Máquina do MundoO Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
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Santa Catarina de Siena (1347 - 1380)
«O obstinado é aquele que continua a fazer o que faz mesmo quando tudo parece demonstrar que não o pode fazer.
No plano cognitivo esta atitude exprime-se deste modo: "Não podemos mais fazer isso", mas continuamos a fazê-lo, contra ventos e marés.
A obstinação traduz-se modalmente assim: "não posso, mas faço-o". Como se vê, a modalidade dominante é aqui a do querer.
O obstinado sabe que, no plano cognitivo tal é impossível, sabe que no plano do desejo quer o impossível.
Catarina de Siena não tinha outro verbo a que se arrimar: "Eu quero".
(...)
Bom seria que fôssemos Operários do Céu (e da Terra). Contra a arrogância e o despotismo que hoje placidamente reinam.
É difícil aceitar o despojamento de que Lao Tsé testemunha: "o sábio não tem ideias". Ou a informação de Heraclito (Fragmentos, nº 93): "O deus, cujo oráculo está em Delfos, não fala nem se silencia, mas dá sinais".
Essa é a melhor atitude contra o autoritarismo marmóreo e fixista e a "doxa" [opinião].
José Augusto Mourão*
* in «A Guerra dos Paradigmas», texto lido pelo autor na Abertura do IX Colóquio Internacional «Discursos e Práticas Alquímicas»
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NAS PRAIAS NOVAS DE UMA ESCRITA Na morte da escritora Matilde Rosa Araújo (1921-2010)
«O QUE ESPERA OS HOMENS DEPOIS DA MORTE NEM É O QUE ELES PREVÊEM NEM AQUILO EM QUE ACREDITAM» Heraclito, Fragmento 27
Entre a literatura infantil e a literatura para adultos não criou Matilde Rosa Araújo fronteiras bem definidas. Cada um dos seus contos, cada um dos seus poemas para crianças, parecem destinados a dar glória à criança que se esconde nas máscaras das pessoas adultas. No universo desta escritora portuguesa de cristalina água, salta à vista a sua identidade de mulher, mas de mulher que conserva quase que intacto todo o esquema mental daquilo que há de mais belo numa criança. Por isso, dividimos as suas obras em aquelas que são literatura infantil e as que são literatura não infantil. E não dizemos literatura para adultos porque em qualquer delas está o estigma da própria infância da autora de O Palhaço Verde. Nas duas classificações de literatura estão os momentos inesperados da circunstância de conhecer um menino só, ou triste, ou sem a memória de qualquer infância; mas igualmente, a realidade da mulher que sonha, ou que confia, ou que vê a realidade sem sofismas, como se fosse uma criança. Num presente vive toda a criança. Num presente de transparência, num presente em que não se incluem feridas por sarar, num presente aberto à novidade do caminho. Mas, para Matilde, no presente deve estar imerso e visível também o adulto. Então, a síntese é possível. O adulto pode albergar a criança, não deixando de ser adulto e sendo-o, desse modo, com mais plenitude e grandeza. Por isso, os dois mundos – o da infância e o do adulto – que parecem opor-se, devem interpenetrar-se a tal ponto que não se agridam, nem se estranhem, antes se tornem um só. Lembremos uma passagem do conto (não infantil) «Por nada», em que Matilde Rosa Araújo nos confessa: «Nunca perguntei pelo passado a ninguém. Para quê? Nunca o quis saber. O que me interessa é o presente, olhar as pessoas no seu presente, ia a dizer do indicativo. Como são capazes de amar, viver, olhar os outros. Isso é que é importante, o eixo principal. O que sempre foi e será. Passado e futuro pertencem às contingências do caminho (...) E, assim, eu conhecia-lhe o presente do indicativo, só a paisagem que tinha em frente, sinal de um caminho» (Praia Nova, Vega, 2001, pp.89-90). A autora de O Livro da Tila (1957) acaba de nos deixar. Do mundo ausentou-se um ser humano à medida das alturas. A tenda da mulher empobreceu. O mundo da criança perdeu uma defensora dos seus tão atropelados direitos. Nesta "apagada e vil tristeza" (como dizia Camões), com que se confrontam tantos milhares de crianças na hora que passa, há pessoas que não deviam sair deste mundo vivo. O seu combate a favor da justiça e da fraternidade é suspenso pela "lei da morte", a que ninguém escapa. Cabe-nos, a nós, enquanto aqui estamos, manter viva a sua insubstituível herança, a sua maravilhosa dádiva, o seu arsenal de amor que deve ser "cantado por toda a parte", como também dizia Camões. No próximo mês de Outubro, um texto seu, inédito, será publicado pela editora Calendário. O nome que a autora lhe deu foi simples, infantil, como tudo o que escrevia e fazia Matilde: Florinda e O Pai Natal. Um novo livro para a infância. Matilde Rosa Araújo aqui está. No meio de nós. A fazer de conta e a ser na memória do que sentenciava no conto «Praia Nova» (p.97): «E ela que tivera sempre tanto medo, tanto medo da morte! Lembra-se de, quando era pequena, levantar-se de noite, agarrar-se aos ferros da cama (que cama tão fria e de grades teve até ser mulher) e murmurar num repetir assustado: Nunca, nunca hei-de morrer!». Na hora da despedida, aos oitenta e nove anos, dizemos a Matilde Rosa Araújo: a arte com que olhou as crianças não morre.
7 de Julho de 2010 Teresa Ferrer Passos
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